Ventos de Verão imprevisíveis mas explicados

A culpa dos ventos fortes é de um anticiclone a 1.500 km de distância da Madeira

10 Ago 2017 / 02:00 H.

Em apenas duas semanas, os ventos fortes obrigaram ao condicionamento do Aeroporto Internacional da Madeira - Cristiano Ronaldo e levaram ao cancelamento de centenas de voos. Mas, afinal poderemos falar de um novo fenómeno meteorológico ou os ventos fortes das últimas semanas são explicados com base em situações ocasionais e imprevisíveis?

Victor Prior, director da delegação da Madeira do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), dissipa as dúvidas sobre esta matéria e esclarece que há uma razão bem definida para esta ocorrência: os ventos fortes que afectaram recentemente a Região Autónoma da Madeira estão directamente relacionados com a posição de um anticiclone que está a mais de 1.500 quilómetros a Noroeste de Portugal. “O anticiclone posiciona-se na localização actual e dá origem a estes ventos fortes na Madeira”, explica Victor Prior.

A posição do anticiclone actual é mesmo a típica nesta altura do ano (meses de Julho e Agosto) e estando a Madeira localizada no bordo leste do fenómeno , isso pode dar origem à ocorrência de ventos fortes como aqueles que afectaram recentemente o Aeroporto, uma situação que não é, de todo, inédita. “Não foi a a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira. Faz parte da climatologia”, diz o director da delegação da Madeira do IPMA.

Assim, refere, durante os meses de Julho e Agosto, temporariamente (e pode não acontecer todos os anos) pode ocorrer que o anticiclone se posicione na posição em que está agora, e portanto, aconteçam os ventos fortes na Região Autónoma da Madeira.

Nada é linear, portanto. “Há anos em que estas situações são menos intensas. Por exemplo, o anticiclone pode estar na mesma posição, mas o vento ser mais fraco”, diz o meteorologista.

Conjugar vento médio e rajadas

A verdade é que o vento médio na Madeira sopra geralmente a uma velocidade inferior a 30 quilómetros por hora.

“Em alguns dias ou em determinados episódios meteorológicos o vento médio pode chegar aos 40 ou 50 quilómetros horários, sobretudo nas regiões montanhosas e nos extremos Leste e Oeste da ilha”, explica Victor Prior .

Mas essa não é única variável no que respeita o vento. Quando se faz a medição deste vento médio, refere o responsável, é possível identificar rajadas que podem chegar aos 60, 70 ou 80 quilómetros por hora, “porque a rajada é um fenómeno instantâneo”.

Mesmo assim, uma única rajada mais forte não é suficiente para causar complicações. O que levou ao recente condicionamento do Aeroporto da Madeira foi assim uma conjugação de um vento médio superior a 30 quilómetros horários e rajadas superiores a 60 quilómetros por hora.

De olhos postos no “Flight Radar”

Victor Prior salienta assim que a situação não é nova, nem tão pouco rara. “Ainda no ano passado, por esta altura, tivemos uma situação muito semelhante a esta. Portanto, não é novo”.

Além disso, “se o vento fosse inferior aos limites mínimos em vigor no Aeroporto, não afectava o movimento dos aviões e nem se falava do assunto”, acrescenta.

“Se formos ver os apontamentos de há décadas, vamos ver que acontecia isto também. Se calhar no passado não ouvíamos falar tanto porque a realidade actual é diferente: o movimento dos aviões é maior, o acesso à informação é diferente e fala-se muito mais de tudo. Mas não podemos dizer que seja diferente da realidade de há 10 ou à 20 anos”, ressalva.

Acima de tudo, com a facilidade de acesso à informação e em tempo real, as pessoas acabam por estar mais atentas a estas ocorrências e a aquilo que provocam. Por exemplo, no que concerne o Aeroporto, “toda a gente olha para o “Flight Radar”, refere Victor Prior.

Vento tende a perder intensidade

As previsões do IPMA apontavam já ontem para uma tendência da diminuição do vento entre a tarde de ontem e a tarde de hoje. Victor Prior explicava ao DIÁRIO que até ao final da tarde de ontem ainda havia possibilidades para algumas rajadas de 50 ou 60 quilómetros por hora, “mas a situação vai melhorar significativamente” e sobretudo hoje durante o dia “o vento passa quase para calmo”, acrescentou.

Embora não seja possível prever a médio e, muito menos, a longo prazo, o director da delegação da Madeira do IPMA disse ao DIÁRIO que de acordo com as previsões mais actualizadas, “nos próximos oito dias não haverá mais complicações”. Depois disso, imperam as incógnitas.

Limites de vento analisados pela ANAC

A Autoridade Nacional de Aviação Civil de Portugal (ANAC) vai realizar hoje uma reunião com diversas entidades para falar sobre as recentes complicações causadas pelo vento forte no Aeroporto da Madeira e discutir o levantamento, ou não, dos limites de vento permitidos para uma aterragem segura naquela infra-estrutura.

A notícia foi avançada pelo ‘NewsAvia’ refere ainda que antes de se ter verificado a situação de inoperacionalidade que, entre os passados dias 4 e 7 de Agosto afectou mais de uma centena de voos e 15 mil passageiros, já “a Associação Portuguesa dos Pilotos de Linha Aérea , a ANA Aeroportos, o ex-INAC (actual ANAC), o Instituto Superior Técnico de Lisboa e o Instituto do Mar e da Atmosfera, tinham estabelecido contactos com vista à análise e debate da situação”.

Na passada segunda-feira, o Secretário Regional da Economia, Turismo e Cultura da Madeira, Eduardo Jesus, aquando da deslocação ao Aeroporto para avaliar a situação dos passageiros, admitiu que o executivo madeirense já havia despoletado o processo para rever o limite da velocidade do vento naquela zona que está estabelecido desde 1976, destacando que as condições da infra-estrutura e as capacidades das aeronaves são hoje completamente diferentes.

O líder do PS/Madeira veio depois criticar o Governo Regional por “um amadorismo extremo” e irresponsabilidade ao suscitar a alteração dos limites de vento para o Aeroporto Internacional da ilha, declarando que estas “não são decisões políticas”. “As decisões sobre os limites de vento para aterrar no aeroporto não são decisões políticas. São absolutamente técnicas e profundamente validadas sem restrições e estados de alma de políticos histriónicos”, afirmou Carlos Pereira, em comunicado.

A verdade é que após as últimas ocorrências, a ANAC decidiu realizar uma reunião formal para debater o problema.

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