Falta rever a prevenção

01 Dez 2016 / 02:00 H.

“Ainda há famílias de pessoas infectadas com o VIH a perguntar se devem separar roupas e louças. Se podem dar abraços!” O desabafo de Elisabete Gouveia serve de exemplo da falta de informação que persiste. A assistente social, voluntária na delegação regional da Associação Abraço, não compreende. Garante que a informação está disponível, que só não sabe quem não quer. Mesmo assim, ainda enfrente dúvidas básicas que demonstram muita ignorância até de pessoas com formação.

Situações destas levam a técnica a notar que algo está a falhar. Admite que seja a prevenção, ou talvez a forma como a sociedade encara um drama que foi perdendo força mediática à medida que a ciência foi encontrando formas de tratamento. Também pode ser pelo preconceito, que continua a existir. A vergonha em falar do caso, o medo de ser reconhecido por estar associado a uma doença que não inspira tanta compaixão como o cancro, por exemplo.

“Ainda há muito preconceito e muito desconhecimento”, acrescenta. Admite que por vezes é preciso acompanhar pessoas fora do espaço normal da Abraço. Há atendimentos feitos em locais públicos para evitar a pessoas infectadas o transtorno de serem vistas a entrar na instituição. Essa atitude, explica, mostra o receio da exposição, o medo do julgamento da sociedade que acha que a SIDA apenas chega aos outros. “Isso ainda acontece e as pessoas sentem”, lamenta.

Carolina Dionísio acompanha o raciocínio e lembra que os casos de SIDA ainda são muito associados a comportamentos promíscuos. E a sociedade tolera-os pouco. A psicóloga também colabora com a Abraço, especialmente no projecto dedicado às crianças. E também nota que este tema continua a ser um tabu.

As duas técnicas concordam que é preciso apostar na prevenção, rever conceitos, aprofundar o trabalho junto das famílias. A assistente social explica que além das políticas preventivas e informativas, é preciso contar com a consciencialização das pessoas. Reconhece que nos anos 90 o tema era muito mais mediático, que a doença ainda não tem cura mas já tem tratamento, embora extremamente caro. Defende uma mudança de mentalidades sobretudo para que a sociedade perceba que não há um grupo de risco, como muitos pensam, mas sim comportamentos de risco que podem atingir qualquer cidadão. A ideia de que a doença só chega aos outros, os homossexuais, os toxicodependentes e os que vivem na prostituição “está completamente ultrapassada”. Por isso insiste que “a prevenção deve ser repensada”, que é preciso dar mais importância ao uso do preservativo por causa das doenças sexualmente transmissíveis. “Qualquer pessoa pode ter, num determinado momento da sua vida, comportamentos de risco”, alerta a técnica.

Os afectos constituem outro pilar importante. Elisabete Gouveia nota que pessoas fragilizadas nesse campo estão mais vulneráveis e sublinha a importância de comportamentos responsáveis, das relações sexuais protegidas, do preservativo, mais do que a simples confiança. “Uma noite chega para ser infectado”, adverte a assistente social.

Elisabete Gouveia observa que esta problemática quase só é motivo de preocupação por esta altura, porque hoje é Dia Mundial Contra a Sida. Na Abraço, no Funchal, todos os dias são contra a sida. A unidade acolhe diariamente dezenas de pessoas de várias idades e procura ser um espaço de acompanhamento o mais familiar possível. A instituição tem sede na Rua Bela de São Tiago onde o edifício foi adaptado para ser praticamente um centro de dia com acompanhamento técnico. Há utentes que fazem lá a toma de medicamentos, que tomam o pequeno-almoço e almoço e levam cabazes de alimentos para uma ou duas semanas. Há espaço para os mais novos, nomeadamente uma sala de informática, uma sala para estudos, uma pequena biblioteca e um espaço lúdico. E há salas destinadas ao armazenamento de comida e roupas que recolhidas pela Abraço e entregues ao longo do ano. A ideia, explica Elisabete Gouveia, é que as pessoas se sintam como em casa, que tenham alguns mimos e sejam acompanhadas e valorizadas.

É difícil falar às crianças de uma doença como a SIDA, assume Carolina Dionísio. A psicóloga dá apoio à Abraço, particularmente no projecto Abc – Ser Criança, o único especificamente a trabalhar com crianças infectadas e afectadas.

São cerca de 80 as crianças nessas condições, sendo que as afectadas serão familiares de pessoas infectadas. “São filhos, netos, sobrinhos” que são acolhidos num projecto com intervenções psicossocioeducativas , que prevê acompanhamento a vários níveis. Dos 80, 12 contam com um acompanhamento diário.

Carolina Dionísio reconhece que a doença é um tema tabu para as crianças. Preferem não falar muito disso com os técnicos, embora muitos estejam informados ou procurem informar-se sobre a doença que os atingiu ou chegou a familiares directos com quem vivem. Fruto de alguma investigação que desenvolvem ou do que ouvem, alguns arriscam perguntar se o familiar infectado vai morrer, o que implica uma abordagem mais profunda e cuidada ao tema.

“É um assunto complicado. Têm medo da discriminação, que ainda existe”, acrescenta a técnica.

24

anos é a idade
do utente mais jovem

72

anos é a idade
do utente mais velho


11

elementos compõem
a equipa na Madeira

50

utentes frequentam aquele
espaço diariamente

220

pessoas são apoiadas pela
associação na Madeira

82

crianças e jovens são
acompanhados pela delegação
regional. O número inclui
os infectados e os afectados

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