Governo abate 200 pombos por ano

28 Dez 2017 / 02:00 H.

Cerca de 200 exemplares da espécie pombo-torcaz são abatidos todos os anos sobretudo na costa Norte da ilha da Madeira. Uma “medida especial de correcção da população” que o Governo Regional vem implementando há seis anos como forma de mediar o conflito entre o Homem e aquela espécie endémica, entre o domínio do território e a sobrevivência, entre os campos agrícolas e a floresta laurissilva. Um método que está longe de sossegar associações de protecção ambiental e de defesa do bem-estar animal como a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).

Todo esse processo é actualmente conduzido pelo Instituto das Florestas e Conservação da Natureza (IFCN) que tem em curso um programa de monitorização e acompanhamento permanente deste problema no terreno.

A Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais (SRARN), dirigida por Susana Prada, vinca que o abate é uma “medida especial” realizada por membros da Polícia Florestal exclusivamente em áreas agrícolas e que só “em caso de danos comprovados às culturas agrícolas e em situações ou áreas onde os dispositivos de minimização não resultaram”.

Em consequência desta “medida especial de correcção da população”, anualmente são abatidos, em média, 200 pombos maioritariamente na costa Norte da ilha da Madeira.

“População encontra-se estável”

Os censos da população do pombo-torcaz revelam que a densidade relativa mantém-se nos mesmos níveis que os anteriores censos de 2015. Nesse sentido, a SRARN admite que “a população encontra-se estável, apresentando padrões de flutuação perfeitamente expectáveis para populações naturais em equilíbrio com o seu ecossistema, mantendo-se a estimativa anterior de uma população entre 10.000 a 14.000 indivíduos”.

Comparando com os censos de 2009, publicado no Atlas das Aves da Madeira - efectivo populacional estimado variava entre 8.500 e os 10.000 indivíduos - constata-se que há até uma ligeira subida. Esta estimativa diz respeito ao efectivo existente na floresta laurissilva, sendo que a população total ao longo da ilha (ocupando outros habitats) é muito mais alta, nota o Governo Regional.

A secretaria titulada por Susana Prada conclui, assim, que a medida de gestão extraordinária em vigor desde 2012, que passa pelo abate selectivo dos indivíduos encontrados a causar estragos nos campos agrícolas, “é uma medida adequada, equilibrada e que não causa qualquer impacto no estado de conservação favorável que a espécie actualmente tem”.

Primeiro a subsistência humana

O DIÁRIO tentou saber também se estão quantificados os danos nas culturas agrícolas devido à presença do pombo-torcaz. Um dado que a Secretaria não dispõe, atendendo a que a agricultura, desenvolvida nas parcelas destas áreas limítrofes onde os estragos se fazem sentir com maior regularidade e intensidade, é “fundamentalmente de subsistência” .

Susana Prada só não tem dúvidas em relação às prioridades. E neste capítulo, a subsistência das pessoas está em primeiro lugar. “Os prejuízos colocam-se de forma muito mais relevante ao nível dessa mesma subsistência, afectando famílias que dependem desses produtos para a sua alimentação e bem-estar no dia-a-dia”, afirma Susana Prada, citada pelo gabinete de imprensa.

“Os aspectos de envolvência económica perdem expressão e importância, pelo menos num enquadramento de equilíbrio com os valores mais básicos da solidariedade e bem-estar social, quando entramos em consideração com a dimensão humana”, argumenta.

400 agricultores apoiados

O problema da falta de simbiose entre Homem e pombo-torcaz ocorre em todos os concelhos da ilha da Madeira. Em média são apoiados mais de 400 agricultores por ano.

“Esta assistência passa por uma avaliação da situação no terreno e consequente disponibilização dos meios de afugentamento ou exclusão adequados. Todos as anos o Governo Regional distribui em média 50 espanta-pássaros a gás, 16.000 metros quadrados de rede de exclusão e 2.000 metros de fita holográfica reflectora, entre outros apoios como reparações ou aconselhamentos.

Quanto à eficácia desses métodos, a SRARN respondeu que todos eles “acabam por ter limitações na sua eficácia dada a grande dimensão da área afectada, que torna impossível existir uma resposta adequada e em tempo útil no sentido de minimizar de forma aceitável o problema”. Além disso a dificultar a utilização destes métodos existe alguma falta de formação dos utilizadores relativamente à melhor maneira de os aplicar, apesar de existir “muito esforço também neste campo”.

Abate só depois de esgotar os métodos de afugentamento

A SPEA na Madeira discorda da política de abate do pombo-torcaz e considera que o Governo Regional não está a explorar devidamente todos os métodos não letais para afugentar, das propriedades agrícolas, aquela espécie endémica que tem o seu habitat na Florestal Laurissilva e que “importa preservar dado o valor acrescentado que representa para a fauna e também para o turismo de natureza em crescendo na Madeira”.

Cátia Gouveia diz que o abate poderá ser evitado, bastando para isso que se tire partido dos métodos de espantamento existentes. A coordenadora da SPEA na Madeira recorda que os dados com o número de abates deixou de ser disponibilizados ao público.

Os campos agrícolas em povoações situadas nas zonas limítrofes da Floresta Laurissilva são os palcos de conflito entre aquela espécie selvagem e o Homem. Cátia Gouveia já desafiou a tutela do Governo Regional a indicar a taxa de eficácia dos métodos de espantamento das aves - fitas holográficas, dispositivos com disparos e rede de cobertura às plantações – mas não obteve resposta.

“A nossa posição é que o abate controlado só se pode considerar quando tivermos esgotado todas as outras opções”, diz, convicta de que as autoridades têm optado pela via mais fácil, barata e directa: o abate.

No último censo de 2009, o ‘Columba trocaz’ (Heineken, 1929) tinha um efectivo populacional estimado entre 8.500 e os 10.000 indivíduos. É considerado uma espécie “vulnerável” segundo o Estudo Livro Vermelho embora tenha estatuto IUCN “pouco preocupante”.

Na última actualização do Atlas das Aves da Madeira, datada de 2011, a perda e degradação de habitat é considerado um “factor de ameaça determinante” para o pombo-torcaz. “Fruto dos estragos que causa nos campos agrícolas, goza de uma impopularidade crescente junto das populações rurais, o que leva ao seu envenenamento e abate ilegal”.

Nota que “apesar de não constituírem ameaças directas ou com grande expressão, acabam por resultar fortes pressões sobre as entidades com responsabilidade na área da conservação, no sentido de diminuir o estatuto de protecção legal da espécie, o que poderia abrir as portas à sua caça legal”.

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