“É preciso deixar a sociedade respirar”

Analista político, veio à Madeira dar uma conferência no âmbito do GERES criado pelo PSD-M

06 Dez 2016 / 02:00 H.

Bernardo Pires de Lima apresenta-se como alguém que está fora das questões político-partidárias. Foi convidado pelo amigo Paulo Neves, deputado social-democrata na Assembleia da República, para proferir uma palestra, ontem, na terceira iniciativa do género do Gabinete de Estudos e Relações Externas (GERE) do PSD-Madeira, cujo director é Sérgio Marques.

Veio falar sobre a “Madeira: Portugal e o Oceano Atlântico”, ele que tem tido uma intervenção bastante activa nos EUA, onde integra algumas plataformas de pensamento e debate sobre várias áreas do saber (‘think tank’). Um analista da política, sobretudo internacional, mas que não deixa de olhar para Portugal e as suas regiões. Um pensador que defende a estratégia, sobretudo a longo prazo, como crucial para o futuro do país.

Bernardo Pires de Lima também confessou que vai fazer por voltar à Madeira todos os anos, ele que há 22 anos não pisava solo madeirense.

Como analisa a relação entre a Madeira e Portugal, uma vez que na conferência referiu que esta deve ser melhorada? Não sou um especialista nem acompanho o relacionamento das autonomias com o Governo Central. Reconheço que há avanços e recuos permanentemente e parece-me que há aqui interesses estratégicos para o país que podem passar pela Madeira e também pelos Açores. Muitos deles não estão nos debates, porque esses estão muito marcados pelos antecedentes históricos, seja o turismo aqui na Madeira ou a dimensão limitar, associada às Lajes, para os Açores. Mas há outras questões que devem ser potenciadas, é preciso pensar um bocadinho à frente do tempo do presente. Nesse sentido, penso eu que é do interesse de Lisboa potenciar as capacidades das suas regiões autónomas. Para isso é preciso um diálogo institucional, mas também é preciso iniciativa privada que consiga fazer o seu trabalho, sem recorrer aos poderes políticos e públicos.

E isso é possível? Acredito muito na iniciativa privada, seja ao nível das universidades, seja das comunidades empresariais, seja da cultura, que respiram por elas próprias. Os canais entre nações e sociedades respiram por elas próprias, não precisam de recorrer permanentemente ao poder político , ao poder central e ao poder regional. Acho que essa dimensão privada dos Estados é preciso ser alimentado, também que os governos regionais ou nacionais deixem respirar e não criem grandes obstáculos. Há um certo esmagamento, com nuances é certo, pois temos sabido conviver bem comisso, de uma presença excessiva dos governos na actividade económico. Não sou por reduzir a mínimos, mas há que deixar respirar e criar condições no ramo da fiscalidade. A fiscalidade é um dos atractivos da Madeira, portanto não deve ser esmagado por Lisboa,. O turismo deve ser competitivo a uma escala atlântica e não deve ser motivo de competitividade por parte de Lisboa. O que é valor acrescentado para a Madeira, é-o também para a unidade do Estado português. Mas isto é uma visão de fora, não faço parte do jogo partidário, portanto não alimento questões que, muitas vezes passam pelo pessoal e toldam raciocínios que parecem muito lógicos, mas na práxis política não é bem assim.

Abordou também a necessidade de a Madeira estar mais presente nos centros de decisão? Dou-lhe um exemplo: em Washington a indústria que faz as ideias políticas e influencia as decisões, a dos ‘think tanks’, gera milhões de dólares. Cada instituto desses tem 50/60/70 milhões por ano para pensar, para influenciar, para produzir conhecimento. A presença alemã em Washington é brutal, a presença dos outros Estados-Membros da UE é residual. Portanto, os interesses alemães do ponto de vista estratégico e do seu posicionamento no mundo, estão mais ou menos garantidos na capital dos EUA. Isso é fundamental. É o mesmo que se passa em Lisboa ou em Bruxelas. Se Portugal quer influenciar a um nível para que não tenha de esperar pelas cimeiras do Conselho Europeu ou outras ministeriais, tem de fazer trabalho permanentemente e diário em Bruxelas. A Madeira, provavelmente, terá de fazer o mesmo em Lisboa para vingar com os méritos da sua governação, do seu potencial e desbloquear um pouco um certo desfasamento e até desconhecimento sobre o que está a acontecer nas ilhas em Lisboa. A bolha lisboeta, como a de qualquer capital, tolda o pensamento e tolda depois as reacções a uma maior actividade no Funchal ou em Ponta Delgada, quando se quer fazer qualquer coisa. Portanto, é preciso desbloquear esse eventual dilema de desconfiança e até de atrito que possa existir. Actualmente, penso que é uma relação institucional boa, mas é preciso fazer mais lá, nomeadamente nos mídia nacionais.

É preciso, como referiu, pensar fora da caixa e, porque não, criar uma Universidade Transatlântica com sede na Madeira? Não sei se isso é possível. Foi uma ideia. Como analista, estou muito ligado aos ‘think tanks’ em Portugal ou lá fora, e o papel destas entidades é, muitas vezes fazer propostas e pensar com algum enquadramento e lógica questões que não estão na agenda e parecem absurdas. Há muitas questões que, trabalhadas por investigadores, pareciam absurdas, mas mais tarde vieram a fazer o seu caminho. Vivo muito bem com esse raciocínio de que todas as minhas ideias não têm de ser exequíveis no curto prazo. É preciso pensar nelas, é preciso que a sociedade, independentemente dos partidos e de governos, faça um trabalho de criatividade intelectual. É assim que as sociedades se movem, é preciso é dar espaço para as pessoas explanarem as suas ideias, seja nas start ups que agora é muito apelativo, seja no pensamento estratégico, há muitas ideias que precisam fazer o seu caminho. Podem esbarrar contra a parede, mas precisam e podem pôr as pessoas a pensar.

Sala bem composta

Ainda que não estivesse totalmente completa, a sala de conferências do Hotel do Castanheiro, onde o PSD-M escolheu para acolher esta palestra estava bem composta com algumas figuras do partido e do governo, mas também algum público que compareceu à sessão aberta.

O presidente do partido e do governo, Miguel Albuquerque, fez questão de estar presente, por ter “uma grande admiração” pelo orador convidado, porque “é das poucas pessoas em Portugal que tem um pensamento estratégico”, aconselhando “toda a gente a ler” o livro precisamente sobre o tema da conferência, “Portugal e o Atlântico”.