“Há uma gestão hospitalar centralizadora”

Luís Filipe Fernandes, psiquiatra

11 Dez 2017 / 02:00 H.

Disse há poucos dias no seu ‘Facebook’ o que passo a citar: “Posso entender mas não aceito a falta de medicamentos, a degradação física das instalações ou a lista de espera para consultas e cirurgias”. Quais as razões que o levam a não aceitar o que descreveu? É um dever do Estado promover e zelar pela saúde dos seus cidadãos, para um país saudável e competitivo. Podem existir rupturas em algumas alturas e áreas, mas quando se repetem, algo de errado se está a passar, talvez uma gestão sem planificação e objectivos, em que se vão apagando “incêndios” o que não nos espanta, quando muitos dos directores de hoje há muito que deixaram de ser nomeados pelo saber, mérito e capacidade de liderança.

“Não entendo e indigno-me que não se aceitem propostas (sem custos) para melhorar a acessibilidade dos doentes a tratamento, por falta de visão e/ou mera burguesia pseudo-intelectual clubista”, foi outra das suas frases. Pode concretizar? Com poucos recursos fazem mais sentido as parcerias que geram valor. Esta visão teve-a o Dr. Manuel Brito, quando decidiu abdicar do internamento hospitalar de psiquiatria, pelo preço cama/dia a rondar no mínimo os 120 euros; estando o mesmo serviço já protocolado às Ordens Hospitaleiras, com certificações de excelência por 39 euros. Mais recentemente o Dr. Pedro Ramos, com uma visão estratégica de futuro, protocolou um estudo-piloto de apoio comunitário a doentes na área da saúde mental. Esta visão não é partilhada pela gestão centralizadora hospitalar, que reclama para si a orientação de doentes com problemas ligados ao álcool (o maior problema de saúde pública da região). Não tendo capacidade de resposta, aumentam as listas de espera, o sofrimento das famílias e a frustração dos médicos de família, pela não autorização directa da articulação, dos cuidados primários com o Centro Ricardo Pampuri - reconhecido a nível nacional pelo seu programa, qualidade e eficácia.

O novo hospital não resolverá grande parte dos problemas do sistema de saúde na Região? Não acredito que novos espaços, digo hospital, venham per si resolver o sistema, teriam que ser acompanhado pela implementação e monitorização de programas de prevenção, promoção e tratamentos articulados, em que na doença os cuidados sejam de proximidade, com partilha de saberes onde a rede de cuidados, responde a cada momento, a quem e ao que de melhor se possa fazer, sendo o hospital o ponto de passagem, que ao ser novo, melhora a dignidade e o conforto no tratamento.

Os problemas que envolvem o sistema de saúde prendem-se mais com a gestão ou com a falta de dinheiro? Aumentando a esperança média de vida e o conhecimento técnico-científico, aumentam os custos em saúde, daí a necessidade de se pensar a Saúde a 20 ou mais anos e não apenas para o período de uma legislatura. Deverá ser dada atenção aos desperdícios, ao doente e à sua qualidade de vida como foco do sistema, mas também aos profissionais que tanto têm sido esquecidos e desvalorizados.

Relativamente à sua área de especialização – a psiquiatria – noticiámos há cerca de dois meses que mais de 1.000 doentes que eram acompanhados aguardam por consulta há mais de um ano. A situação é incomportável para o doente, especialmente para o que não pode socorrer-se do médico no privado? Com o número actual de médicos psiquiatras no serviço público da RAM, não se pode exigir que diminuam as listas de espera, pois os atendimentos de urgência no Serviço de Urgência e outros serviços ultrapassa em muito as suas capacidades, até porque é a especialidade médica com mais chamadas de urgência. Só a articulação, boa vontade e disponibilidade dos médicos de família, psicólogos e enfermeiros de saúde mental, tem sido a “tábua de salvação” para o seguimento e ajustes terapêuticos, já que as situações mais urgentes são referenciadas à urgência. Preocupa, que sendo a doença mental, geralmente diagnosticada tardiamente e não tratada precocemente, na Região seja pior, com todas as consequências afectivas e socioeconómicas inerentes.

O SESARAM tem um psiquiatra no quadro, tendo conseguido atrair um outro num concurso recente. É manifestamente insuficiente para a população da Madeira. O que dificulta tanto a captação de médicos para o serviço público na área da psiquiatria? Havendo em Portugal continental dificuldade em fixar médicos no interior, maior será na Região. Talvez incentivos à fixação diluídos no tempo sejam uma hipótese para captar recursos para um sistema que se deseja reconhecido pela sua excelência, pensado a longo prazo, com objectivos intermédios e reconhecimento pelo mérito dos seus profissionais.

O secretário Regional da Saúde referiu há pouco tempo que a saúde mental é uma “área do futuro que carece de um novo projecto devido a alguns problemas organizacionais”. Concorda? Sendo a saúde mental uma área de futuro é altura de implementar os projectos existentes, monitorizando e adaptando-os se necessário, para que um sistema em rede, complementar e de proximidade, contribua para uma maior e melhor saúde mental, pois só assim teremos ganhos em saúde e uma região mais competitiva e em crescimento.

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