“Educação patrimonial é um trabalho que não tem fim”

José Alberto Ribeiro, presidente do ICOM Portugal

22 Fev 2018 / 02:00 H.

O Presidente da Comissão Nacional Portuguesa do ICOM - International Council of Museums, José Alberto Ribeiro, estará amanhã, pela primeira vez na Região, no âmbito do 9º Encontro de Casas-Museu em Portugal. Em entrevista ao DIÁRIO falou sobre esta iniciativa, mas também sobre o trabalho realizado pelo ICOM, sobre os desafios actuais dos Museus, no país e na Região, e deixa alguns alertas, nomeadamente que ainda “falta o cruzamento com a educação no sentido de tornar os museus com algo fundamental à educação”.

É Presidente da Comissão Nacional Portuguesa do ICOM desde 2014. Nestes quase quatro anos, qual o balanço que pode ser feito do trabalho do ICOM?

O ICOM Portugal tem procurado chamar a atenção junto dos decisores sobre a política museológica nacional quais os problemas dos profissionais de museus e dos museus. Simultaneamente, publicamos digitalmente um boletim com as novidades do mundo dos museus, procurando temáticas específicas. Para além do apoio a actividades de comités internacionais o ICOM Portugal organiza também dois momentos anuais de reflexão: por um lado, temos as Jornadas da Primavera e, por outro lado, o Encontro anual com especialistas de uma determinada área.

O número de visitantes dos museus tem aumentado anualmente. Os nossos museus são notícia um pouco por todo o mundo (vejamos o caso do MNAA, por exemplo). Isto significa que os frutos de décadas de trabalho em termos da valorização deste património e instituições começam a ser colhidos?

O número de visitantes tem aumentado bastante também graças ao crescimento exponencial do turismo nos últimos anos. No entanto, existem museus com quadros técnicos altamente qualificados e isso reflecte-se na oferta dos museus para diferentes tipos de públicos.

Por outro lado, há atentados contra o nosso património e muito desconhecimento sobre o que existe no nosso país. Ainda há muito a fazer no nosso país em termos de literacia museológica e patrimonial?

A educação patrimonial é um trabalho que não tem fim. Falta o cruzamento com a educação no sentido de tornar os museus com algo fundamental à educação desde os primeiros anos de formação escolar até à universidade e, muito importante, que os museus sejam entendidos como locais de cultura, paz e reflexão abertos a todas as comunidades.

Este ano o tema do Dia Internacional dos Museus é no fundo um desafio aos museus a estabelecer conexões com os seus públicos. Este é um desafio cada vez mais importante, tendo em conta a crescente oferta existente no mundo virtual e real?

Este tema é precisamente o assunto em debate nas nossas Jornadas da Primavera, a 5 de Março. Pretendemos desta forma contribuir para aprofundar a reflexão sobre esta realidade e proporcionar um debate alargado entre os profissionais dos museus portugueses, sobre como poderão os museus estimular e desenvolver novas, mais complexas e diversificadas conexões, numa perspectiva de pluralidade de ligações às comunidades locais e globais, no quadro das suas paisagens culturais e ambientes naturais. Graças não só à tecnologia mas também na aposta de um maior incremento e proactividade no seu relacionamento humano, os museus podem alcançar muito mais que as suas audiências habituais e encontrar novos públicos

Hoje torna-se imprescindível aos museus terem presença forte na Internet e redes sociais?

Sim, num mundo onde as redes sociais são uma fonte de informação fundamental torna-se necessário utilizar estes suportes para divulgar os museus e as suas actividades.

Apesar desta evolução, continua a ser verdade o velho dito “de pequenino é que se torce o pepino”, ou seja, a divulgação do nosso património deve necessariamente começar pelos mais novos?

Sem sombra de dúvida, mas não só aos mais pequenos, a todos os níveis de escolaridade.

Conhece a realidade dos museus da Região?

Conheço de nome alguns museus e sei que desenvolvem trabalhos muito interessantes.

Para uma região insular e ultraperiférica como a Madeira, as políticas de apoio e promoção dos museus devem ser diferentes daquelas que existem ao nível de Portugal continental?

Em primeiro lugar é preciso haver uma política para os museus, uma estratégia, com apoios à promoção de actividades e projectos que produzam saber em torno das colecções e permitam a divulgação das mesmas.

O facto de seremos uma região turística, deve servir como ajuda importante à divulgação dos museus e património material e imaterial da Madeira?

Certamente que o turismo deverá ser tido em conta na divulgação dos museus enquanto oferta cultural de qualidade.

Acha importante por exemplo que, ao nível governamental, a Cultura e o Turismo sejam geridos pela mesma tutela?

Não vejo nenhum problema na dupla tutela. Volto a frisar a tónica que o mais importante é que exista uma estratégia clara para os museus.

Estará na Madeira para o Encontro Nacional de Casas-Museu. Quais os desafios específicos nesta área?

As casas-museu cada vez mais despertam mais atenção a nível internacional por serem museus que estimulam uma forte carga emocional ao nível das vivências, no que resulta numa experiência única para os visitantes. Neste sentido, as casas-museu da Madeira são exemplos desta tipologia que se pretendem mais divulgados.

Na Madeira existem várias casas-museu. Conhece-as?

Infelizmente não, só de nome, esta é a minha primeira visita à Madeira.

Quais as suas expectativas para este encontro?

Altas! Vamos ter um painel de nomes com grande destaque nesta área a nível nacional e internacional e teremos a oportunidade de debater casos e ver bons exemplos de casas-museu.

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