Hamilton inclui inéditos

O concerto de estreia na Madeira do multi-premiado músico brasileiro é esta noite no âmbito do II Festival Internacional de Bandolins da Madeira

16 Set 2017 / 02:00 H.

“Eu trato muito bem a música, eu trato muito bem o bandolim, acho que ela me trata muito bem de volta”, acredita Hamilton de Holanda, o convidado especial do II Festival Internacional de Bandolins da Madeira. A par disto, o segredo do sucesso do músico vencedor de dois prémios Grammy Latino e oito nomeações está nas parcerias que o estimulam a criar, revela o cantautor brasileiro, hoje em concerto no Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira, na Rua 5 de Outubro, a partir das 20h30. O músico é o nome maior de um cartaz com várias participações, entre elas do músico galego Fernando Barroso, a actuar amanhã pelas 19h30.

Pela primeira vez na Madeira este nome maior do bandolim mundial não esconde a felicidade de descobrir a ilha, “um lugar onde as pessoas gostam muito de bandolim, têm orquestra de bandolim”. Para esta viagem inaugural, traz a mala cheia de sucessos. São quatro discos e a promessa de tocar temas inéditos.

O formato é familiar. Qual camaleão, Hamilton tanto se adapta a um universo de uma sinfónica como à singularidade de um solo. Aqui poderá vê-lo com Guto Wirtti no contrabaixo e com Thiago da Serrinha na percussão e com ‘Caprichos’, ‘Trio’, ‘Casa de Bituca’ e ‘Samba de Chico’. ‘Trio’ foi nomeado entre os melhores discos de música Instrumental em 2013, ‘Caprichos’ chegou também à lista de finalista para um Grammy em 2014 como Melhor Disco Instrumental. ‘Samba de Chico’ esteve na corrida ao Latin Grammy 2016 como Melhor Disco de Música Instrumental e Melhor Engenharia de Som, tendo vencido. São tudo boas razões para rever ou descobrir esta estrela.

“Eu componho muita coisa, não paro de compor, estou sempre compondo”, confessou em entrevista ao DIÁRIO. “Com certeza que vou tocar alguma coisa nova aí que ainda não toquei em nenhum outro lugar. Estou muito empolgado com essa viagem”.

A ideia do bandolim como parente pobre na família dos instrumentos e menos dado ao papel de solista não é partilhada no Brasil, onde tanto se associa à música popular, mas enche um concerto de música clássica. Hamilton conhece-o bem do choro “primeira música popular nascida no Brasil, uma mistura de ritmos africanos com a música europeia.”

Entre tantos instrumentos que habitavam a sua infância, este acabou por merecer um lugar de destaque no coração e nas mãos do músico. Oferecido pelo avô, acabou por ser uma prenda para a vida, por se enamorar dele e por casar, aparentemente até que a morte os separe. O segredo, contou, está na O segredo está na “intimidade” que mantém com a música.

Crescido numa família de músicos, havia sempre uns instrumentos à mão, sentados como convidados de honra no sofá da sala de estar. “Eu chegava da rua e olhava para aquele sofá. Tinha um bandolim, um cavaquinho, um violão de seis cordas, um violão de sete cordas, um pandeiro e num cantinho da sala tinha um órgão. Eu tinha o contacto com esses instrumentos desde muito novo”. “Eu nem sei bem porque é que o escolhi”, confessou. “Eu na verdade acredito que foi o bandolim que me escolheu”. Tinha cinco anos quando o avô lhe ofereceu, não escrevia, não lia quando aprendeu a tocar. Hoje trata-o por tu e é um dos mais conhecidos bandolinistas do mundo.

Como mantém este título? Tratando bem a música e o seu instrumento de eleição e juntando a isto as parcerias. São tantas que o mantêm sempre activo e a criar. “Tenho muitas parcerias, o que me faz estar sempre inventando, criando uma coisa nova, gravando um disco novo, fazendo um show novo. Eu acho que o que me mantém sempre activo, produtivo é a possibilidade de criar alguma coisa nova. Eu acordo, já quero tocar, já quero estudar”.

Estudar o instrumento é fundamental, diz em jeito de conselho para quem quer ter sucesso. Ter bons contactos, boas parcerias é fundamental também, contribui para aprender, incentiva a tocar melhor, a descobrir novos caminhos para músicas e a pensar de forma diferente, acredita.

“Eu sou um eterno curioso, estou sempre disposto a compor uma música de algum jeito que eu ainda não fiz.”

Nos muitos cruzamentos de mais de três décadas e meia de música, saltam dois nomes portugueses, um do presente outro do passado. Não esconde o gosto por Carminho, com quem já gravou um samba, e de Carlos Paredes, o grande guitarrista que deste lado do oceano influenciou Hamilton. “A música dele me encanta, é uma música que eu já oiço há um tempo, adoro. Toco uma música dele chamada ‘Serenata’. A música do Carlos Paredes me inspira bastante”.

Hamilton tem 41 anos, ganhou no ano passado o Grammy Latino para ‘Melhor Disco de Música Instrumental’, já tinha ganho outro em 2015 para ‘Melhor Canção Brasileira’ com ‘Bossa Negra’, para além das oito nomeações nos últimos nove anos. No próximo dia 20 são anunciados os finalistas ao Grammy Latino 2017. O prémio, explica, é uma consequência não um objectivo. “O objectivo é a emoção, é poder me comunicar com o público, poder fazer uma música que seja bonita, encontrar a beleza na música”, defende. Sem hipocrisias, reconhece valor de um prémio desta natureza, importante para colocar os holofotes no trabalho do vencedor. “Se vier mais eu vou adorar, vai ser uma consequência muito boa porque o reconhecimento é muito bom e cada prémio que eu ganho, eu fico mais motivado para fazer mais coisas e gravar mais discos e conhecer novas músicas para poder evoluir”.

Na lista dos desejos por concretizar, está um concerto com a Orquestra Filarmónica de Berlim, seria lindo, antecipa.

Nesta viagem à Madeira, o músico vai dar ainda amanhã um workshop. “Eu não consigo contar 35 anos da minha vida musical em uma hora, duas horas”, diz logo. Por isso vai centrar-se no nos seus ‘Caprichos’, 24 músicas que compôs para o bandolim e que são desafios instrumentais, baseados em vários estilos. Vai falar um pouco improvisação e de como aprendeu a improvisar.

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