“Madeira pode ser referência na produção de maracujá biológico”

Abel Rebouças

08 Nov 2017 / 02:00 H.

Abel Rebouças, engenheiro agrónomo e ex-presidente da sociedade brasileira de fruticultura, foi o especialista convidado das Primeiras Jornadas Técnicas do Maracujá que decorreu na Escola Agrícola, em São Vicente. O professor veio transmitir o seu vasto conhecimento nesta cultura, nomeadamente no campo genético, enxertias, podas, polinização, entre outros aspectos relevantes para esta cultura.

Chega à Região para falar de uma cultura que está em expansão. Que ideias traz aos produtores madeirenses para que possam aumentar as suas produções? Sobretudo vamos discutir os principais entraves e principais dificuldades que têm e quais as soluções para combater esses problemas. Vamos discutir a parte fitossanitária, porque são a partir das doenças e a partir das pragas, não só aqui, mas em todo o mundo onde existem cultura de maracujá, que muitas vezes são limitadoras do cultivo.

O que é que necessário para contrariar esses constrangimentos? Precisamos de boas condições climáticas e também de solo para produzir com qualidade e com a sustentabilidade que esta actividade precisa. Para que isso aconteça é necessário um manuseamento adequado, quer no trato biológico ou, nalgumas situações, químico, no sentido de termos uma outra qualidade tornando as produções competitivas dentro e fora da ilha.

As pragas são a maior dor de cabeça dos produtores. São comuns ou a Madeira tem casos específicos? Temos algumas doenças, de origem virótica, que ocorrem nas produções de maracujá que estão presentes em todas as regiões produtoras do Mundo. Aqui também está presente. Portanto, temos de saber conviver com essas pragas porque jamais iremos exterminar essa doença. O que temos de fazer é justamente escolher a época certa para plantação, a sua renovação e ter muita atenção à variedade que melhor se adapte, mas em especial devemos ter preocupação a melhor altura da plantação e o espaçamento adequado e não ter receio em eliminar a planta não deixando como foco da doença para o futuro e para os produtores vizinhos.

A durabilidade e a rentabilidade da cultura limitam o aparecimento de novos produtores? A durabilidade está relacionada com as doenças. No passado, estas culturas duravam quatro e cinco anos. Isso foi sendo reduzindo em função dos problemas das enfermidades que o maracujá enfrenta. Hoje, a durabilidade foi sendo reduzida para dois anos e, nalguns pontos, para um ano apenas. Nestes casos temos de acelerar a produção para que produza num ano aquilo que produziria em três.

Como se faz isso? Como é anual, a ideia é renovar as plantas anualmente sem perder qualidade ou rentabilidade.

Vem de um país que é o maior produtor mundial de maracujá. O que tem de tão especial este fruto? É verdade, somos o maior produtor mas também o maior consumidor. Produzimos cerca de 50 mil hectares e todo isso é consumido sendo necessário, nalgumas épocas, preciso importar para completar a procura. O que acontece é que existe maior conhecimento sobre as propriedades desta fruta. Antes, o maracujá servia para embelezar os pratos, mas hoje sabemos que tem propriedades farmacológicas e elementos antioxidantes e isso contribui para uma melhor dieta alimentar.

Ou seja, aumentar a sua longevidade... O maracujá é um desses frutos que aumenta a longevidade das pessoas daí que a produção aumente diariamente.

Já visitou algumas explorações? Sim, já visitei algumas para saber os problemas que têm.

Foram muitos? Os maiores estão ligados às pragas.

O Governo Regional tem um plano estratégico para esta cultura. Acha é o melhor caminho para dinamizar o sector? Não tenho a menor dúvida que é uma iniciativa fabulosa porque irá trazer novas oportunidades, novas técnicas para que no futuro próximo se possa implementar um programa que não seja somente viável como igualmente sustentável.

O facto de a Região ter uma área de cultivo diminuta não pode ser limitar o crescimento como as autoridades tanto querem? Pelo clima e pelas condições que possui, a Madeira pode ser uma referência na Europa neste tipo de cultivo.

Acredita mesmo nisso ou está a ser simplesmente simpático? Acredito. Os produtores madeirenses podem ter um produto diferenciado em termos de qualidade e na sua forma de produção. Veja que a produção biológica cresce a uma velocidade enorme com oferta a ser cada vez mais exigente. A Madeira tem essas condições para expandir.

Apostar somente na produção biológica? O que temos visto é que os clientes não se importam de pagar mais para ter produtos de qualidade. Diria que existe uma oferta insatisfeita porque existem grandes países produtores, como o Brasil, África do Sul ou a Austrália que optam por, na sua maioria, não cultivar maracujá biológico. Ora, na minha opinião, existe um espaço muito grande para explorar a produção totalmente biológico, e a Madeira possui essas características para fazê-lo.

Mas para ser uma referência é preciso ter uma rede de transporte que permita o seu escoamento, ou não? Não vejo que, pelo facto de a Madeira ser uma ilha, não possa ser uma referência. No Brasil temos produções a 10 mil quilómetros de distância do destino final e a verdade é que o produto chega ao consumidor em perfeitas condições.

Será fácil convencer um produtor optar pela cultura biológica? É preciso organizar o sector produtivo para que possamos combater os principais problemas na cultura.

Qual a altitude ideal para lançar uma cultura como esta? Desde o nível do mar até 1.200 metros. Evidentemente que temos de ver a latitude, no entanto, como a Madeira está a 30 a 32 de latitude, certamente não é benéfico ultrapassar os 700 metros porque fica muito frio para produzir. Julgo que uma boa exploração não deve passar a cota dos 400 metros de altitude.