Manter é a pretensão

História da padaria faz parte das vivências

14 Ago 2017 / 02:00 H.

Para se falar da empresa Manuel Martins & Filhos Lda., que exerce a actividade em panificação na Padaria e Cafetaria dos Marmeleiros, é obrigatório que se fale da história desta família.

A primeira padaria aparece em 1932 e foi construída pela avó da actual sócia-gerente do espaço, Maria José Vieira. Na época, a senhora ficara viúva muito cedo e com um filho de oito anos por criar e então decidiu fazer as primeiras paredes do negócio nos terrenos da família.

Entretanto, o filho, Manuel, cresceu e acabou por seguir os passos da mãe, conhecida por ‘Mariquinhas’, e na década de 50 do século passado, pensou em algo que jamais passaria pela cabeça de nenhum padeiro. “O meu pai comprou um carro para distribuir pão, foi a primeira pessoa na Madeira”, conta Maria José Vieira. “Era um ‘Commer’ verde porque ele era do Sporting e sabe que houve quem fosse ter com o meu pai e dissesse ‘Manuel, mas tu estás louco? Compraste um carro para andar a distribuir pão?’ E ele respondeu que isto é que ia ser o futuro. E assim foi”.

E foi de tal forma, que tal como os pães, também as carrinhas se multiplicaram nesta empresa para a distribuição do produto.

Actualmente, Maria José tem 68 anos e foi professora de Economia na Escola de Jaime Moniz durante 36 anos, estando actualmente reformada. No entanto, não consegue, pelo menos para já, deixar de trabalhar na Padaria e Cafetaria dos Marmeleiros, um espaço que ‘respira’ histórias e que esta não se cansa de as contar. Não é por acaso que uma das paredes da primeira construção do espaço ainda se mantém, em pedra. “É para recodar tudo o que a minha avó fez”.

A quarta geração da família, filhos de Maria, seguiu outros rumos profissionais mas não deixou de lado o carinho pelo negócio familiar. “Eles também são padeiros, gostam muito de fazer pão”.

Além dissto, a vontade de ver a estrutura a adaptar-se conforme os tempos foi também ideia de um dos filhos de Maria que, em 2007, decidiu que a Padaria e Confeitaria dos Marmeleira necessitava de uma remodelação completa. O espaço acabou por ser transformado e mais atractivo ao público que, com o passar dos anos, torna-se mais exigente. “As pessoas gostam de coisas novas, de se sentir bem e então decidimos mudar”, frisa Maria.

Mas, o sucesso que tem sido este espaço deve-se também a um outro factor, bem à vista de todos. A proximidade ao Hospital dos Marmeleiros acaba por ser um ponto a favor do negócio familiar. A razão é simples. Assim, o espaço acaba por receber uma clientela muito diversificada, “além dos clientes fixos”, que passa pela padaria para comprar algo antes de visitar os doentes internados. “Acaba por ser uma zona de passagem”, diz Maria.

Receitas secretas

“O que nos distingue dos outros é a qualidade com que nós trabalhamos e, claro, as nossas receitas. Temos uma receita do ‘Pão da Avó’ que é secreta porque é feita com ‘isco’, um fermento que é feito na própria da padaria”, desvenda Maria, sem querer dar a conhecer muito mais. Mas, a família não se ficou por aqui e tem outros segredos bem doces, como é o caso da receita do tradicional bolo de mel, feito com um toque muito especial. “É um bolo que ‘descansa’ durante três dias antes de ser cozido e também temos uns bolinhos, as ‘areias’, que são feitos por uma receita que tem mais de 100 anos”.

Por outro lado, um facto que Maria não pretende esconder, de forma alguma, é o uso de “massas frescas, nada é congelado. Todos os dias, o pão é fresco nesta padaria”, faz questão de frisar.

Amplamente satisfeita com o caminho que o negócio familiar tem vindo a percorrer, Maria José não prevê grandes alterações ou estratégias para o futuro. “Não pretendo crescer além disto, pretendo manter”.

No entanto, ressalva que o grande objectivo “é passar este gosto para a quinta geração”, que ainda vive a tenra idade, mas que “já gosta de fazer pão e de mexer na farinha”, diz, entre risos.

Claramente virada para a vertente familiar, Maria conta inumeras histórias que a conduziram durante o seu percurso de vida. Uma delas ruma a 1962. “Nesse ano, saiu uma lei para as indústrias alimentares que obrigou a generalidade das padarias a fazer grandes obras, como colocar azulejos nas paredes e muito mais. Era uma série de exigências e isso fez com muitas padarias se fundissem em sociedades. Mas o meu pai não se juntou a ninguém”. E é nesta individualidade que Maria quer ver a esta padaria, gerida unicamente pelos laços de família que passam de geração em geração, como uma herança histórica.

É pelos antepassados e pela emoção em recordar tudo o que se viveu noutras épocas, que a reformada se esforça em ficar atrás de um balcão para atender o público que chega ao estabelecimento.

A padaria funciona com 12 funcionários que tornam toda a actividade comercial possível. A abertura do estabelecimento acontece às 6 horas da manhã, no entanto, uma hora antes já estão as carrinhas a fazerem a distribuição do pão pelo Funchal. Para a confecção do produto, existe o turno nocturno, que tem início às 22 horas e dura até às 5 horas da madrugada.

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