Foram-se os novos, ficaram os (mais) velhos

Os efeitos de emigração, além de preocupantes, é uma realidade transversal a praticamente todas as famílias nesta freguesia sede de concelho

01 Jan 2018 / 02:00 H.

A exemplo do resto do concelho e em sintonia com a preocupante realidade que predomina na Costa Norte, também em Santana a maioria dos poucos jovens deixaram a terra. Aqui a emigração faz-se notar não apenas pela ausência, mas também pelos efeitos que provoca nas origens, agora dominada por uma população envelhecida.

É o caso de Ana Gouveia, que foi mãe de sete filhos e agora vive na solidão. Com 88 anos, esta residente no Pico António Fernandes, perdeu o marido em Novembro. Desde então que o luto revela-se na roupa negra que veste. Quanto aos filhos, “dois foram com Deus” e os outros cinco “estão embarcados” em França e Inglaterra, diz resignada a octogenária apoiada por uma muleta porque o peso da idade a isso já obriga.

Apesar dos contratempos vividos e do isolamento que agora enfrenta, não perde o humor, quando questionamos o local de residência. “Moro junto à ‘quinta dos calados’. Não sabe aonde é? É junto ao cemitério”, responde.

Para esta mulher de idade já bem avançada, diz que vive o dia-a-dia “como Deus quer”. Rendida ao destino, não se queixa da “vida difícil”, embora sempre diga que “o que faz mais falta é o dinheiro”.

Também idosos, um casal residente no sítio da Silveira (sobre)vive com o pouco que a agricultura dá. “A fazenda sempre vai dando um coisinha”, admite ele, enquanto ela, a esposa, denuncia a falta que faz o serviço de urgências em permanência. “Há quem diga que não haver urgências à noite não faz praticamente diferença nenhuma. Se calhar não faz, mas para quem está bom. Agora para quem está à rasca, todos os minutos contam”, lembra.

Neste sítio mais desviado do centro da cidade, quem trabalha os campos agrícolas que ali predominam “são pessoas já de uma certa idade. Gente nova é poucachinha”, confirma o casal sem filhos por perto. Os três descendentes também emigraram.

Quem já foi emigrante foi Manuel Abreu, o proprietário do mini-mercado e bar localizado no centro cidade, no prédio onde ainda perdura a sigla do PPD.

Regressado da Venezuela no início do declínio do ‘el dourado’, estabeleceu-se com negócio próprio, juntamente com a esposa. Ele num lado, ela no outro. Em muitas ocasiões apenas um basta para atender os clientes, tão escassos que são.

Depois de mais de uma década no comércio local, a conclusão dificilmente poderia ser mais pessimista: “Isto vai cada vez pior. O Continente (supermercado) ‘mata muitos’”, atira. Culpa sobretudo as “promoções loucas” que vieram dar cabo do comércio tradicional. “Não se consegue ter os preços que eles oferecem nas promoções”. Não estranha por isso que o mini-mercado não tenha clientes. “Aqui só vêm para as coisas do dia-a-dia. É o quilo de açúcar, o quilo de arroz, o litro de leite. É tudo a miúdo”, esclarece.

Mais abaixo, entre o Pico Tanoeiro e as Faias, interrompemos a conversa entre um reformado e um cantoneiro. O primeiro, José Fernandes, é morador na zona. Não se queixa da qualidade de vida que a pacata freguesia oferece, mas também nota que “malta nova já não se vê muitos. Mais é da minha idade”, assinala com humor.

Sílvio Silva, o funcionário camarário, é mais crítico, mas em relação aos que estando desempregados também não querem trabalhar na agricultura.

“Deviam acabar com o dinheiro para esta malandragem, porque esta ‘canalha’ não quer saber o que é trabalhar”, contesta, concluindo com a seguinte observação: “Vão ‘vergar o serrote’ para quê? Dá mais dinheiro não fazer nada”, atirou.

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