Licenciatura em Turismo avança em 2018

Entrevista a José Carmo, Reitor da UMa

01 Out 2017 / 02:00 H.

A Universidade da Madeira ainda tem mais de 100 vagas para preencher em alguns cursos, isto depois de divulgados os resultados da 2ª fase do Concurso Nacional de Acesso. Mas a baixa procura de alguns cursos, não os coloca em risco. Quem o garante é o reitor, José Carmo que, em entrevista ao DIÁRIO fez uma análise da oferta formativa da UMa, falou do objectivo de abrir uma licenciatura em Turismo já no próximo ano académico e abriu o jogo quanto às dificuldades financeiras da instituição.

Começou agora mais um ano académico. Quais as perspectivas para 2017/18? As perspectivas em termos académicos são positivas. O Concurso Nacional de Acesso vai na linha daqueles anos anteriores, ou seja, há umas áreas em que sobe, outras áreas em que descem. Por outro lado, os CETSP estão a correr e na área dos alunos internacionais também está a aumentar.

Neste momento ainda há vagas para a 3ª fase do Concurso Nacional de Acesso. Há alguma ilação que se possa tirar dos cursos que ficaram com mais vagas disponíveis? Cada caso é um caso. Houve cursos que tiveram menos procura e outros que tiveram mais. Não consigo neste momento dar números finais porque além da 3ª fase, há ainda os concursos especiais, os reingressos e as mudanças de curso... Penso que, de grosso modo, o resultado final será similar ao dos anos anteriores. Penso que pode haver um crescimento nos Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CETSP) e nas licenciaturas com os alunos internacionais. Mas em relação ao Concurso há aqui fenómenos. Por exemplo, há dois cursos que mudaram de nome e essa mudança de nome pode ter algum impacto na procura. É o caso das Artes Visuais que era Artes e Multimédia e dos Estudos de Cultura que era Ciências da Cultura. Creio que será então uma questão de adaptação ao novo nome e nada mais. De um modo geral, todos os outros estão bem. Por exemplo, ao contrário do que as pessoas pensam, na Engenharia e na Matemática houve uma subida nas primeiras opções dos estudantes. Nesta fase, no ano passado tinham sobrado 61 vagas nestes cursos e este ano sobraram 46.

Mas então não há pouca procura das engenharias? Penso que aí devemos ter presente a vinda dos estudantes do Free State (África do Sul), de acordo com o protocolo estabelecido e quem devem chegar este fim-de-semana e de outras alterações ao nível, já que a Engenharia Civil e a Matemática, passarão a ser oferecidos em Inglês, embora haja disciplinas que continuarão a ser oferecidas em Português. Para isso, vamos promover cursos de Inglês para os professores que estão a leccionar e para os estudantes que estão a frequentar estas licenciaturas e sem custos acrescidos. Penso que a médio prazo isto será uma mais valia na área da internacionalização, mas também admito que numa primeira fase pode ‘assustar’. Mas volto a dizer que vai ser dado todo o apoio...

Mas volto a perguntar pela Engenharia Civil... A Engenharia Civil na UMa não teve candidatos como não teve, na 1ª fase, em outros 13 cursos do país, 4 deles em universidades, 9 em Politécnicos. Mas atenção, a Engenharia Civil vai ter 20 estudantes internacionais. Penso que vai voltar a ter candidatos ao nível nacional, mas neste momento não me preocupo porque temos 20 estudantes internacionais e o curso só precisaria de 10 para abrir. Estamos a formar para o mundo e desde que o curso tenha qualidade e que essa mensagem seja passada, não temos preocupações.

São muitos os estudantes internacionais? Do Free State vêm 20 estudantes para Engenharia Civil, 20 para Engenharia Electrónica, 20 para Matemática e 15 para Engenharia Informática. Estamos a falar de um grupo de estudantes razoável. E penso que esta mudança para Inglês vai nos permitir atrair um outro tipo de estudantes e até permitir aumentar o número de alunos em Erasmus. É um conceito de uma certa mudança que a médio prazo vai ter efeitos positivos.

Então os resultados do Concurso Nacional de Acesso são positivos? Tendo em conta estes condicionalismos, sim. É óbvio que não estou totalmente satisfeito, mas os resultados são equivalentes aos anos anteriores. Penso que em algumas áreas se poderá melhorar, noutras não...

Em anos anteriores já assistimos a casos de cursos que fecharam definitivamente, outros que fecharam durante uns anos e depois voltaram a abrir. A UMa tem acompanhado as necessidades do mercado? A oferta formativa tem duas componentes: a procura e a oferta. Mas eu distinguiria o caso das licenciaturas do caso dos CETSP. Esses são direccionados mais para o emprego directo, têm de ter um estágio numa empresa e não há hipótese nenhuma de não ser visto no âmbito do mercado. No caso das licenciaturas, a situação não é essa. As nossas licenciaturas têm a ver com grandes áreas do saber e depois os alunos vão tirar mestrados e trabalhar para as empresas... mas penso que uma licenciatura feita à medida do mercado de trabalho é complicado. Aliás, se olhar para a Universidade da Madeira, nós temos 19 licenciaturas, e a maior parte das universidades tem para cima de 30 licenciaturas. Se nós reduzirmos mais o leque de licenciaturas é não cumprir a missão de contribuir para um desenvolvimento equilibrado. Posso dizer neste momento que, se o despacho de abertura de vagas para o próximo ano, for igual ao do ano passado, não há qualquer curso em risco de encerrar.

E novas licenciaturas? Fala-se há vários anos num curso na área do Turismo... Estamos a fazer tudo para termos uma licenciatura na área da Direcção e Gestão Hoteleira já no próximo ano lectivo. O tempo é muito curto, porque o projecto tem de dar entrada até ao dia 15 de Outubro, mas neste momento estamos a desenvolver todos os esforços para conseguirmos termos o curso dentro da Escola de Tecnologias e Gestão. Com a Escola de Hotelaria e Turismo da Madeira e vamos ter agora um protocolo com a Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril, vamos fazer tudo para termos uma licenciatura politécnica em Direcção e Gestão Hoteleira. E a médio prazo o objectivo é fazermos mestrados e doutoramentos na área do Turismo.

A par e passo com o Turismo havia um outro objectivo que era o de implementar o 3º ano do curso de Medicina.... Eu gostava de conseguir isso antes de acabar o meu mandato, mas tenho mais dificuldade em dar prazos. Há várias nuances. Era vantajoso que isso fosse enquadrado no contrato plurianual com a tutela, porque envolve contratações. Há também aspectos legais a ter em conta porque quando passarmos para o 3º ano, deixa de ser ciclo básico e passa a ser um curso... há um conjunto de aspectos legais que têm de ser tratados. Mas posso dizer que da parte da Secretaria Regional da Saúde há todo o interesse e apoio, da nossa parte há também todo o interesse, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa também há disponibilidade. Têm é que se resolver essas questões legais e outras financeiras.

Mas as universidades não vivem apenas das licenciaturas e agora há esta vertente dos Cursos Técnicos Superiores Profissionais que começa a crescer e a UMa não é excepção à regra.... Temos cinco a começar este ano e um sexto cujo 2º ano está agora a decorrer. Estes cursos enquadram-se no objectivo do Governo Regional e da República do aumento do ensino politécnico. Essa foi a primeira premissa. Aumentar o ensino politécnico na Madeira e nos Açores. Depois, por razões de escala não fazia sentido termos um instituto politécnico separado da Universidade da Madeira e assim o fizemos. Não queremos de forma alguma transformar a Universidade num Politécnico, mas queremos desenvolver esta área. Para tal precisamos ainda de estabilizar o corpo docente.

Mesmo assim já existem CETSP? Sim, a UMa começou com estes cursos há dois anos. Este é o terceiro. Começamos com quatro cursos: agricultura biológica, contabilidade e fiscalidade, guias da natureza e redes e sistemas informáticos. Tivemos candidatos bastantes e preenchemos todas as vagas. Este ano criamos cinco novos cursos, o que significa que neste momento temos nove cursos aprovados pela Direcção Geral do Ensino Superior. Cinco vão avançar este ano, nomeadamente, contabilidade e fiscalidade, guias da natureza e redes e sistemas informáticos e ainda sistemas electrónicos e instalações eléctricas e tecnologias e programação de sistemas de informação, sendo este último que vai funcionar também na Ribeira Brava. Estamos à espera que venham 100 novos alunos este ano, o que significa que no total ficaram cerca de 160 alunos, correspondendo a 5,7% do total de estudantes da UMa. Já começa a ser um número relevante.

O principal problema da UMa continua a ser a questão financeira? Eu tenho evitado falar de números, porque as pessoas estão um pouco cansadas. Mas também têm de perceber que, se querem que a Universidade da Madeira se afirme, precisa de condições para tal. Entre 2010 e 2017, perdemos 1 milhão e 700 mil euros na Acção Social. Além disso houve uma redução no número de alunos, cerca de 700, o que significa menos 700 mil euros de propinas. Além da redução das receitas, aumentaram os encargos obrigatórios, nomeadamente um que tem imenso peso e que é a Caixa Geral de Aposentações. Em 2010, os descontos para a Caixa Geral de Aposentações era 15% e em 2017 são 23,75%, exactamente o que se paga para a Segurança Social. Se 75% dos nossos funcionários docentes e não docentes estão na Caixa Geral de Aposentações, então este aumento nos encargos obrigatórios corresponde a 765 mil euros. Portanto se juntarmos isto tudo estamos a falar em mais de 3 milhões de euros entre receitas perdidas e despesas entre 2010 e 2017, ou seja quase 20% do nosso orçamento, que é de 16 milhões e tal. É evidente que a Universidade tem de ter défice.

Portanto há mais despesas e menos receitas... Mas não é só. Temos tido dificuldade no acesso a alguns fundos estruturais por várias razões e por outro lado, por vezes o Governo da República anuncia medidas de impacto nacional, por exemplo no âmbito dos Politécnicos, e depois não fazem as transferências para a Região... Em relação aos fundos, por exemplo, no COMPETE, que tem a ver com a internacionalização, nós não temos acesso e quase todas as universidades têm. Em relação ao POSEUR a UTAD e a UBI já conseguiram aprovar projectos e a UMa não... No PO Madeira temos apoio, mas não temos apoio na medida que tem a ver com a compra de equipamento e de construção de infra-estrututuras...

E isso torna a vida da UMa mais complicada... Sim, claro. Até porque qualquer nova aposta que tenhamos ou que queiramos fazer, exige contratações. Para o desenvolvimento do Politécnico, temos de contratar docentes. Para o Turismo, temos de contratar. Mesmo para Medicina temos de contratar... Até para manter alguns cursos, segundo as regras da acreditação, temos de contratar e se não contratarmos, aí sim, temos de fechar os cursos, não por falta de alunos, mas porque deixam de estar acreditados. Sem dinheiro, sem receitas adicionais é muito difícil e não conseguimos dar um salto em frente. A Universidade da Madeira precisa de mais verbas de apoio, não por esmola, mas porque se acha que é importante haver ensino superior nas ilhas e nas diferentes regiões.

Esta falta de financiamento, aumento das despesas, etc, condiciona a acção da Universidade da Madeira. Poderá a actividade da UMa estar comprometida? Se não houver alterações, o caminho será o definhar. Neste momento a situação da Universidade da Madeira não é preocupante porque tem um saldo positivo acumulado muito bom, na ordem dos 4 milhões e meio. Portanto dá para compensar durante algum tempo, mas não é solução. Se continuarem os défices de meio milhão anual, este saldo dá para 9 anos. Isto se não quiser fazer nenhuma aposta adicional, por exemplo, em termos de espaços, que precisamos. E temos de crescer em número de alunos, o que é fundamental, para termos mais docentes, mais funcionários, e para conseguirmos dar mais respostas.

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