Manter a Lagoa do Santo quase vazia custa 25 mil euros/ano

Manutenção da impermeabilização implica esvaziar a lagoa todos os anos

07 Dez 2017 / 02:00 H.

Não é por acaso nem se deve apenas ao decréscimo da precipitação registada nos últimos anos o facto de a Lagoa do Santo da Serra nunca encher, ou bem pior do que isso, estar quase sempre no fundo. Como acontece actualmente, com a lagoa vazia neste início da época de chuva, porque uma vez mais está a ser alvo de obras. Tem sido assim todos os anos, desde que foi reinaugurada em vésperas das eleições, em Outubro de 2011, apesar de só ter entrado em exploração passados dois anos, porque entretanto já estava a ‘meter água’, o que obrigou a constantes remendos.

A cada ano que passa parece cada vez mais inglória a retirada de 175 mil metros cúbicos de terras, para permitir, na prática, que no local fosse construída uma nova lagoa com uma superfície estimada em cerca de 74 mil metros quadrados (impermeabilização) e com capacidade para um volume de água de cerca de 640 mil metros cúbicos, destinada ao armazenamento e disponibilização de água de rega para beneficiar, directamente, os mais de 2 mil regantes e sensivelmente 400 hectares de área regada, nos concelhos de Santa Cruz e Machico.

Se em 2011 dizia-se que a lagoa poderia atingir os 23,5 metros de altura máxima de água no nível pleno de armazenamento, em 2015 a secretária do Ambiente e Recursos Naturais, Susana Prada, encolheu consideravelmente a fasquia, ao assumir no parlamento regional que na melhor das hipóteses a lagoa só poderia encher até 10 metros de altura, porque, justificou, o terreno onde fora construída não suporta maior volume de água porque deforma a tela.

Apesar de ter custado 5,7 milhões de euros, num investimento co-financiado pela União Europeia, cabendo aos cofres da Região, 854 mil euros, o melhor resultado registado na problemática lagoa nestes seis anos nunca passou de ‘meio vazia’. Realidade agravada pelos custos que todos os anos vão ‘por água abaixo’, com dezenas de milhares de euros anualmente gastos em recorrentes em intervenções de conservação e manutenção deste ‘poço sem fundo’.

Manutenção custa
25 mil euros/ano

Só em intervenções de manutenção que são realizadas todos os anos “e constam do orçamento anual de conservação e manutenção da empresa, têm um custo de cerca de 25.000 euros/ano”, revela a ARM – Águas e Resíduos da Madeira, a empresa pública com a gestão de água para regadio em regime de alta e de baixa, incluindo captação, transporte, armazenamento e distribuição ao consumidor final.

O ‘charco’ que actualmente apenas cobre o fundo da lagoa já só surpreende quem não lida de perto com a problemática inerente à mesma.

A ARM lembra que “por se tratar de uma lagoa com características de fundação especiais, está sujeita a um programa de monitorização exigente e regular”. Por essa razão “anualmente, no final de cada período de rega (giro) a lagoa é sujeita a uma acção de limpeza das lamas decantadas no fundo, à realização de programa de observação e monitorização do fundo só possível com a lagoa vazia, à inspecção minuciosa do sistema de impermeabilização, e se justificar em função da inspecção pode ser realizada intervenção para eliminação de potenciais locais de tensão excessiva na geomembrana”, esclarece. Trabalhos estes que “só podem ocorrer com a lagoa vazia, ou seja, a lagoa não pode estar em serviço ou em fase de enchimento”, diz, justificando assim a razão da lagoa estar praticamente seca e com máquinas no seu interior. De acordo com entidade responsável pela gestão da água, “normalmente a lagoa entra em fase de enchimento entre os meses de Janeiro e Abril, entrando em pleno serviço (exploração) para regadio de Maio a Outubro, e fica vazia de Novembro a Dezembro para o programa de manutenção anual”.

Face a esta realidade e sabendo-se que os engenheiros chegaram a transmitir que o prazo mais optimista é que, por cada metro de altura de água registado na lagoa seja necessário esperar um mês para o conseguir, isto tendo em conta o valor médio de precipitação e os caudais de água provenientes de nascentes próximas, fácil será deduzir que no melhor dos cenários, a lagoa que só carrega quatro meses por ano, dificilmente atingirá um quinto dos quase 24 metros de altura, ou seja, continuará muito longe de cumprir os parâmetros normais para que foi concebida.

Não obstante a realidade estar muito aquém do pretendido, “desde a entrada em exploração da Lagoa do Santo, em 2013, a sua operação decorre com normalidade, para o nível máximo estipulado pela ARM”, assegura.

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