280 mil plantas para reflorestar 411 ha do Parque Ecológico

Na última década arderam 27.029 hectares de floresta na Madeira

21 Mar 2017 / 02:00 H.

Ultrapassa os 27 mil hectares a área florestal atingida por incêndios na última década, sendo certo que alguns locais foram atingidos mais do que uma vez contribuindo cumulativamente para o valor registado e nem todas as áreas foram atingidas de igual modo e com igual severidade. “Haverá casos de perda total do coberto, outras de perda parcial mas com capacidade regenerativa das espécies e ainda outras com um vasto banco de sementes no solo que lhe permite recuperar por si só a situação de origem”, sustenta o presidente do Instituto de Florestas e Conservação da Natureza, Manuel Filipe.

Sobre o repovoamento das zonas afectadas, diz que “em função da sua localização e natureza da propriedade tem tido tratamentos distintos. Nas áreas de difícil acessibilidade os processos de recuperação têm sido efectuados com recurso a sementeiras e privilegiando a regeneração natural tendo por base o material vegetal remanescente ou o banco de sementes existente no solo. Nos locais de natureza privada as intervenções são realizadas pelos seus detentores tendo o GR disponibilizado apoio técnico e implementado programas de apoios a fundo perdido com recurso a fundos comunitários de modo a poder reabilitar esses espaços. Nos locais sob gestão pública, onde a regeneração natural não acontece ou é precária, têm sido realizados projectos de arborização”, esclarece.

Reforça ainda que só na última década, “em projectos de arborização de áreas ardidas e degradadas, foram já intervencionados 2.249,83 ha com a instalação de 1.533.125 plantas”, disse.

1,6M para recuperar Parque Ecológico

Na área do Parque Ecologico do Funchal (PEF) “já se iniciaram os trabalhos de limpeza de algumas das áreas afectadas pelo fogo, nomeadamente limpeza do material ardido e reposição do coberto florestal”, confirma Idalina Perestrelo, vereadora com o pelouro Gestão Ambiental.

Para reabilitar o ‘pulmão da cidade’, em Outubro último a autarquia funchalense submeteu uma candidatura (1,6 milhões de euros) ao PRODERAM no âmbito do ‘Apoio à reparação dos danos causados às florestas por incêndios florestais, catástrofes naturais e acontecimentos catastróficos’. Projecto que “prevê uma intervenção numa área de 407 hectares, estando nesta fase em avaliação pelos técnicos do PRODERAM”, revela a autarca.

Apesar da área ardida no Parque Ecológico atingir 441 ha, a intervenção proposta pela Câmara Municipal do Funchal (CMF), com a plantação de cerca de 280 mil plantas, das quais 130 mil são provenientes do viveiro do PEF, “só está prevista em 411 ha, pois algumas destas áreas são inacessíveis”, refere

Particularmente afectado nesta década, “desde 2010 já ocorreram quatro incêndios, além da grande aluvião” no PEF, sendo que uma das consequências, nos incêndios em particular, é também a alteração dos solos, que “faz com que haja desprendimento de solos e que este se altere, muitas vezes criando uma maior erosão, o que aumenta sempre o risco”, reconhece. Entende que a vertente sobranceira à ribeira de Santa Luzia é “a área mais problemática, por ser uma encosta mais agreste e por isso, potencia maior risco”. Assegura que a CMF está “a trabalhar no sentido de minimizar todo este impacto, quer com trabalhos de limpeza, quer também com trabalhos de reflorestação”, reforçou.

E para assinalar o Dia Mundial da Árvore e da Floresta, desde o início da semana passada que a autarquia tem promovido um conjunto de actividades para “dar continuidade à sensibilização para a importância da floresta na sustentabilidade do ambiente terrestre”. Destaca “a realização de um pequeno percurso pedestre composto com várias estações didácticas, com o propósito de sensibilizar todos os participantes para a importância da floresta, nas suas diversas vertentes”, salientando “a importância da biodiversidade na manutenção do equilíbrio da floresta, a compostagem para a valorização dos resíduos orgânicos e a plantação de espécies autóctones”.

Até ontem já haviam participado perto de meio milhar de pessoas, estando prevista para hoje, último dia, a visita de mais uma centena de visitantes.

Quercus: Erradicar as invasoras deve ser a prioridade

“As espécies que estão a ser escolhidas para reflorestar as áreas ardidas são as mais adequadas. O problema é que a área ardida é tão grande que os meios que o GR tem não nos parece suficientes. É demasiado grande a área para reflorestar” começa por assinalar Elsa Araújo, presidente do Núcleo Regional da Madeira da Quercus.

Mas mais do que plantar novas árvores, a ambientalista entende que é de todo “conveniente fazer um esforço enorme no sentido de eliminar as espécies invasoras, plantas que fomentam e potenciam os incêndios”, lembra, para reafirmar o quão é importante que as invasoras “sejam definitivamente retiradas destas áreas ardidas e não só”, defende. “De nada adianta fazermos um esforço no sentido de reflorestar, se não houver o cuidado de remover e mesmo erradicar as invasoras, porque senão é um trabalho inglório”, avisa.

Sobre o impacto dos incêndios na devastação da floresta, lembra que com o fogo “não é só a biodiversidade que desaparece. O solo também sofre, e muito. Porque sendo este um recurso natural essencial para a sobrevivência da humanidade e não só, quando todo o coberto vegetal desaparece, porque arde, aquele solo que fica desprotegido, quando chove é arrastado e muitas vezes desaparece, porque é encaminhado para as ribeiras e acaba no mar”, aponta.

Outra consequência “é o recurso água que também se perde com os incêndios, porque um solo sem cobertura vegetal a água das chuvas não se infiltra. Ela corre à superfície e escorre para as ribeiras e acaba no mar”, em vez de se infiltrar e recargar os reservatórios subterrâneos, nascentes e aquíferos. Também quanto menor for a capacidade de infiltração da água proveniente da precipitação, significa que é mais água a escorrer à superfície do solo e maior a probabilidade deste ser arrastado, daí “o risco de inundações ser muito maior” e por consequência, “ risco para a segurança de pessoas e bens”, concretiza.

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