“Fazer filmes não é terapia para carências nem concurso para notoriedade”

Diogo Costa Amarante, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2017, está na Ponta do Sol para participar no 6.º Madeira Micro Internacional Film Festival

06 Dez 2017 / 02:00 H.

Está já a decorrer a sexta edição do Madeira Micro Internacional Film Festival (MMIFF), uma iniciativa que decorre até sexta-feira no Cine Sol (antigo cinema) e no Centro Cultural John dos Passos, na Ponta do Sol. Além da exibição de filmes, o festival tem duas secções - Infantil e Educativa -, sendo que a segunda se realiza amanhã, às 14 horas, direccionada a alunos de Imagem e Multimédia e demais interessados na arte de fazer cinema, que ficará marcada pela projecção da curta-metragem ‘Cidade Pequena’, vencedora do Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2017.

Ora, por estes dias está na Ponta do Sol o premiado realizador Diogo Costa Amarante, que dirigiu ‘Cidade Pequena’, cineasta com o qual o DIÁRIO conversou não só sobre a sua vinda ao MMIFF, mas também sobre a carreira, projectos e cinema.

Diogo Costa Amarante, que expectativas sobre a sua participação na Secção Educativa do Madeira Micro Internacional Film Festival?

Encontrar bastantes alunos motivados e disponíveis para ver curtas-metragens e discuti-las em conjunto.

Além da apresentação da sua ‘curta’ ‘Cidade Pequena’, vencedora do Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2017, em que vai consistir a sua intervenção na Ponta do Sol?

Quando sou convidado a conversar com estudantes posteriormente à apresentação do filme ‘Cidade Pequena’, tendo a focar a conversa em redor do tema ‘filmar o idiossincrático’. Ou seja, tentar ir sempre em direcção àquilo que verdadeiramente nos comove, nos parece belo e fundamental. Só assim cai por terra o primeiro instinto - tantas vezes mera insegurança - da representação literal da realidade dos acontecimentos. Da repetição inconsciente daquilo que se viu antes. Permitir-se ser livre. Encontrar imagens que ressoam por serem familiares, espontâneas e, nesse sentido, automaticamente mais criativas. Se elas forem verdade, não o que se conta, essas imagens ressoarão em quem as vê. Nesse acto de dar com generosidade e de haver quem receba com empatia nasce uma comunicação que se sente profunda.

Tendo começado na advocacia, como é que foi bater ao Cinema?

Eu era um advogado estagiário em Lisboa e trabalhei num escritório localizado perto da Cinemateca portuguesa. Um dia, no caminho de volta ao escritório, deram-me um folheto a promover um workshop de cinema organizado por um novo festival que eu nunca tinha ouvido falar. Fiquei curioso e consultei a Internet para saber mais. Aparentemente, eles estavam dispostos a seleccionar dez pessoas que deveriam produzir uma curta-metragem, mas em apenas 4 dias. Os potenciais participantes deviam enviar uma exposição explicando por que deveriam ser um dos dez seleccionados. Já não tenho ideia do que escrevi ou às tantas não havia muita gente candidata, mas logo recebi um telefonema a dizer que eu era um dos dez finalistas. Era estranho, mas excitante, ao mesmo tempo. Tirei uma semana fora do escritório e parti à aventura. Cheguei ao escritório e rapidamente percebi que todos os outros participantes eram estudantes de cinema, menos eu. A maioria já se conhecia da escola e já estava a combinar para poder participar do projecto uns dos outros. Eu era demasiado tímido para pedir ajuda, então eu saí sozinho e comecei a coleccionar imagens com a mini câmara DV que o festival me tinha emprestado. Eu não tinha ideia de como editar o material e então passei a noite inteira a brincar com o ‘software’ que um amigo meu tinha instalado no meu computador. A maior surpresa chegou depois quando a organização do festival premiou a minha ‘curta’ com uma bolsa para estudar Documentário em Barcelona. Tive duas semanas para tomar uma decisão. A minha família e os meus amigos ficaram chocados. Eu nem me lembro de questionar o que estava a acontecer. Acabei por me demitir do meu trabalho, deixei tudo para trás e mudei-me para Espanha. Uma vez em Espanha terminei um mestrado em Cine Documentário e Cinematografia com dois documentários que viajaram em torno de festivais de cinema e foram premiados como Melhor Documentário Espanhol no Madrid Documentary International Film Festival. Por causa desse prémio, recebi um apoio do ministro da Cultura para trabalhar nos EUA durante um ano. Fui para a cidade de Nova Iorque e colaborei com o departamento de desenvolvimento de argumentos de uma empresa de produção chamada Open City Films. Enquanto trabalhava nessa empresa conheci muitas pessoas da Escola de Artes da Universidade de Nova Iorque e um dia fui recomendado para me inscrever no programa de Mestrado em Belas Artes em Produção de Filmes. Eu fiz e fui aceite no programa com uma bolsa Fulbright. Nessa escola apresentei ‘The White Roses’ como o meu filme de pré-tese, que estreou na 64.ª Berlinale e, finalmente, ‘Small Town’ (‘Cidade Pequena’) como o meu filme de tese que estreou no 67.º Festival de Cinema Internacional de Berlim. Depois de 10 anos a ‘pular’ voltei para Portugal, onde fui financiado para desenvolver um novo projecto de argumento.

Para ser reconhecido em Portugal parece ser fatal ter de sair do País. Sente que é esse o seu caso? Sente que lhe dão mais atenção por ter estudado em Barcelona?

O que é isso de ser reconhecido em Portugal? Sair nos jornais e nas revistas? Não estudei só em Barcelona. Estudei também em Coimbra e Nova Iorque. Não procuro atenção. Fazer filmes não é terapia para carências nem concurso para notoriedade.

O que é que a vitória no Berlinale representou para si e para o seu cinema?

Para mim obviamente uma alegria imensa. Algo que nada nem ninguém me poderá apagar da memória. Para o meu cinema, especificamente para o ‘Cidade Pequena’, representou maior curiosidade por parte de programadores internacionais, não só em conhecê-lo mas em mostrá-lo em variados contextos pelo Mundo fora.

Elege o documentário como o seu género preferencial?

Sempre que me fazem esta pergunta, não resisto a citar algo que o Godard afirmou a propósito de uma discussão sobre a distinção e limites entre o cinema documentário e o cinema de ficção. Concordo em absoluto quando ele diz: “Os grandes filmes de ficção tendem para o documentário, na mesma medida que os melhores documentários tendem para a ficção”.

Que planos para o futuro ao nível de longas-metragens?

Neste momento estou no processo de reescrita de um guião de longa-metragem. Tendo-me distanciado algum tempo da primeira versão, agora é tempo de voltar para afinar e simplificar o que já existe. Pensar as imagens.

Como olha para a actual relação dos jovens com o Cinema?

Suspeito que essa relação é exactamente a mesma que têm em relação a tudo o resto. Algo que concorre com todas as outras coisas que lhes chegam como sendo imperdíveis, a toda a hora e por todas as frentes.

Ao ‘oferecer’ filmes e séries de TV como gelados no Verão, não estará a Internet a tirar alguma da magia da Sétima Arte?

Acho esse pensamento excessivamente pessimista. Na minha opinião, parece-me até que há algo de salutar nessa relocalização da distribuição de conteúdos. Esses filmes e séries a que se refere, tantas vezes exímios do ponto de vista do argumento, dotados de uma estética funcional, ora informativa ora de entretenimento, são na verdade um formato ideal para ser visto na televisão e no computador. Parece-me até que estão na sua zona de conforto. Não consigo imaginar porque é que esse deslocamento para novas plataformas possa beliscar o encantamento com o cinema. Aliás, suspeito que é exactamente o contrário. Tornando-se a decisão de ir à sala de cinema menos vulgar, devolve-se-lhe essa tal magia que antes tinha. A celebração da imagem aumentada passa a ser uma escolha consciente. Uma escolha reflectida do que é que cada um prefere ver no escuro, com a máxima concentração, completamente imerso, e sem quaisquer distracções. Quero acreditar que será o cinema mais sensível e delicado.

É possível viver do Cinema em Portugal?

No meu caso, tive a sorte de até agora ter sido apoiado com bolsas de estudo (Fulbright e Gulbenkian) que me permitiram não só concluir a minha formação académica como, neste percurso entre escolas internacionais (Escola Superior de Cinema e Audiovisuais da Catalunha e Tisch School of the Arts em Nova Iorque), ir fazendo filmes de orçamento muito reduzido que acabaram por viajar e ganhar prémios e que só existiram através de uma colaboração recíproca de colegas, amigos e, neste último filme, até da família. Em resposta directa à sua pergunta: é difícil viver do cinema em Portugal, especialmente quem faz os filmes.

Que referências culturais tem da Madeira?

Estou curioso para aproveitar estes dias para poder responder a esta pergunta com imagens próprias e reais, sem descambar no bolo do caco, no bolo de mel, nas ponchas, nos brinquinhos ou no padre Frederico.

Que opinião tem de iniciativas como o Madeira Micro Internacional Film Festival?

Adoro tudo o que seja descontraído e intimista. Toda a gente comunica em modo de proximidade sem bonecos ou personagens diluídas na pose de grande evento.

Algum conselho para quem está a pensar em seguir a área do cinema, seja realização, interpretação, etc.?

Não seguir conselhos.

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