Madeira com mais anos perdidos à custa do alcoolismo

É a Região do país com mais situações extremas potenciais de anos de vida perdidos por doenças atribuíveis ao álcool, superando largamente a média nacional. Totaliza quase 392 anos por
100 mil habitantes

09 Fev 2018 / 02:00 H.

O Relatório Anual 2016 sobre a ‘Situação do País em Matéria de Álcool’, divulgado esta semana pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), mostra uma realidade nacional preocupante e, no que toca à Madeira, muito além da média do país quando se fala, por exemplo dos anos de vida perdidos para o alcoolismo.

Assim, conforme se pode analisar do documento, a Região Autónoma da Madeira do país (das sete regiões NUTS II) com mais situações extremas, ou seja potenciais anos de vida perdidos por doenças atribuíveis ao álcool, superando largamente a média nacional (208,1). Totaliza quase 392 anos perdidos por 100 mil habitantes.

Segundo o relatório, que se reporta a 2015 no que toca à mortalidade por doença associada ao álcool, representou cerca de 2,12% da mortalidade no país, “proporção que vem diminuindo muito ligeiramente desde 2012”, sendo que a maioria foram “do sexo masculino (79%) e a idade média ao óbito foi de 66,1 anos (64,1 anos nos homens e 73,7 anos nas mulheres)”, o que nos leva à taxa bruta de mortalidade por doenças atribuíveis ao álcool que foi de 22,3 óbitos por 100.000 habitantes (37,2 nos homens e 8,8 nas mulheres)”.

Nesse particular, “são de assinalar as heterogeneidades regionais (NUTS II) entre o Continente e as Regiões Autónomas – taxas de mortalidade padronizada superiores nestas últimas –, padrão que se mantém ao longo dos últimos anos”, pelo que “as taxas regionais de anos potenciais de vida perdidos por doenças atribuíveis ao álcool”, como valor a nível nacional em 2015 de 208,1 anos por 100.000 habitantes (377,2 nos homens e 47,4 nas mulheres)”, com os Açores nos 266,8, o Norte nos 233,9 e o Alentejo nos 233,6 os que mais se aproximam dos números da Madeira, os referidos 391,7.

Isto reflecte-se nos oito (8) óbitos por abuso de álcool (incluindo psicose alcoólica) e nos 28 óbitos por doença alcoólica do fígado.

Açores pior do que a Madeira

Entre algumas conclusões do estudo, passamos a citar, “o Algarve, a Área Metropolitana de Lisboa e os Açores foram as regiões (NUTS II) que apresentaram prevalências de consumo recente acima do valor nacional, na população geral de 15-74 anos”, sendo que “em relação aos indicadores de consumo de maior nocividade, os Açores destacaram-se com os valores mais elevados, quer na população geral de 15-74 anos, quer na de 15-34 anos. Outras regiões também apresentaram valores acima dos nacionais para alguns destes indicadores, sendo de destacar, nos 15-74 anos, o Centro e a Madeira para as prevalências de binge (consumo compulsivo) e o Algarve para os consumos de risco ou dependência, e nos 15-34 anos, o Centro, AM Lisboa e a Madeira para as prevalências de binge, AM Lisboa para a embriaguez, e o Centro e Algarve para os consumos de risco ou dependência”.

De frisar, também pela negativa no que toca à RAM, o facto que “o padrão nacional de diminuição das prevalências de consumo recente entre 2012 e 2016/17, não se verificou na AM Lisboa, Algarve e Regiões Autónomas” e quanto “à evolução do consumo binge e embriaguez severa, é de destacar os Açores com subidas muito significativas, e no caso dos consumos de risco ou dependência, sobressaem os aumentos no Centro, Algarve e nos Açores”, e as diminuições na AM Lisboa, Alentejo e Madeira, o que na perspectiva destes indicadores é positivo.

Tendo em conta que consumo binge significa “tomar 4 ou mais (sexo feminino) ou 6 ou mais (sexo masculino) bebidas alcoólicas na mesma ocasião”, embriaguez diz respeito a “cambalear, dificuldade em falar, vomitar, não recordar o que aconteceu” e AUDIT significa Consumo de Risco Elevado ou Dependência, há uma clara evolução negativa em quase todas as regiões, mas vamos nos focar sobretudo nos dados para a Madeira.

Temos então que no global, a prevalência de consumo nos últimos 12 meses, nas idades entre os 15 e os 74 anos a percentagem regional era de 40,1% (o valor mais baixo do país) em 2012, evoluindo para 57,8% em 2016/17 (ultrapassando o Alentejo, o Centro e o Norte). Na mesma perspectiva global de consumo no últimos 12 meses, na faixa etária dos 15 aos 34 anos, a prevalência era também de 37,4% em 2012 (a mais baixa entre as sete regiões), atingindo em 2016/17 os 58,8% (figurando logo atrás de Lisboa, Açores e Algarve, este com 72,9%).

Já no consumo binge, na faixa 15-74 anos há uma melhoria de 17,8% em 2012 (altura em que a Madeira assumia o topo) para 13,3% em 2016/17 (passando a terceira em sete regiões), mas deteriora a realidade quando na faixa 15-34 anos era de 16,7% (melhor só o Norte, com 15,2%) e passou a 18% (a segunda pior, mas largamente atrás dos Açores, com 32%).

No indicador da embriaguez há melhorias tanto na faixa etária 15-74 anos (de 8,8% para 5,8%) como na de 15-34 anos (12,5% para 7,9%), e em ambos os casos bem abaixo da situação açoriana.

Por fim, o indicador AUDIT, se na faixa dos 15-74 anos e na dependência risco elevado/nocivo passamos de 5,9% para 1,3% e na dependência de 1,4% para 0,2%, cenário claramente melhor na faixa dos 15-34 anos, que passou de 3,9% para 1,4% no risco elevado/nocivo, mas dos 0,0% na dependência para algum grau, 0,5% mais precisamente.

Em termos de tipos de experiências de consumo (abstinentes, desistentes, consumidores recentes e consumidores correntes) de bebidas alcoólicas e por faixas etárias, os da Madeira que bebem mais frequentemente (correntes, que consumiram no último mês) são os com idades entre 45 e 54 anos (60,7%) e entre 35 e 44 anos (55,1%), as únicas faixas etárias que ultrapassam a metade da amostra.

Utentes em tratamento claramente subvalorizado

Perante estes números, questiona-se como é possível a Madeira ter apenas 4 pessoas em tratamento. É que na rede pública de tratamento dos comportamentos aditivos e dependências (ambulatório),

estiveram em tratamento no ano 13.678 utentes inscritos como utentes com problemas relacionados com o uso de álcool e com pelo menos um evento assistencial no ano, em todo o Portugal. A verdade é que do total nacional, há 188 utentes em que era desconhecida o seu local de residência. E na Madeira, grande parte desse trabalho é feito por instituições particulares e de solidariedade social.

Duas notas finais: primeiro, chamada de atenção ao quadro sobre os casos de violência doméstica associados ao alcoolismo, com ligeira melhoria, mas em que, no último estudo, mostra que metade das situações esteve associada ao abuso do álcool; segundo para os óbitos associados ao álcool, já referidos atrás, mas que no total de 2015 atingiram as 80 mortes (dados de 2016 não disponíveis), das quais 62 de homens e 18 de mulheres, registando-se uma melhoria global face a 2015 (89), sobretudo nos homens (78), pois agravou-se o caso das mulheres (11).

Resumo do estudo

No INPG 2016/17 - IV Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral, Portugal 2016/17 - realizado na população de 15-74 anos residente em Portugal, as prevalências de consumo de qualquer bebida alcoólica foram de 85% ao longo da vida, 58% nos últimos 12 meses e 49% nos últimos 30 dias, sendo um pouco inferiores as do grupo de 15-34 anos (83%, 52 e 41%).

Entre os consumidores atuais, o consumo diário/quase diário de alguma bebida alcoólica era de 43% (20% dos inquiridos), com 35% dos consumidores a ingerirem diariamente vinho e 15% cerveja, nos últimos 30 dias.

As prevalências de consumo binge (compulsivo) e de embriaguez severa nos últimos 12 meses foram de 10% e 5% nos 15-74 anos (17% e 9% dos consumidores), e de 11% e 7% nos 15-34 anos (22% e 14% dos consumidores).

Quanto a padrões de consumo abusivo ou dependência de álcool, em 2016/17, cerca de 2,8% da população de 15-74 anos residente em Portugal (4,9% dos consumidores) tinha, nos últimos 12 meses, um consumo de álcool considerado de risco elevado/nocivo e 0,8% (1,3% dos consumidores) apresentava sintomas de dependência (AUDIT), sendo as proporções correspondentes nos 15-34 anos de 2,4% e 0,4% (4,7% e 0,7% dos consumidores).

Em comparação com 2012, é de destacar que, apesar da relativa estabilidade das prevalências de consumo recente e actual e das de consumo binge e embriaguez na população geral de 15-74 anos, aumentou a frequência do binge e houve um agravamento dos consumos de risco ou dependência. Por outro lado, este padrão global de evolução encobre evoluções negativas particulares preocupantes, como as do grupo feminino e das faixas etárias mais velhas, e que são por vezes compensados por evoluções positivas no masculino e nos mais jovens, o que deverá ser tido em consideração no planeamento do ciclo de acção 2017-2020.