“Juntei humor
com boa música e Carnaval”

Pablo Urbina, maestro espanhol

09 Fev 2018 / 02:00 H.

Pablo Urbina nasceu em Pamplona, Espanha, mas vive em Londres há seis anos, depois de uma temporada de sete anos nos Estados Unidos. Hoje, com 29 anos , á dirigiu orquestras na Europa, América e Ásia e está, finalmente, na Madeira para dirigir o concerto de Carnaval da Orquestra Clássica da Madeira (OCM) no próximo Domingo, dia 11.

Como recebeu este convite? Sabia que mais cedo ou mais tarde viria à Madeira, por isso fiquei extremamente feliz. Tenho um grande amigo, o maestro Gianluca Marcianò que esteve cá há duas semanas. Ele achava que eu e a OCM íamos trabalhar muito bem. Dizia-me: ‘A tua personalidade é muito boa para esta orquestra. Eles são muito bons, vão ligar muito bem’. E depois aconteceu tudo muito rápido, soube há cerca de um mês.

O alinhamento foi pensado para este concerto? Sim, todo o programa, escolhi todas as músicas.

Porquê estas? O Norberto [Gomes, director artístico da OCM] deu-me liberdade. É óptimo para um maestro, é perfeito. Mas apesar de ser Carnaval é um concerto, não é comédia. Juntei humor com boa música, e com Carnaval. Este ano, o tema do Carnaval é o Zodíaco e lembrei-me de magia, astrologia. Depois dos planetas, da Flauta Mágica de Mozart, do Aprendiz de Feiticeiro... Tenho um amigo que estudou nos Estados Unidos comigo, o Oscar Navarro, prestigiado compositor espanhol, e incluí uma peça dele que achei que a audiência ia adorar[‘Downey Overture’]. A orquestra gostou muito.

O que sabe sobre o público de cá? Falei com o Norberto que tem uma óptima visão artística e conhece o público. Sabe trazer mais pessoas e fazê-las felizes. É Carnaval, mas não somos uma empresa de entretenimento, somos músicos. Gastei muito tempo em coisas... Por exemplo, o Star Wars é uma peça que toda a gente conhece. Mas tive o prazer de trabalhar com o John Williams [compositor da música do Star Wars], por isso sei o que é que ele quer, disse-me directamente.

O que é importante nesta música? Não é apenas tocar. Ele escreve música de forma tão intrincada e bonita... Escreve como um compositor de orquestra para filmes, não como hoje com toda esta produção e sons. Claro que isso tem lugar, mas ele é um compositor tradicional. E há tanto na música dele. Às vezes quando uma orquestra só toca ‘paw paw’ [Trauteia a música], está tão alto que não se ouvem as pequenas jóias na música. Despendi muito tempo para trabalhar em cada peça.

Já fez algum concerto deste género, com lugar para disfarces? Trabalho muito com juventude, gosto muito. Por isso o Gianluca Marcianò disse que conhecia a pessoa ideal, que podia trabalhar em música e divertir-se ao mesmo tempo. É assim que me conhecem. Já fiz concertos parecidos, mas nada como isto. Vai ser interessante.

O que pode revelar? Criei um fio condutor para todo o concerto para entreter a audiência, mas sem desviar a atenção da música. As piadas vêm antes. Não posso falar dos disfarces, mas vão ver mais do que a minha batuta: terei objectos diferentes para conduzir a orquestra. Como o tema é magia, pode haver uma varinha mágica tipo Harry Potter...

Ou um sabre de luz? Talvez... Não posso revelar. Alguns dos meus disfarces acontecem com a interacção dos músicos, bailarinos e actores que vamos ter. Vai ser divertido. Pelo que sei os madeirenses gostam muito deste tipo de actividades.

A música clássica é erudita? Não é necessariamente erudita ou aristocrata, mas também não é simples. Para alguém que gosta da Rihanna, por exemplo, explico que há muito de clássica na música dela, só que com uma variação diferente. É como o português e o espanhol, somos ambos latinos. Se a sociedade insistisse que a musica clássica é ‘cool’, toda a gente estaria a ouvir. O problema é que durante muitos anos seguiu numa direcção experimental e tornou-se em algo que as pessoas não podiam tocar ou compreender. Mas sempre foi ‘mainstream’, persiste no tempo. Como os Beatles persistem.

Como chegar à juventude? As redes sociais são importantes? Sou apaixonado por promover música para a juventude. Há tantas coisas benéficas na clássica, como estimular a actividade cerebral. Comecei a fazer vídeos para os jovens e fiz um com o Nacho Monreal [jogador do Arsenal]. É curto, divertido e apelativo. A ideia foi mostrar que tudo é possível com trabalho. Foi uma forma de chegar aos jovens e é um vídeo muito popular em Espanha.

É possível manter uma orquestra sem financiamento público?

Nos Estados Unidos é privado. Funciona, mas também significa que às vezes depende de interesses particulares. Na Europa tem de ser o Governo a suportar. Mas ainda há muito trabalho a fazer. Há quem não entenda que milhares de euros vão para orquestras, e a discussão não devia ser sobre quanto dinheiro, mas sobre que importância? A arte é importante. A Saúde é prioritária, mas a cultura é essencial. E há espaço para todas. Por outro lado, se o Governo paga, a orquestra deve estar ao serviço da população, deve servir um propósito. Só que têm de fazer arte. Ainda há muito para discutir.

Expectativas para Domingo? É importante que as pessoas venham, vai ser um concerto divertido. E é muito importante que os músicos sintam que estão a oferecer qualidade. Esta orquestra tem tanta: é responsiva, tem muito potencial e são amigáveis. São muito profissionais. E será mais do que um concerto, é um evento, algo em que as pessoas estarão envolvidas: ouvem música, riem, interagem e fazem parte do Carnaval. [O concerto acontece às 18h00 no Centro de Congressos da Madeira e custa 20 euros].

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