Magia dos livros na ilha onde não há uma livraria

Mais de cinco mil títulos aguardam leitores na feira do Livro, aberta até 15 de Setembro

17 Jul 2017 / 02:00 H.

Primeiro espreitam com algum receio, depois, a curiosidade é mais forte e entram. Observam, passam as mãos pelas estantes e pelas mesas. Vencido o medo, pegam num livro, folheiam, lêem, vêem as figuras, comentam os preços. A Feira do Livro do Porto Santo não deixa ninguém indiferente.

Em pleno centro da cidade, na tenda montada para o efeito pela empresa Magia das Cores, mais de cinco mil títulos aguardam novos leitores. Literatura infanto-juvenil, banda desenhada, romances, apoio escolar, culinária, auto-ajuda, das mais diversas áreas, de diferentes editoras.

“Não conseguimos ter tudo, nem as grandes livrarias conseguem ter tudo, mas temos um pouco de tudo, para todas as idades”, descreve, ao DIÁRIO, Rui Santos. Depois de uma primeira edição, no ano anterior, o empresário aposta novamente no mercado do livro no Verão, com muitas novidades.

“A maior parte, 70 a 80% dos livros que nós temos, é novidade”, explica. “Porque as pessoas, tanto os residentes, como as que vêm de férias, querem comprar livros novos, actuais. A oferta este ano está nas novidades e nos baixos preços”, acrescenta. Além do desconto de 10% legalmente permitido para as obras mais recentes, a Magia das Cores propõe baixas de preços significativas para as obras com mais de 18 meses. Livros desde um euro e meio...

Junto à secção juvenil, Vicente desaparece por trás da mesa, enquanto devora o “Capitão Cuecas”, um dos mais recentes sucessos da literatura para aquela idade. Mais tarde, acabará por convencer o pai a levar o livro para casa.

De férias na ilha, Mariana procura convencer os seus dois netos a escolherem um livro para ler na praia. “É importante transmitir-lhes hábitos de leitura”, conta esta médica reformada, “primeiro vão ocupando o tempo e depois ganham conhecimentos que lhes poderão ser úteis no futuro. O saber não ocupa lugar”, remata.

Para atrair estes e outros clientes, em especial os turistas que nesta época do ano procuram o Porto Santo para uns dias de descanso, os responsáveis pela Feira do Livro do Porto Santo irão promover várias actividades, como oficinas e sessões de autógrafos com escritores. Tudo para manter vivo o interesse numa feira que irá durar quase dois meses. “Vamos estar abertos até ao dia dez de Setembro. Este ano vamos encurtar um bocadinho por causa do Festival Colombo. Estaremos abertos desde 15 de Julho a 10 de Setembro, todos os dias, das 10 às 14 horas e das 18, à meia noite”, explica o responsável.

Os livros: do negócio à cultura

A Feira do Livro do Porto Santo põe a nu uma das realidades da ilha: aqui não existe uma livraria.

Este evento, que coincide com a chegada de milhares de turistas ao Porto Santo, pode representar, por isso, uma excelente oportunidade de negócio, mas também, uma dor de cabeça. “A organização da feira do livro é um processo complexo aqui no Porto Santo, porque nós não trabalhamos regularmente com livros. Os livros vêm todos nesta altura. Temos todo um processo de criação, de introdução, de colocação de preços, mas é motivante e o saldo, no final, é positivo. Pelo menos temos essa expectativa”, conta Rui Santos, ao DIÁRIO.

O empresário reconhece ser muito difícil manter aberto um espaço exclusivamente dedicado à venda dos livros, pela forte concorrência no sector e dimensão do mercado porto-santense ao longo do ano. Daí a importância da Feira do Livro. Evento que gostaria de ver crescer e que fosse visto também como um evento cultural, com a presença de escritores conceituados, a apoiar pelos responsáveis políticos locais.

28 anos ligado aos livros

A paixão nota-se na voz de Agostinho Gonçalves que dedicou quase três décadas da sua vida ao comércio dos livros. Instalado alguns metros abaixo da Feira do Livro do Porto Santo, no largo da Câmara Municipal, este livreiro madeirense assume as dificuldades dos pequenos livreiros do sector, esmagados entre a concorrência das grandes superfícies e as grandes editoras. “Mas a procura está novamente a surgir”, acrescenta confiante. Rodeado de alguns velhos clássicos da literatura portuguesa e universal e diverso material de papelaria, promete novidades para breve. “Estaremos cá até Setembro”, conclui.