Droga na cadeia da Cancela é quatro vezes mais cara

Grupo de 10 pessoas que alegadamente introduzia droga na cadeia começou a ser julgado

21 Abr 2017 / 02:00 H.

Nenhum dos dez arguidos que são acusados de envolvimento num esquema para introduzir droga na cadeia da Cancela entre Setembro de 2015 e Julho de 2016 quis prestar declarações ao tribunal, ontem, no arranque do seu julgamento.

A primeira sessão, que se prolongou por toda a tarde, serviu apenas para ouvir o inspector Lopes, da Polícia Judiciária, que relatou quão proveitoso pode ser o negócio da droga na Madeira e particularmente na cadeia da Cancela. Neste caso em concreto, as encomendas eram feitas a partir das próprias celas dos reclusos, já que dois deles tinham telemóveis que lhes permitiam contactar com familiares que estavam no exterior.

A droga que é adquirida “em Lisboa por 100 euros, na Madeira custa 300 euros e num estabelecimento prisional custa 400 euros”. “Como o produto é escasso [o seu valor] aumenta”, descreveu o especialista que redigiu o relatório da PJ sobre a alegada rede. O risco parece compensar, pois há jovens madeirenses que decidem “desgraçar a sua vida porque a droga que eles compram por 1.000 euros é vendida aqui por 3.000 euros”. O inspector Lopes explicou que um dos três reclusos que receberam droga vinda do exterior chegou mesmo a equacionar a integração de um guarda prisional na ‘operação comercial’ mas chegou à conclusão que a margem de lucro que perdia era demasiado elevada e desistiu da ideia.

O mesmo profissional da Polícia fez uma análise detalhada do papel de cada arguido no suposto esquema de introdução de droga na cadeia. Um ‘puzzle’ que a PJ conseguiu reconstituir graças às escutas telefónicas, ao registo das transferências de dinheiro que eram feitas para pagar o ‘produto’, às apreensões de droga e de telemóveis e a pontuais operações de vigilância. Tal trabalho permitiu à PJ concluir que a ideia deste ‘negócio’ partiu de Luís Lopes, um recluso açoriano de 47 anos, que teve a colaboração da sua companheira, Ana Perneta, que transportava a substância estupefaciente escondida na vagina, para iludir as revistas antes das visitas. A droga seria vendida a Ana por Tânia Ornelas, uma sua vizinha na zona das Courelas. Esta última arguida também terá transportado droga escondida para a Cancela, onde o filho Hugo está detido.

A partir de certa altura e devido a uma zanga violenta com Luís Lopes, o recluso José Ferreira terá iniciado a sua própria linha de introdução de droga na cadeia, contando para tal com a colaboração da esposa, Andreia.

Por estar em causa um crime de tráfico de estupefacientes agravado, a pena pode chegar a 15 anos de prisão.

O julgamento, que é presidido pela juíza Carla Meneses, prossegue a 4 de Maio, às 14h00.

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