“Invistam na vossa orquestra”

O maestro francês está pela terceira vez na madeira e pede um edifício melhor para a OCM

30 Set 2017 / 02:00 H.

Maxime Tortelier sentiu saudades da Madeira e até nota que está “a desenvolver uma conexão especial com esta ilha”. O maestro francês está na Região pela terceira vez para ‘conduzir’ a Orquestra Clássica da Madeira (OCM), em pleno Dia Mundial da Música, num encontro que está agendado para amanhã, pelas 18 horas, a ter lugar no Teatro Baltazar Dias.

“De ambas as vezes que cá estive deixei a ilha com muitas memórias sonoras e houve alguns momentos em que me senti nostálgico”, começou por referir o artista, confessando-se “maravilhado por voltar”, até porque junta “o melhor de dois mundos”, ou seja, “trabalhar com grandes e talentosos músicos”, ao mesmo tempo que descobre um pouco da Região.

Neste regresso vamos assistir à interpretação de duas obras de referência dos programas sinfónicos de eleição do grande público. Primeiro dá-se o concerto para piano e orquestra nº1, Op.11, de Chopin, com a interpretação a cargo da solista convidada Vanessa Benelli, seguindo-se então as Variações Enigma, obras compostas no virar do século XIX pelo inglês Edward Elgar.

”Eles ouvem-se uns aos outros”

A ministrar a sessão musical estará então Maxime Tortelier, que aproveitou para tecer rasgados elogios à relação dos músicos da OCM.

“A cada vez que volto a relação da orquestra é cada vez mais próxima e unida. Há uma grande ética quando trabalham juntos, isto porque eles ouvem-se uns aos outros e preocupam-se com os sons. Isso cria uma dinâmica positiva e eficiente”, disse o maestro francês, mostrando-se satisfeito por “muitas pessoas de fora” conhecerem este conjunto.

Quanto à saúde da música clássica “está boa e recomenda-se”, até porque “temos uma geração de instrumentistas inspirados” e de “pessoas jovens com ideias fantásticas”, que trabalham “nos departamentos de comunicação, trazendo a música clássica para fora do contexto mais tradicional”, elucidou Maxime Tortelier, mostrando-se confiante no futuro deste género musical: “Está em boas mãos”.

A OCM tem no ponto de vista do ‘condutor musical’ uma “vasta riqueza”, porque é composta por pessoas que começam já desde muito cedo a ter aulas no conservatório. “Há uma forte conexão entre a orquestra e o conservatório, porque a vida na orquestra é muito próxima daquilo que é ensinar e transmitir o nosso conhecimento aos mais novos. Aqui na Madeira nota-se essa proximidade mais do que na Inglaterra ou em França”.

Um espaço com melhor acústica

À medida que a conversa foi desenrolando-se chegamos a um ponto em que Maxime Tortelier debruçou-se sobre as condições de trabalho da OCM, facto que o fez transmitir um apelo sentido.

“Venham ao concerto e continuem a ouvir a orquestra ao máximo. Invistam na vossa orquestra, não necessariamente em dinheiro, mas em tempo e paixão. Adoraria um dia voltar e ver que a cidade do Funchal tenha criado algo novo este grupo, como talvez um novo edifício, com um espaço que tenha melhor acústica”, transmitiu assim desta forma a sua ideia.

Percebendo o contexto e estando debaixo do tecto dos ensaios é notória a veracidade das palavras de Maxime. O espaço é húmido e o tecto é baixo, estrutura que não coaduna na perfeição em termos musicais.

“Se a orquestra trabalha num espaço com boa acústica, os instrumentistas pensam que tocam duas vezes melhor que neste momento e isso é a verdade. Quero com isto dizer que no concerto a prestação será melhor e a audiência estará mais satisfeita”, argumentou.

Ouvidos que ouvem tudo

Como maestro “torna-se difícil” descrever o seu trabalho. “Uma vez tentei explicar o que era e demorei duas horas e penso que não respondi à pergunta. O meu instrumento mais importante é o par de ouvidos que tenho”, afirmou, adiantando que tenho-os “ligados a todo o tempo”.

E talvez por essa sua sensibilidade ‘chateou’ a orquestra nos ensaios para o concerto de amanhã. “Penso que os chateei com coisas muito técnicas, mas é um passo que temos de dar. Estes passos técnicos, quando aterrarmos no palco do concerto, vamos atingir um diferente nível”, realçou, dizendo que o mais importante é deixar a sensação de que aconteceu “algo especial” na audiência.

Por ocasião do Dia Mundial da Música, e embora existam eleições, “que isso não impeça as pessoas de irem ao concerto”, apela Maxime Tortelier. O custo das entradas variam entre os 20 e os cinco euros, estando disponíveis para venda na bilheteira do Teatro Baltazar Dias.

As talentosas mãos de Vanessa Benelli

Vanessa Benelli Mosell é a solista convidada que tem nas suas talentosas mãos a honra de deliciar os presentes ao sentar-se em frente ao piano e da orquestra evocando Chopin. Vanessa Benelli tem sido aclamada pela crítica e aplaudida nas principais salas de concertos da Europa, assim como da América do Norte e da América Latina e está pela primeira vez junto da OCM. Ao longo do tempo evidenciou o seu talento desde muito cedo com figuras de destaque do panorama internacional tais como o pianista Pascal Rogé que a descreveu como “o talento musical mais natural que encontrei em toda a minha vida”. O violetista e maestro Yuri Bashmet ou o compositor Karlheinz Stockhausen também já elogiaram Vanessa, o que a levou a apresentar-se com relevantes orquestras da actualidade, tendo também gravado para a etiqueta DECCA.

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