Formação

21 Mar 2017 / 02:00 H.

Há sensivelmente um mês e meio à frente da protecção Civil da Madeira, José Dias dá uma entrevista ao DIÁRIO, em que revela a sua visão e prioridades de actuação.

O que o levou a deixar os Açores e a vir para a Protecção Civil da Madeira? O facto de ter aceitado o convite é porque me identifiquei com os objectivos propostos. Quem me convidou identificou-se com a visão que eu tinha para a protecção Civil da Madeira. Foi a aceitação de um novo desafio. Não sou indivíduo de estar muito acomodado...

Não gosta de se cristalizar nos cargos. Não gosto de me cristalizar e de me manter na minha zona de conforto quando me são propostos desafios. Foi também achar que, uma vez que já tinha dado quatro anos do meu contributo a colocar a protecção Civil dos Açores, na minha perspectiva, em níveis de execução bons, excelentes, aí sou um bocadinho suspeito a falar, podia dar o meu contributo à RAM.

A questão do conhecimento prévio do terreno é determinante, tendo isso sido algo que lhe foi apontado como fraqueza? Há alguma importância em conhecer onde se vai trabalhar. Dou o exemplo de quando fui para os Açores, também não tinha um conhecimento aprofundado daquela região autónoma. Estou exactamente no mesmo patamar. Agora, é importante perceber-se que na gestão das operações existem várias etapas. Existe o nível estratégico, o nível táctico e um nível de manobra. A estratégia é onde se situa o presidente da Protecção Civil. O comando das operações é sempre do ponto de vista local. O presidente da protecção civil é sempre o responsável pelo que acontece. Deve é ter consigo uma equipa que o ajuda a tomar as melhores decisões. Uma equipa que dê uma cabal resposta às operações, de um ponto de vista estratégico e táctico, porque, do ponto de vista das manobras, são os operacionais do terreno. Há que desmitificar toda esta noção.

O conhecimento da vereda, do lombo... não é algo que esteja imediatamente no patamar de responsabilidade do presidente da protecção civil. Exactamente.

Neste mês e meio, em que exerce funções na Madeira, além do número de ilhas, que diferenças marcantes consegue estabelecer com os Açores ou a esse nível estratégico não há grandes diferenças? O nível estratégico é semelhante, tento que o seja. A minha visão e o meu posicionamento mantém-se inalterado, porque a pessoa é a mesma, logo a mesma visão, para dois arquipélagos.

Há é condicionantes que são completamente diferentes e há que adaptar tanto a visão como a estratégia à realidade da RAM. Como já afirmei várias vezes, a visão que tenho para o SRPC, na missão que lhe está atribuída, que é coordenar, fiscalizar, toda a área da protecção civil, bem como prevenir e socorrer, em caso de situação de acidente grave ou catástrofe. Pretendo que haja sempre uma protecção civil moderna, eficiente eficaz e participativa.

Como é que isso se traduz na prática? Moderna, porque cada vez mais com recursos que nós alocamos e as formas de realizar as acções têm de estar sustentadas em sistemas informáticos que nos ajudem à própria decisão da componente estratégica ou táctica.

Aquilo que era exigido há cinco anos não é o mesmo que é exigido hoje à protecção civil e com certeza que não será o mesmo que será exigido daqui a cinco anos. Temos de ter alguma dinâmica de adaptação da nossa actuação.

Uma modernização permanente. Exactamente.

Eficiente porquê? Porque em situação de acidente grave ou catástrofe, os recursos são sempre escassos. Por isso é que uma catástrofe só o é quando os seus danos ultrapassa a nossa capacidade de resposta, se não não seria uma catástrofe. Seria uma situação banal.

Eficaz, por uma razão muito simples. Adequando os recursos e capacitando cada vez mais os agentes da Protecção Civil, com recursos humanos e materiais, para a sua eficácia nas situações, uma vez que, em situação de acidente grave ou catástrofe, são múltiplas as acções que temos de desenvolver.

Participativa por que necessitamos de todos os agentes de protecção civil contribuam para o sistema de protecção civil, não descurando nem um pouco o comum do cidadão. Para isso vamos trabalhar na área da sensibilização...

Para a tal autoprotecção. A autoprotecção, para cada vez mais termos o cidadão agente de protecção civil capaz de ajudar o próprio sistema de protecção civil.

O SRPC não começa com a sua chegada. O que encontrou de mais entusiasmante e que necessidades são mais urgentes colmatar? O que estamos a trabalhar é da estratégia, que já está traçada. Imediatamente temos de dotar os vários corpos de bombeiros, como já é público, de recursos materiais...

Já se falou em 36 viaturas. Exactamente, de 2.9 milhões de euros. E estamos, na fase final, por estes dias será aprovado, a aquisição de equipamento de protecção individual de combate a incêndios florestais, o que vai cada vez mais capacitar os recursos humanos com autossegurança.

Quanto aos meios humanos, a nível de bombeiros, são suficientes? Os homens nunca são suficientes, mas o que já temos, nestas visitas que temos feito, e já visitei todas e, só por uma questão de agenda ainda não visitei os Madeirenses e os Municipais do Funchal, por que ainda não foi possível reunir com o senhor presidente de Câmara e, na minha perspectiva, havendo uma hierarquização, devo visitar os bombeiros do Município do Funchal quando tiver reunião com o senhor presidente de Câmara.

Fala-se muito na importância da formação. Alguma área de formação que tenha sentido ser mais deficitária? Eu tive uma reunião com todos os elementos formadores do Serviço e o que lhes foi dito, eu pessoalmente e pelo menos enquanto eu for presidente do Conselho Directivo há-de ser a orientação, não olhar para a formação como uma despesa, mas como um investimento. Efectivamente, já foram dadas indicações muito claras para que a componente formativa de combate a incêndios florestais tenha uma grande incidência. Que se forme cada vez mais homens a nível dos combates a incêndios florestais, no primeiro semestre de 2017, não priorizando tanto a outra formação do combate a incêndios urbanos e toda a restante formação.

Mais trabalho de sapador, até porque no Verão passado se notou a diferença no terreno por parte dos bombeiros que vieram de fora. O que posso dizer, inclusivamente tive a grata notícia hoje (sexta-feira) que foi aceite pelo Centro de Operações de Treinos Florestais da Lousã a realização de um curso de abate de árvores e de trabalho manual na Madeira, que vai decorrer na semana de 15 de Maio. Acho que, independentemente de haver formação e homens com capacitação, devemos, cada vez mais almejar a excelência e fornecer, cada vez mais formação, na área de combate a incêndios florestais.

Sendo uma pessoa da Força Aérea, que visão tem sobre a utilização de meios aéreos no combate a incêndios na Madeira, não esquecendo que vai decorrer um estudo sobre essa questão? Não vou dar a minha opinião enquanto presidente o SRPC. Acho que as decisões e afirmações devem ser sustentadas pelo estudo que foi pedido.

Posso informar que estamos a trabalhar de forma articulada com a Autoridade Nacional de Protecção Civil. e que, hoje mesmo, o vogal deste serviço transportou em mão e foi entregue ao comandante nacional das operações de socorro os dados que foram solicitados, por ele.

Nos Açores, é uma questão se coloque a nível da Protecção Civil, além dos transportes da Força Aérea, que a Madeira também tem? Não. Não há necessidade de falar em meios aéreos.

Uma das coisas que têm sido discutidas, ao longo dos anos, é a quantidade de corporações de bombeiros existentes na Madeira. Qual é a sua ideia a esse nível? Acho que estamos bem servidos, com os corpos de bombeiros que, neste momento temos na região.

O Funchal está em processo de mudança de bombeiros municipais para sapadores. É só uma questão de designação ou traz alguma mais-valia? Outros devem seguir o mesmo caminho? Se calhar temos de perceber duas ou três coisas. O facto de se mudar a designação de municipais para sapadores, em nada, em nada altera as missões que lhes estão atribuídas. É bem que se tenha isto claro. Porque as missões dos corpos de bombeiros, que podem ser de quatro tipos – voluntários, municipais, sapadores e privativos, têm exactamente as mesmas

Passemos à questão dos avisos meteorológicos e da própria protecção Civil. Essencialmente após 2010, tem havido muitos avisos. Não corremos o risco de, acerta altura, não serem tidos em conta, por, muitas vezes não serem confirmados com as condições de tempo? Isto tem uma dupla fase: sai o aviso e não acontece nada, somos criticados por ter saído o aviso; mas se não sai o aviso e acontece alguma coisa, somos criticados porque deveria ter havido um aviso.

Nessa circunstância, qual é a sua opção? Estamos a trabalhar às segundas-feiras com o IPMA, para cada vez mais diminuirmos a malha a que se referem os avisos. Ou seja, os quadrantes.

Zonas geográficas? Exactamente. Termos a capacidade, mas isso o IPMA, melhor do que eu pode dizer isso, de através de novas tecnologias termos os avisos mais limitados no tempo e mais definidos na área geográfica.

Por fim, peço-lhe que identifique, do seu ponto de vista, quais são as grandes ameaças a nível de protecção Civil a que a Madeira está sujeita: aluviões, escorregamentos de vertente e incêndios florestais? Os riscos estão elencados no Plano Regional de Emergência.

Mas lá também estão os tsunamis que são pouco prováveis na Madeira. Mas é um risco que, quem tem uma costa associada, vai ter sempre de prever. Pode é ter uma baixa probabilidade de acontecer.

Mas os riscos não fogem muito dos que referi. Não. Eles estão identificados no Plano Regional de Emergência. Podemos é estar e aí é que é uma grande diferença, cada vez mais atentos aos que têm uma casuística de acontecimento, mas não descurando aqueles que, felizmente, não acontecem, mas que têm potencial para acontecer. É evidente que um tsunami tem uma baixíssima probabilidade de acontecer.

Para fechar o círculo. Após um mês e meio em função na Madeira, se voltasse atrás e sabendo o que sabe, voltaria a aceitar o convite ou já houve alguma coisa que o faria recusar? De maneira nenhuma. Aceitaria o convite da mesma forma, porque dos fracos não reza a história.

Tem sentido resistências por parte de quem já cá estava. Não. Tenho sentido apoio, colaboração por parte de todas as entidades com quem tenho contactado, sem excepção.

Outras Notícias