Espantalhos com visão de espanto

20 Mar 2017 / 02:00 H.

Feito para assustar e herdeiro de um artesanato longínquo, o famoso boneco de palha é o elemento central da exposição ‘Visões de Espantalho’, que ‘viajou’ desde o concelho da Calheta até ao Funchal, para dar a conhecer as criações de 15 artistas madeirenses, nesta que é a sua quinta edição. Patente no espaço ‘AponteARTE’, localizado no piso 1 do Madeira Shopping até ao dia 26 de Março, esta mostra consiste na elaboração de espantalhos por particulares e entidades da Região, que interpretam à sua maneira o tema através da sua criatividade e experiência.

Esta iniciativa foi organizada pela Associação Centro de Estudos de Desenvolvimento, Cultura e Educação (CEDECS) juntamente com a Delegação Escolar da Calheta, sendo que criaram um catálogo para o efeito, em que cada página é dedicada a um artista com a sua respectiva biografia e descrição da obra.

Na opinião de Alexandrina Ladeira, uma das responsáveis pela organização da mostra, estes trabalhos “são importantes” na medida em que “valorizam o empenho de todos”. Em relação à logística, Alexandrina confessa dar “um pouco de trabalho convidar os artistas e arranjar o espaço”, porque “todos têm os seus trabalhos e as suas vidas” e os lugares para expor “estão cheios”, realçando, apesar das adversidades, que esta “é uma actividade para continuar”.

Para Filipe António, professor na Escola da APEL, estes trabalhos são “sempre importantes, porque mantêm a pessoa no activo”, sendo na sua opinião “um complemento ao ensino” pois quando se exige ao aluno que trabalhe “ele também gosta de ver o que é que o professor é capaz de fazer, para que sirva como exemplo”, sendo esta uma prova de que “temos uma riqueza muito grande a nível cultural” na Região.

A inspiração da sua obra proveio de um filme dos anos 40, onde achou interessante o ar que o boneco ilustrou nessa mesma película. “O espantalho é algo que vai afugentar, que tem uma missão, mas depois comecei a explorar o entardecer e o campo”, confidenciou o artista, explicando que a sua obra “é quase uma figura saída do holocausto, assustador, com uma tarefa comprida, quase em repouso”. Conforme foi traçando as linhas do trabalho descobriu “outros percursos, outros caminhos, outras visões do que o trabalho podia transmitir, a começar pela cor”.

Dina Pimenta, uma das expositoras e professora na Escola Secundária Francisco Franco, defende a ideia de que “isto serve para dialogar e trabalhar junto dos seus alunos, explorando as suas memórias”. O seu espantalho, de braços abertos e com um toque poético espera um pássaro cansado de um voo longínquo, assente no que considera ser um outro espantalho, o cavalete. Quanto à exposição a professora afirma que “é um ponto de encontro, traz as pessoas aos lugares e é itinerante, sendo uma oportunidade para unir as pessoas e educá-las, independentemente da qualidade estética”.

‘Daninhas Encarnadas’ é o elemento proposto por Paulo BEJu. O trabalho desde professor da Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco diferencia-se de todos os outros porque ausenta a figura central da temática. “Visto que o espantalho é para espantar os pássaros, que é uma certa praga das plantações, quis falar de outra praga que são as daninhas”, começou por sublinhar Paulo BEJu, salientado que existe uma metáfora na sua obra, pois “as daninhas são as coisas indesejadas, mas que estão lá e até fazem o brilho da primavera quando florescem”.

No seu ponto de vista esta é uma troca de conhecimentos enriquecedora em todos os sentidos. “É importante pela diversidade de interpretações e técnicas do mesmo tema. São interessantes os diálogos e é bom porque os alunos olham para nós com um certo fascínio, para depois conseguir estabelecer uma ponte com o que se faz na sala de aula”, não esquecendo que esta partilha “é muito boa, porque também aprendo com eles”.

O objectivo desta exposição passa por levar a temática a outros públicos e proporcionar uma visão artística e erudita sobre o tema ao público.

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