Frente Mar quer captar fontes de receita alternativas

Nelson Abreu, administrador

15 Abr 2018 / 02:00 H.

A empresa municipal Frente Mar Funchal é administrada, desde Fevereiro passado por Nelson Abreu, um gestor vindo do privado, com provas dadas na área dos fundos europeus e do ensino superior.

Na primeira entrevista concedida após assumir funções, traça as prioridades e garante que a empresa tem futuro, que o passivo está a ser reduzido e que cada complexo balnear do Funchal vai ter a sua marca própria, o seu logotipo. Este ano, os preços dos acessos às praias vão sofrer um “ligeiro aumento”, muito por culpa dos estragos provocados pela última intempérie.

Nelson Abreu prepara-se também para lançar uma série de novos projectos, nas áreas da publicidade e do marketing, para conseguir mais receitas e gerar lucros.

Encontrou a Frente Mar numa situação difícil a nível financeiro?

A empresa tem as suas dificuldades financeiras, não podemos esquecer que nos últimos anos todas as empresas na Região sofreram com a crise e a Frente Mar Funchal (FMF) não é excepção, além de ser uma empresa municipal que tem por objectivo oferecer serviços públicos de qualidade a todos os residentes e turistas a preços acessíveis, e visto não ter tido resultados positivos nos últimos anos é normal que todos estes factores contribuem para que exista alguns desequilíbrios financeiros, mas em conjunto com a tutela temos vindo a trabalhar para encontrarmos soluções que permitam ultrapassar as dificuldades financeiras.

Qual é neste momento o passivo da empresa?

A empresa tem feito um esforço para a redução do seu passivo junto dos seus fornecedores e das instituições financeiras, cumprindo com as suas obrigações apesar de existirem alguns constrangimentos.

No último ano reduzimos o nosso passivo bancário cumprindo com o plano de amortização da dívida acordado com as instituições bancárias, e é esta a política que pretendemos ter no futuro, uma gestão equilibrada e responsável.

A dívida a fornecedores sem a CMF, reduziu substancialmente neste último ano, sendo que em 2016 o saldo de conta corrente a fornecedores apresentava um montante de 135 mil euros e em 2017 conseguimos liquidar grande parte deste passivo, apresentando no fim do exercício um saldo final de 50 mil euros.

A oposição chegou a exigir uma auditoria à empresa. Encontrou motivos para isso?

É normal, faz parte da dialéctica política, que a oposição exija uma auditoria a uma empresa municipal. Mas esta é uma empresa que tem as suas contas auditadas e validadas pelo Tribunal de Contas.

A empresa tem vindo a cumprir com as recomendações que o Tribunal de Contas mencionou nos seus relatórios desde o ano de 2010, tendo sido detectadas diversas irregularidades sendo que algumas destas motivaram multas aos administradores em funções à data.

Estes relatórios de auditoria realizados pelo Tribunal de Contas bem como o relatório dos auditores garantem a total idoneidade das contas da FMF.

Os 300 mil euros de prejuízo registados em 2016 não se voltam a repetir?

Esta é uma questão que gostaria de responder afirmativamente, no entanto, devido às características muito próprias da FMF é impossível vaticinar se vamos ter prejuízos ou não. Vejamos, por exemplo, a questão do último temporal. Quase todas as nossas instalações encontram-se na orla marítima e a forte agitação do mar causou estragos na ordem das centenas de milhares de euros. Este contratempo abala todos os nossos planos e projectos para o futuro, no entanto, posso assegurar que estamos com mais vontade para trabalhar e apresentar soluções economicamente viáveis para aumentar as receitas da empresa e colmatar os efeitos da intempérie. Mas nada nos garante que não voltaremos a ter prejuízos causados pelo mar...

Além disso não podemos esquecer que ao nível da mobilidade tem vindo a ser retirado zona de parcómetros na cidade do Funchal, bem como foi aprovado em Assembleia Municipal a redução do tarifário dos parcómetros, estas medidas tem um impacto directo na receita proveniente da mobilidade, com um reflexo nos resultados da empresa.

Encontrou indícios de gestão danosa?

O facto de a empresa ter apresentado resultados negativos não é indicativo de que tenha havido uma gestão danosa. Estamos a falar de uma empresa municipal que tem por objectivo oferecer serviços públicos de qualidade a todos os residentes e turistas a preços acessíveis. Seria muito fácil aumentar os preços e assim obter resultados positivos, ou então após a época balnear encerrar alguns complexos, no entanto, existe uma clara aposta da Câmara Municipal do Funchal em promover o bem-estar psíquico e social dos seus munícipes, e o aumento drástico dos preços iria reflectir-se automaticamente no utilizador.

Convido a pesquisar os complexos balneares nacionais e a encontrar complexos com as nossas características e qualidade aos preços que praticamos.

Agora, se podemos melhorar a forma como esta empresa é gerida, claro que sim, existe sempre margem para melhorias e esse é o meu objectivo actual. Recordo que esta empresa nos últimos anos apresentou dificuldades financeiras, perante este facto o Tribunal de Contas elaborou um relatório com diversas recomendações a factos ocorridos durante os exercícios económicos de 2011, 2012 e 2013, resumindo-se numa recomendação de encerramento desta empresa municipal.

A Frente Mar está em condições de gerar lucros?

Sim, a Frente Mar Funchal tem condições de gerar lucros e o nosso trabalho está sendo direccionado nesse sentido. A minha visão para esta empresa passa por explorar todas as nossas infra-estruturas e criar novos serviços e novas fontes de receita, mas, como disse anteriormente, apenas podemos gerar lucro se a natureza, principalmente o mar não nos trouxer danos nas infra-estruturas.

Vão candidatar algum projecto aos fundos europeus?

Este assunto está a ser estudado em conjunto com a tutela e no caso de existir algum fundo disponível para a nossa área de acção, nomeadamente na mobilidade, com certeza iremos apresentar uma candidatura.

Qual o montante exacto do prejuízo da última intempérie nos equipamentos tutelados pela Frente Mar?

O montante dos prejuízos calculados pela Frente Mar Funchal ronda os 660 mil euros, sendo que o complexo balnear da Barreirinha, do Lido e da Ponta Gorda foram aqueles que sofreram maiores danos e estragos, estes três complexos registaram danos superiores a 70% dos prejuízos totais.

Nesse sentido e em conjunto com a CMF temos vindo a articular um plano de intervenção para que até a abertura da época balnear os complexos estejam a funcionar nas melhores condições de segurança e conforto para todos os utentes.

Que prioridades traçou para o seu mandato?

As principais prioridades a curto prazo neste mandato é a gestão do endividamento, é importante continuarmos a amortizar dívida por forma a honrar os compromissos estabelecidos, tendo sempre presente uma política de endividamento controlado.

É também fundamental termos um orçamento por áreas de negócio da empresa, (Complexos Balneares, Mobilidade e Passeio Público Marítimo), e orçamentos individuais por cada complexo de forma a termos uma melhor noção do resultado de exploração de cada um. Como já foi mencionado temos a clara noção que os resultados de exploração são deficitários nos complexos balneares. Mas volto a sublinhar que temos um serviço público de qualidade com preços reduzidos, de forma a possibilitar que a maioria da população tenha a possibilidade de frequentar os complexos balneares.

Estamos a trabalhar de forma a termos fontes de receitas alternativas que reduzam estes resultados, nomeadamente com a colocação de publicidade em determinados espaços no interior dos complexos, esta ideia surgiu após termos realizado um estudo com os nossos departamentos comercial, projecto e imagem, onde foram identificados diversos espaços.

Um projecto a lançar no futuro é criação um logotipo por cada complexo balnear. A ideia passa por criar uma entidade própria, porque cada um deles tem uma história e muitas memórias colectivas.

Pretendemos em 2019 criar em cada complexo um espaço reservado ao “merchadising” (loja Frente Mar Funchal), onde quem nos visita possa levar consigo além de uma experiência, uma recordação do complexo balnear que visitou.

Não podemos esquecer que toda estratégia funciona com uma equipa coesa e motivada, como tal, demos início junto dos sindicatos representativos dos trabalhadores um diálogo franco, na tentativa de construirmos um acordo colectivo de trabalho que será implementado pela primeira vez nesta empresa municipal, apesar de termos noção que os custos irão aumentar, é nosso dever criar as melhores condições de trabalho para todos os nossos colaboradores, tendo um reflexo na qualidade e excelência do serviço prestado.

Outro aspecto relacionado com os recursos humanos é termos um plano de formação anual onde identificamos quais os pontos que devem ser melhorados de forma a continuarmos na política da melhoria continua. Pretende-se também obter o nosso certificado da qualidade, sendo que já iniciamos o processo de implementação do mesmo.

Os complexos balneares geridos pela Frente Mar vão manter os mesmos valores de entrada este ano?

Esta é uma situação que ainda está em análise, mas que não diz só respeito a administração da FMF, mas devido aos prejuízos do último temporal é provável e razoável que haja um ligeiro aumento de preços, praticamente imperceptível para o utilizador final.

Que investimentos vão ser feitos este ano?

Este ano os nossos investimentos passam por repor o que o violento temporal destruiu, criando assim as melhoras condições de segurança e conforto para a utilização dos nossos complexos.

A nível do estacionamento, o presidente da CMF afirmou que deseja melhor o serviço, designadamente através de inovação e tecnologia. O que está a ser feito nesse âmbito?

Está a ser desenvolvido um projecto de gestão integrada entre os parques de estacionamento e os parcómetros que irá permitir que todos os cidadãos possam ter um melhor serviço, e em conjunto com outras entidades está a ser estudada uma solução que permita termos um melhor serviço ao nível do estacionamento e não só.

O estacionamento no Funchal vai manter os preços actuais?

A definição dos preços dos parcómetros não depende exclusivamente da FMF, no entanto não posso deixar de referir que esta matéria tem de ser sempre articulada com base na estratégia global de mobilidade definida pela CMF para a cidade. Sendo que o novo PDM constitui um novo e importante instrumento para a reflexão e gestão da mobilidade na cidade do Funchal.