Do tempo em que contava os dias para o fim das férias

Para a minha mãe os corpos são o que são, não se trabalham, nem melhoram e as pessoas ou nascem bonitas ou vivem feias toda a vida

13 Ago 2017 / 02:00 H.

Eu agora ando a contar os dias para o fim das férias. É que não se faz nada. A minha mãe diz que ainda vou ter saudades e que há muito para fazer, que posso começar já a arrumar os armários, a cozinha e tudo o que está por fazer em casa. O meu “não se faz nada” não é esse, ando a ver se a convenço de que preciso mesmo de umas aulas de aeróbica, mas não há forma. A minha mãe não entendeu à primeira, quando percebeu disse-me que tenho ginástica na escola e que por isso não se paga.

Acho que nunca viu a Olívia Newton-John a cantar o ‘Physical’, nem sabe quem é a Jane Fonda, não a conhece nem dos filmes, não gosta de ver filmes com legendas, é que só vê televisão quando borda. Entre enfiar a linha na agulha e deitar o olho à televisão, depois não apanha o que dizem os actores. Se soubesse, se lesse as revistas e os jornais que a minha tia Conceição traz do hotel percebia como é que aquelas mulheres encaixam dentro dos fatos de banho cavados: é da aeróbica.

A ideia das aulas não foi minha, foi da Simone, somos amigas desde o 7º ano e ela sabe sempre tudo o que é moda, bonito, o que é preciso ter, o que é obrigatório ter como aquele bronzeador que parece cera de dar no chão e só se vende em Canárias. Pela Simone fiquei a saber de assuntos importantes como a necessidade de ter uns sapatos de pano chineses ou como o George Michael é o homem mais bonito, de todos os que existem entre o céu e a terra.

A Simone, se quisesse, seria a rapariga mais popular da escola, é alta e magra, mas acho que é tímida ou talvez não queira ser popular. Somos amigas, isso é que conta, não foi simples encontrar amigos nos Ilhéus e eu oiço com atenção todas as opiniões da miúda morena com quem partilho os trabalhos de grupo e com quem vou ao cinema nas vezes que faltamos às aulas da tarde. Foi ela que me disse que me ficava mesmo bem a moda de usar um brinco só numa orelha e o cabelo penteado ao lado a tapar quase metade da cara, o que não é prático, mas causou algum impacto.

A minha mãe não gostou, disse-me que ainda acabava com os olhos tortos e também não via a lógica de andar só com um brinco, assim como se tivesse perdido o outro, mas é mais uma daquelas histórias em que não nos entendemos. Tal e qual como esta de ter aulas de aeróbica apenas para encaixar dentro de um fato de banho. Para a minha mãe os corpos são o que são, não se trabalham, nem melhoram e as pessoas ou nascem bonitas ou vivem feias toda a vida. Da Simone, repete-me muitas, devo copiar as boas notas a Matemática, que a pequena há-de ir longe com aquela cabeça.

Quando diz isso percebo que não tem grande apreço pela minha cabeça, diz que vivo no mundo da lua, que criou dois filhos estranhos, que não dão para Matemática, nem servem para Línguas e não sabe onde vamos arranjar trabalho com estas manias de usar um brinco só e querer aulas de coisas que ela não sabe o que são, mas que não têm serventia. E é por isso que conto os dias para o fim das férias e leio às escondidas e faço que não oiço a minha mãe a dizer-me pela quinta ou sexta vez que tenho de ir lavar a loiça.

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