Marina vira praia e sustento de sucateiros

As ondas colocam a nu materiais ferrosos e de alumínio que servem de rendimento a alguns desempregados. Enquanto isso, a marina assoreada de inertes, dá lugar a praia. Populares acreditam que vai ser preciso mais dinheiro para suster o avanço do mar.

13 Mar 2018 / 02:00 H.

8:34. Lugar de Baixo. As ondas fustigam incessantemente o que ainda resta do molhe sul da marina. À volta um rasto de destruição mais parece ter sido retirado de um cenário de guerra. No entanto não há vestígios de peças de artilharia e muito menos relatos de bombardeamentos. “Foram as tempestades que destruíram isto tudo”, responde-nos uma voz saída do meio dos escombros do prédio fantasma. Um homem de idade já avançada vinha na nossa direcção, deambulando de um lado para outro, cabisbaixo e atento algum brilho.

“É algum fiscal ou é jornalista?”, interroga-nos fitando o olhar enquanto dá outra passa no cigarro quase no filtro. “Ah, é jornalista. E o que é que ainda falta escrever sobre esta merd*? Só se for para escrever que está a nascer uma praia ali...”, sugere como notícia ao mesmo tempo que levanta o braço direito e com o dedo indicador aponta para o local onde a água chega tranquilamente.

Pelo meio da conversa, Dinis faz questão de se apresentar. Está desempregado já lá vão nove anos. Foi mestre da construção civil na época em empreiteiro regateava salário. Hoje, Dinis limita-se andar à cata de sucata para poder “ganhar uns trocos”.

“Venho todos os dias aqui. Se o mar não está bom, e pescar alguma coisa. Tento ver se encontro algum ferro ou algum alumínio no calhau. Sempre dá alguma coisa... sempre dá para matar a fome. Daqui não se pode levar nada porque se a gente leva ainda somos apanhados. Aqui há ferro às toneladas”, observa negando de ar comprometido que alguma vez tivesse levado material. “Há muitos que vêm à procura, mas sabe como é, não se pode”, comunga desviando rapidamente o assunto. E percebe-se porquê. Não lhe interessa falar da recolha do material ferroso. Ainda assim, insistimos: “Não está vendo. Olhe aquele ali. Quando se apercebem que estão muitos faróis [olhos] vendo, eles não mexem em nada”.

Passos adiante, convida-nos a ver de perto aquilo que chama de praia. “O mar já quebra aqui, está a ver? Olhe a quantidade de areia, não é amarela como aquela que importaram para a Calheta e para Machico, veja o calhau que está a nascer... daqui a uns dias já se pode fazer uma praia”, expressa sorridente, mas num ápice o semblante esmorece.

“É uma pena. Quantos milhões foram deitados aqui? 300 milhões? Sei lá... foi uma coisa pra aí...”, expressa julgando que a quantia está correcta, e quando ouve a cifra da boca do repórter, fica escandalizado: “Quanto? Entre 60 a 100 milhões? Cá nada. Tá louco. Foram muito mais. Mas mesmo que fosse, daria para alimentar tanta gente, daria para cada pessoa da Ponta do Sol ou dos Canhas (onde reside) viver cinco estrelas”, declara, ajustando de imediato o gorro da cor da terra que leva à cabeça.

“Isto sim é que foi uma asneira das grandes. Qualquer dia vai ser preciso mais dinheiro para fazer um paredão para proteger as ondas da estrada”, prognostica ciente que o seu palpite irá concretizar-se mais cedo do que muitos pensam: “Primeiro, porque as pessoas não vêem o que está aqui por causa daqueles tapumes. E, depois, porque já tive de fugir daqui com ondas de 12 metros. A força era tanta que chegavam lá dentro”, recorda o episódio.

Entretanto Dinis senta-se numa pedra puxando mais um cigarro do maço que leva consigo. Faltam poucos, percebemos. Fala da família, das três mulheres com quem casou, dos filhos, alguns emigrados, uma que é “doutora”, outra que trabalha na PJ e o mais novo que ainda sustenta. Tem 16 anos e com “cabedal” suficiente para trabalhar, uma deixa para abordar outro tema.

“Oiça ninguém quer trabalhar com essa idade. Dizem que não podem, que é ilegal”, relembrando uma “cena”: “Há dias fomos pelo calhau e à paginas tantas disse-me que não podia com os dez quilos que trazia. Lá tive de carregar com o dele e mais os 80 que trazia”.

Antes de seguir caminho pelo calhau mostra-nos a quantidade de tubo em alumínio que está espalhado pela marina que daria para arrecadar algumas centenas de euros: “Isto que está aqui vale dinheiro, mas se nos apanham é tramado”, justifica o motivo para não arriscar. “Estas pedras custam 1,50 cada. Muitas ‘voaram’ daqui”, volta a rir.

Garante-nos de pés juntos que nunca cedeu à tentação nem mesmo uma peça de menor importância. “Só venho passar o tempo e pescar”, remata o diálogo com uma estridente gargalhada.