FLM em circuito Europeu a cinco países

Arcângela Savino, directora executiva do FLM

13 Mar 2018 / 02:00 H.

Começa hoje a 8.ª edição do Festival Literário da Madeira (FLM), este ano dedicada ao tema ‘Literatura e Jornalismo, a palavra que prende e a palavra que liberta’, no Teatro Municipal Baltazar Dias, com a novidade da parceria com festivais literários de quatro outros países. Apesar da tentativa, a organização não conseguiu confirmar a presença da Nobel da Literatura que no ano passado falhou devido ao mau tempo, mas conta com muitos convidados para os cinco dias de programa.

Apesar dos quase 50 mil euros de apoio financeiro público, a directora executiva confessa que todos os anos é uma ginástica para colocar de pé a edição e que ano após ano têm procurado se superar e conseguido.

Porquê a escolha deste tema? A cada ano nós procuramos um tema diferente. Temos sempre procurado propor a poesia, a prosa, a sociologia, a literatura, temos misturado vários géneros para dar uma oferta o mais ampla possível. Quando se fala de literatura não é uma coisa finalizada em si própria, a literatura tem vários géneros. Temos falado nestes anos de sociologia, de religião, de poesia, de prosa. Este ano quisemos falar de jornalismo, porque é uma forma de literatura também.

Quais são os pontos altos da programação, o que vos orgulha? Todos os anos temos procurado superar-nos e todos os anos acho que temos conseguido. O programa que nós temos este ano é fantástico, é diferente e superior. Temos muito orgulho em receber muitos jornalistas que geralmente são lidos, mas nunca ouvidos. Quando os lemos é para ler o facto, mas na realidade têm mais para comunicar. Estou muito orgulhosa do programa que temos este ano, inclusive também dos dois convidados especiais. Este ano nós experimentámos internacionalizar o FLM, portanto temos quatro países parceiros, juntos dos quais nós vamos depois levar o nosso festival.

Quais são? A Irlanda, França, Espanha, Portugal e Itália também. Somos cinco.

E como é que funciona essa parceria do FLM com os outros festivais? Nós participamos num concurso europeu com outros quatro países para a divulgação das boas práticas, divulgação da literatura e cultura. E quem vai abrir este projecto aprovado pela Comunidade Europeia somos nós. Cada um desses países vai participar no nosso festival, criámos espaços onde eles vão poder se expressar, poder propor a própria literatura, poesia, e convidamos também muitas escolas para vir participar...

Isso é que vocês chamam Workshops Erasmus? Exactamente. Eles estão a trazer à Madeira a própria cultura, como quando nós formos a esses países vamos levar a nossa. Nós vamos escolher pessoas que possam fazer workshops ou intervenções nesses vários festivais. Eu gostaria que fossem da Madeira, ainda não fizemos os convites mas temos pessoas em mente que gostaríamos de levar. É um intercâmbio.

E como é que se chama este projecto a nível europeu? Litfest.

Ainda não foi possível um Nobel da Literatura? O Francesco Valentini tinha dito no ano passado que iam tentar trazer a Svetlana [Aleksiévitch] este ano. Nós tentámos até à última, só que a Svetlana neste momento não tem condições de saúde para se permitir uma viagem. E dadas as condições do tempo e os alertas para a próxima [esta] semana... Eu estou a rezar para que não tenhamos mais uma crise como no ano passado.

Entre as alterações que este festival sofreu nos últimos anos, já não está cá o Festivalinho (Fli). Porquê? Todas as novidades introduzidas no Festival foram introduzidas por mim. Além de ser uma festa, o Festivalinho punha em destaque as crianças - nós tínhamos tido nos últimos anos do Festivalinho apresentações, projecções de documentários feitos por eles, tínhamos feito muitas coisas e tinham sempre corrido muito bem com as crianças, que viam o seu trabalho ser premiado, o que é muito bom para a própria auto-estima. O problema é que tínhamos proposto no Teatro à noite sessões com especialistas do sector, psiquiatras, psicólogos, neurologistas que abordaram temas mais específicos, que não tiveram o sucesso que estávamos à espera. Não acredito que os adultos, os pais não estavam interessados no tema, mas são temas muito... Às vezes nós abordávamos temas muito fortes, intensos. Acredito que nem toda a gente esteja preparada para enfrentar este tipo de discurso publicamente.

Não tendo o sucesso que estávamos à espera, e também devido ao facto de que o Teatro não disponibilizava salas, porque o Festivalinho sempre antecedeu o Festival, não foi possível. Portanto há uma série de contingências que nos têm levado a não incluir o Festivalinho no Festival. Tínhamos pensado propor numa outra altura, mas não tem sido fácil.

Mesmo as visitas dos autores às escolas, essa parte do Festivalinho não é possível continuar? Neste momento, não. Para já porque o programa do Festival é muito pesado. A verdade é que como o Festival tem sido muito procurado, ir para todas as escolas é massacrante. Nós temos de nos concentrar no programa, no Centro das Mudas, Machico, para dar a possibilidade ao grande público de participar. O nosso intuito tem sido sempre esse, tentar envolver um maior número de pessoas. Às vezes as escolas não envolvem um grande número de pessoas, infelizmente, é uma contingência.

E a parceria com a Universidade da Madeira, o modelo também foi difícil de manter? Sim. Sempre devido à participação.

Não foi aquela que vocês estavam à espera? Sim. Como há muitas pessoas que estão interessadas, o ano passado foi clarificador nesse sentido. Nós no ano passado tínhamos o Centro das Mudas e [o Forum] de Machico completamente cheios, as pessoas estavam sentadas nas escadas. Há muita gente que está interessada, não queremos limitar. E propondo os autores só em lugares específicos, significaria para nós desaproveitá-los. Assim, pelo contrário, é muito mais acessível.

Uma das críticas ao programa é a ausência de convidados da Madeira, autores madeirenses. Realmente há alguns jornalistas a participar, mas como moderadores. Qual é a razão? Acho que foi o ano passado que aconteceu e este ano. Eu vou dizer a verdade: nem sempre é fácil incluir todos. Nós temos privilegiado os madeirenses nas edições anteriores do Festival. Se não acontece de vez em quando, acho que não é grave, também porque, como estava a dizer, trabalhamos muito para a internacionalização do Festival, nós estamos a contar com os jornalistas e autores madeirenses para nos seguirem depois nessas edições. Não os estamos a pôr de lado, a diminuir, pelo contrário. Aquilo que estamos a tentar fazer é valorizá-los ainda mais levando-os ao estrangeiro, achamos que têm muita qualidade.

Quando escolhem os convidados, o que é que procuram, quais são os critérios? Eu sei que há um tema e é à volta deste tema, mas como é que fazem esta selecção? Tentamos trazer sempre autores conhecidos e autores menos conhecidos. Os autores conhecidos obviamente garantem-nos uma maior divulgação do Festival; os actores menos conhecidos em Portugal são para continuar a divulgar a cultura e a literatura. É normal, como organizadora de um festival, ter que ter em consideração também a divulgação do trabalho que estamos a fazer.

É possível partindo do jornalismo ter um debate com literatura que seja interessante? Na minha opinião, o desenvolvimento deste tema nas mesas vai-nos surpreender. A partir do discurso inicial que vai ser feito na abertura, no Teatro, vai dar mais uma ideia daquilo que nós pretendemos com este tema. Aqui não estamos a pedir para narrar. Aqui estamos a pedir aos jornalistas, autores, etc., uma análise mais íntima. ‘A palavra que prende, a palavra que liberta’ é um tema muito profundo.

Por vezes acontece os convidados perdem-se do tema, as conversas fogem das mesas... Eu acho que é como se diz em italiano ‘Il bello de la directa’.

A beleza do directo? Exactamente. É difícil nos concentrarmos e mantermos uma linha de pensamento. Às vezes nos precisamos de um pouco de ligeireza. Não é de todo mau.

Este formato tem funcionado? Há desejo de mudar? Tem funcionado. É claro que a cada ano nós observamos, experimentamos adaptar e inovar, como acontece com o Erasmos este ano. A cada ano nós temos introduzido novidades e eliminado algumas coisas. Não quer dizer que a forma que temos este ano vamos ter para o próximo.

Nos últimos anos o Festival tem tido apoios públicos. Este ano são 25 mil do Governo Regional, e cerca de 30 mil da Câmara Municipal do Funchal, só em apoio financeiro. O que representam para si? Tivemos também da Associação de Promoção da Madeira. Eu vou ser muito sincera. Eu entendo que as entidades públicas têm feito um grande esforço com o Festival, tendo em conta que não é o único acontecimento cultural na Madeira. Há um pequeno problema, é que a máquina do Festival é uma máquina que consome muito. Às vezes o esforço feito não é suficiente. Mas pronto! Nós fazemos os milagres.

Gostaria que o valor fosse maior? Que fosse mais adequado.

E qual seria o valor adequado do apoio das entidades públicas? Para fazer um festival como este são necessários cerca de 150 mil euros e nós temos de fazer este com um valor, digamos, inferior, à volta dos 60 mil. Portanto é complicado. Verdadeiramente nós fazemos uma ginástica, porque ninguém se apercebe dos custos que esta máquina têm. Só em viagens áreas, por exemplo no ano passado nós tivemos de comprar para a Svetlana três passagens aéreas, sem contar com o hotel, porque o avião não conseguiu aterrar. Não é fácil, nem eu sei como é que faço [risos].

Mas a Associação [Eventos Culturais do Atlântico] além deste quase 55 mil euros, também tem os apoios em viagens, estadias. É nessa parte que entra a Associação de Promoção da Madeira? Sim. É um valor importante para nós, porque todas as ajudas são importantes, ainda bem que temos essas ajudas, mas só que os valores são sempre muito residuais. Cada um obviamente dá-nos aquilo que consegue, não estou a dizer o contrário, só que para continuar na realização deste Festival é necessário fazer um esforço maior. Por isso temos concorrido aos fundos europeus, para não pesar muito sobre a economia madeirense.

Nos últimos anos tem aumento o custo da produção do FLM? É que nos primeiros anos os apoios eram consideravelmente menores. O custo tem-se mantido porque os nossos parceiros têm-nos ajudado imenso e porque eliminámos algumas coisas e temos uma gestão muito apertada, temos de contar os cêntimos.

Há dívidas associadas às edições anteriores? Não.

A vossa dificuldade é garantir o dinheiro para a edição seguinte? Exactamente. Depois, conforme aquilo que vai estar garantido, organizamos.

Alguma vez consideraram não realizar o Festival? Tenho andado a pensar nisso. Porque o esforço para preparar o festival é enorme, nós preparamos cada edição do festival com dois anos de antecedência, o trabalho é enorme, o stress do dia-a-dia, é complicada a divulgação... Por enquanto não vou pensar, vamos continuar. Mas admito que se um dia nos apercebermos que continuar assim é impossível, eu não sei se conseguiremos manter o Festival, se muda alguma coisa.

Quando começaram há oito anos, tinham a ideia de que ia ser mais fácil, tinham outra ideia do desenvolvimento, do envolvimento das entidades? Eu não tenho coordenado todas as edições, eu coordenei nos últimos cinco anos. O meu esforço tem sido de fazer crescer, de promover o Festival, de promover a Madeira, de promover a nossa cultura - nossa porque eu sou madeirense de adopção. Esse tem sido sempre o meu esforço. Não sei dizer qual é que era o intuito, de certeza que era o de divulgar a cultura. Mas comigo, o Festival tem-se potenciado ainda mais, digamos tem passado de um festival local a um festival internacional.

Quando nós recolhemos o ROI [Return on Investment – retorno sobre o investimento], não só escolhemos o ROI que tem a ver com Portugal, mas também todas as informações que se espalham no mundo, temos a exacta percepção daquilo que acontece. Podemos ver também no Facebook quais são os povos que reagem com o Festival. A divulgação do Festival tem sido exponencial e seria uma pena, seria uma pena não continuar neste sentido. Mas eu tenho fé.

Consegue dizer quantos autores, convidados já passaram por este Festival? Não, não sei dizer. Não tive tempo para me sentar e fazer a conta.

E na edição do ano passado, tem uma ideia de quantas pessoas participaram? Umas cinco mil. Entre escolas, Teatro e concerto foram umas cinco mil pessoas.

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