Mais de mil doentes sem consulta de Psiquiatria há um ano

25 Set 2017 / 02:00 H.

Existe uma relação directa entre o mau serviço de psiquiatria público e o aumento do número de suicídios na Madeira. A opinião é do decano da Psiquiatria na Região, Saturnino Silva e foi manifestada ao DIÁRIO, em entrevista data de Janeiro último. O médico dizia que “os suicídios quadruplicaram” e afirmou que, entre as várias causas possíveis, “a principal, é uma má assistência de Saúde Mental à população, quer queiramos, quer não. Se repararmos, o índice de suicídios começou a subir a partir do encerramento do Centro de Saúde Mental (CSM)”.

Passados nove meses, a situação dos doentes não melhorou, ainda que, pelo meio, tenha havido a manifestação de intenções em mudar a realidade, através de um novo Plano de Saúde Mental e com a contratação de mais médicos psiquiátricas, para desenvolverem actividade no SESARAM.

Apesar disso, há mais de mil utentes, que eram acompanhados na consulta externa de Psiquiatria, nos Marmeleiros, que não o são devidamente há mais de um ano. Na melhor das hipóteses, um dos dois médicos psiquiatras do quadro consegue passar as receitas para continuação de tratamentos, sem reavaliação. Por vezes, esse papel é desenvolvido pelo médico de família. Uma realidade confirmada, nesta semana, oficiosamente ao DIÁRIO.

Um dos problemas resulta do facto de alguns médicos de família não se sentirem à vontade para seguir determinados casos. Em algumas situações, o recurso utilizado é o envio do doente para a Urgência hospitalar para ser visto pelo psiquiatra de prevenção.

Mesmo para os doentes que têm possibilidades financeiras para recorrerem a consultas no sector privado, a vida não está fácil. Na maior parte dos casos, é necessário esperar vários meses para se conseguir uma consulta.

Falta de psiquiatras é mãe de todos os problemas

O grande problema com as consultas está na falta de psiquiatras no SESARAM. Deveriam ser seis a oito e, nos quadros, são só dois. Em Fevereiro deste ano, na ALM, o secretário Pedro Ramos garantia que, em Janeiro de 2018, serão oito. Mas, em Abril, já tinha uma visão ligeiramente diferente: “O número não interessa, interessa é saber as necessidades do SESARAM em termos de recursos humanos para atingir determinados objectivos.”

Certo é que a Secretaria da Saúde tem feito um esforço para conseguir que mais psiquiatras trabalhem no SESARAM. Uma acção que tem passado pela persuasão de médicos, que deixaram o serviço público, a regressar.

Neste momento, os internamentos em psiquiatria acontecem fora das unidades do SESARAM. As mulheres são enviadas para a Casa de Saúde Câmara Pestana, os homens para a Casa de Saúde São João de Deus e os adolescentes para a Sagrada Família.

Estes últimos integram a faixa etária em que o suicídio mais predomina.

Os dados, a nível mundial, evidenciam que, entre os 15 e os 29 anos, o suicídio, resultante de casos de depressão, é a segunda causa de morte.

Sobre a pedopsiquiatria, o ex-director de serviço de Psiquiatria do SESARAM, dizia, em Abril último, ao DIÁRIO, que a depressão e o suicídio, na Madeira, atingem mais os jovens nas zonas urbanas. “Nas zonas urbanas, a doença está a surgir em jovens adultos e até nos jovens adolescentes (...).Têm existido imensos casos de depressão na adolescência e alguns casos de tentativas de suicídio. Segundo sei, o internamento na pedopsiquiatria tem estado no limite, sempre cheio. É algo preocupante.”

Já neste ano, em Fevereiro, Pedro Ramos, anunciou que o SESARAM vai voltar a ter internamento de psiquiatria, para os casos mais agudos. Mas, questionado sobre quando e onde isso vai acontecer respondeu: Essa é uma pergunta um pouco descabida neste momento, porque acabámos a primeira reunião.

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