“Espero que seja o começo de algo grandioso”

Marcos Milewski, artista plástico

29 Dez 2017 / 02:00 H.

Marcos Milewsi é o autor da grandiosa baleia que sai de dentro do Auto-silo, no Campo da Barca, e navega para o imaginário dos madeirenses. O artista plástico levou dois meses a concluir o mural entre o sol e a chuva, esperando que no futuro esta vertente artística seja uma realidade espalhada por toda a ilha que o acolhe há mais de 20 anos.

Não poderíamos iniciar esta conversa sem perceber uma coisa: como chegou à Madeira?

Sou argentino, de origem polaca e francesa. Os meus pais escolheram a Argentina para viver, depois da Guerra. Anos mais tarde, vivi uns tempos na França, onde conheci a minha mulher, que tem raízes madeirenses e, dadas as circunstâncias, foi um pouco natural a minha vinda cá para a Madeira. Já vivo aqui há mais de 20 anos e é um sítio que gosto muito.

O que é que realça da ilha?

Em primeiro lugar as pessoas, acho que sou muito acolhedoras e sinto-me muito bem. Destaco também o clima e a gastronomia, no fundo, a conjunção de muita coisa. A Madeira tem tudo.

E tem potencial artístico?

Penso que sim, sobretudo, porque a Madeira está a viver um bom momento. Passou-se um tempo de austeridade e crise e estávamos todos um pouco em baixo e agora há um sentimento de que o pêndulo vai para o outro lado. A ilha tem potencial, mas são os artistas que têm de fazer o momento e não têm de estar à espera que alguém o faça. Se ficarmos em casa ou no atelier nada acontece.

A Madeira é então uma boa fonte de inspiração?

Sim. A dinâmica de uma grande cidade é diferente das pequenas. Se pensarmos em Nova Iorque, Londres, Paris ou até Lisboa, que são grandes sítios, pensamos que a arte só acontece aí, mas não é verdade. Em sítios pequenos também nascem grandes ideias e agora que vivemos num mundo global a arte já não é tão isolada. O mundo artístico no Funchal é muito diferente do que há 50 anos atrás.

Gostaria de ver este género de pintura espalhado pela ilha?

É evidente que gostava e é uma ideia interessante. Sinto que a arte urbana tomou um papel diferente em relação ao antigamente, cumprindo uma função de humanização da cidade, querendo eu com isto dizer que os sítios que estavam degradados ou considerados perigosos, passam por uma transformação sem requerer muito trabalho. A Rua de Santa Maria é um exemplo disso, que era um sítio onde haviam muitos bêbedos e prostituição, e depois das pinturas nas portas o sítio ficou totalmente outro. A arte pode entrar em interacção com a sociedade de uma forma engraçada e própria da nossa época.

Esta parceria é o exemplo de que os nossos governantes deviam de investir na arte urbana?

Há cada vez mais uma maior receptividade por parte do Governo para este tipo de actividade. É importante para os artistas estarem a estabelecer parcerias com entidades públicas e espero que seja o começo de algo grandioso.

Foi um dos pioneiros das pinturas na Zona Velha. É esse tipo de colaboração que espera ver no futuro?

Foi uma parceria com a câmara e não fui eu pessoalmente que estive na organização, mas estive muito próximo ao projecto, até ao ponto de que o primeiro mural fui eu que pintei. A porta literária número 77. Esta pode ser uma maneira de dinamizar zonas da cidade e o projecto para criar o Matadouro como uma espécie de centro cultural é interessante e espero que acabe por se concretizar.

A baleia despertou a atenção de muita gente. Sente que já chegou a muitas partes do Mundo?

A Internet faz a sua função nesse aspecto. Senti algum feedback positivo nas redes sociais, agora, é muito recente e ainda não houve aquilo que eu chamo de ‘explosão’.

Como surgiu a ideia de pintar esta baleia? Já fiz trabalhos de muralismo para hotéis ou restaurantes e sempre foi um complemento do meu trabalho de pintura. Esta é uma parte da minha actividade que gosto muito e acho importante. Estive sempre pensando em que sítio poderia fazer este tipo de intervenção. Fiz uma proposta à Câmara e, depois de levar o seu tempo para eles reflectirem, criou-se um diálogo e o resultado está agora à vista.

A Madeira já o conhece?

Cruzo-me com pessoas na rua e sinto que já me conhecem. É muito engraçado, porque depois de pintar a baleia há muita gente que fala comigo. Por exemplo, vou a uma loja e falam-me da baleia, não tinha ideia que as pessoas já sabem que sou pintor.

A ideia de estarmos a sair do túnel dá-nos a sensação de mergulhar num oceano. Foi esse o principal objectivo?

Primeiro, gostava de destacar que este espaço tem um enorme potencial. Vim várias vezes analisar o túnel e foi algo que tive em conta, porque as pessoas ao saírem do túnel deparam-se com a parede e com uma janela de onde sai a baleia. Tem tudo a ver com o facto de sermos uma ilha e estarmos rodeados por mar, mas também porque a baleia é um animal que habita nas nossas águas. É uma homenagem às baleias que são os nossos parceiros no Mundo e também por uma preocupação ambiental, porque é um tema muito importante do nosso tempo. Vemos que as baleias eram caçadas e depois criaram-se movimentos que levaram à sua proibição. Há um desejo de protecção e essa é uma batalha que ainda não foi ganha, ainda por cima com os oceanos a ficarem cheios de plástico. É uma guerra que todos nós temos de combater. Esta é a minha espécie de contribuição.

Antigamente, a arte urbana era vista como vandalismo. Essa ideia já se reverteu?

Está-se a reverter no sentido de que é um movimento complexo. A arte urbana está muito ligada a coisas mais marginais e noutros sítios do Mundo é até usada como meio de opinião política.

O futuro passa por isto?

Penso que o muralismo fará parte do futuro artístico da Madeira. O muralismo de opinião vai crescer aqui e essa complexidade é interessante, porque cada artista verá as coisas à sua maneira.

Um madeirense teria capacidade para desenhar esta baleia?

Claro que sim. Porque não? A Madeira tem grandes artistas.

Planeia ficar na Madeira?

Sim, planeio ficar por cá muitos mais anos.