“Largo da Fonte é um lugar seguro”

Apesar das marcas que o arraial do Monte deixou, os populares não querem ficar agarrados ao passado, até porque “a vida segue em frente”

Monte /
14 Jul 2018 / 02:00 H.

A um mês das Festas em Honra de Nossa Senhora do Monte, o DIÁRIO esteve no Largo da Fonte. Um lugar, onde há um ano morreram 13 pessoas depois de terem sido atingidas por um carvalho de grande porte. Neste dia, havia calma, ao contrário do ‘cenário’ que se viveu naquela freguesia, no fatídico dia 15 de Agosto de 2017.

José Gomes, vendedor de velas há 30 anos, estava sentado num banco, no Largo da Fonte, a conversar com o irmão quando foi abordado pela nossa equipa de reportagem. Ao DIÁRIO disse que ainda tem na memória a tragédia do Monte e revelou que foi por pouco que escapou à morte. Por isso, este é um dia que nunca mais irá esquecer. Mesmo assim, e apesar das marcas, considera que tudo deveria voltar à normalidade, porque “desgraças acontecem em toda a parte do mundo” e “esta tragédia aconteceu, porque tinha que acontecer”. “As pessoas não podem estar sempre a pensar que vai acontecer novamente, têm de dar a volta por cima, porque a vida segue em frente e não podem ficar presas àquilo que aconteceu no passado”, afirmou.

Este ano, o arraial do Monte realiza-se a ‘meio gás’, até porque não irá haver música nem fogo de artifício. José Gomes ‘tira o chapéu’ à Câmara Municipal Funchal (CMF) por ter tomado esta decisão, pois considera que esta é uma forma de respeitar as pessoas que perderam a vida quando se preparavam para sair na procissão. “Nós temos que respeitar as pessoas que faleceram e, como a tragédia foi no ano passado, acho bem que seja feita uma homenagem a quem perdeu a vida, porque ainda está tudo muito fresco na memória de todos nós”, opinou.

Em relação às polémicas em torno desta tragédia, que envolve a CMF, Junta de Freguesia e paróquia do Monte, preferiu não tecer qualquer tipo de comentário, dizendo apenas que não quer se meter “em coisas de política”. Mas aproveitou para realçar que, desta vez, o arraial deveria “ter mais segurança”.

José Gomes mostrou-se satisfeito pelo facto de estar a ser preparada uma homenagem às 13 vítimas e foi nesta altura que recordou aquilo que lhe aconteceu, pois também escapou à morte. “Eu também fiquei debaixo da árvore e estou vivo por sorte, ainda que tenha sequelas numa perna e num braço. Cheguei mesmo a andar num psicólogo e quando estou aqui de vez em quando ainda olho para cima com receio de que possa cair mais algum galho”, contou, assegurando que, mesmo assim, agora “o Largo da Fonte é um lugar seguro”.

Todos os dias há sempre alguém que vai ao seu encontro para pôr uma vela e, especialmente, as pessoas que vivem noutras freguesias da Madeira têm curiosidade em saber onde caiu a árvore. “As pessoas quando cá vêm perguntam sempre onde caiu a árvore que matou as pessoas, porque isto, de facto, foi uma coisa que não deixou ninguém indiferente”, apontou.

Quem também não ficou indiferente a tudo isto foi Tiago Ramalho que trabalha num café, no Largo da Fonte. Ao contrário de José Gomes, o empregado de mesa não viveu de perto toda a tragédia, porque o café costuma estar fechado nesse dia devido à “confusão”.

Tendo em conta que, este ano, o arraial será diferente do habitual, considerou que esta será uma festa “semi-apagada”. “Mesmo que façam o arraial nada será como dantes nem haverá aquela alegria que existia antes de acontecer a tragédia. Tudo fica prejudicado e está tudo a ir por água abaixo”, referiu.

Apesar de considerar o Largo da Fonte “seguro”, disse que, desta vez, o arraial do Monte não irá ter uma grande adesão, pois as pessoas, pelo menos para já, não conseguem esquecer a tragédia que ceifou a vida a 13 cidadãos. “Penso que, este ano, o arraial não irá ter muitas pessoas, porque estas ainda se lembram de tudo o que aconteceu no ano passado”, reforçou.

Na sua óptica, foi uma “boa decisão” homenagear os cidadãos que perderam a vida no arraial do ano passado. Mas considerou que mais importante do que isso seria que fossem pagas as indemnizações aos familiares. “Acho muito bem que seja feita uma homenagem às 13 vítimas, mas seria melhor que a Câmara pagasse as indemnizações, que estão a empatar de dia para dia e nada fazem”, frisou.

Ao contrário de Tiago Ramalho, Maria Abreu considera que o arraial irá ter novamente uma enchente, porque as pessoas irão acabar por esquecer o que aconteceu, à excepção dos familiares das vítimas. “Os familiares irão sempre recordar aquele triste dia, porque foi um grande desgosto. Mas as pessoas, no geral, vão acabar por esquecer, até porque a vida tem de continuar”, disse, revelando que irá marcar presença no arraial e que não sente medo de frequentar o Largo da Fonte.

Maria só não concorda que não haja música. E até sugere que sejam feitos cinco minutos de silêncio em memória dos que morreram. Mas depois desse momento, considera que deveria haver animação, pois “arraial sem música, não é arraial”.

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