Diocese afasta

O padre sai da paróquia do Monte, mas pode continuar a exercer o ministério noutras actividades, delibera o Bispo do Funchal

Monte /
29 Jan 2018 / 02:00 H.

“Após diálogos com o próprio sacerdote, ouvidas algumas instâncias da Igreja e percepcionando um sentido eclesial comum, por parte de sacerdotes, consagrados e leigos, entendeu-se que constitui maior bem para o padre Giselo Andrade e para a Igreja diocesana, dispensá-lo de pároco do Monte, podendo continuar a exercer o ministério pastoral, através de algumas actividades que lhe estavam já confiadas, na área das comunicações, e outras que eventualmente lhe sejam atribuídas.” Este é o parágrafo da nota da Diocese do Funchal, emitida ontem, ao princípio da noite, avançada pelo DIÁRIO na edição digital, e que esclarece o futuro do pároco do Monte. Algo que era aguardado pela comunidade paroquial, do Monte, mas nem só. Mesmo entre os sacerdotes, havia quem entendesse que já era tempo de definir a situação.

Em causa estão os factos do até agora pároco do Monte ter sido pai a 18 de Agosto de 2017, ter assumido essa paternidade e ter manifestado o desejo de se manter ao serviço da igreja católica madeirense, como sacerdote.

Na nota, a Diocese lembra que o caso do padre Giselo “foi amplamente difundido, na Madeira e fora dela” e afirma que, o gesto e o compromisso de assumir a paternidade revelaram “um sentido de responsabilidade que muita gente apreciou, sem que, no entanto, perante o facto, se deixassem de reconhecer, também, os seus aspectos negativos. Na verdade, os sacerdotes católicos aceitam e comprometem-se, em plena liberdade, a viver o dom do celibato no seu ministério de serviço ao Povo de Deus, em conformidade mais plena a Cristo Pastor, com frutos abundantes para a Igreja, ainda que com o sacrifício de algumas expressões e alegrias da vida familiar”.

A instituição liderada por D. António Carrilho admite que “toda esta situação gerou nos órgãos da comunicação social e nas redes sociais uma oportunidade de debate e reflexão, mas também uma ocasião ou motivo para questionar e contestar a actual disciplina da Igreja, desconhecendo-se o sentido espiritual da mesma. A Igreja não é estática, é dinâmica; tem uma história que lhe permite reconhecer e avaliar os seus valores e as suas faltas, o positivo e o negativo da sua presença junto das pessoas e da sociedade. As mudanças, porém, não se operam por razões de mera popularidade ou estatística de opiniões.”

Com a saída do padre Giselo, a paróquia do Monte passa a ser assegurada pelo Cónego Vítor Gomes, que vai acumular tais funções com as idênticas que já tem na Sé do Funchal. “Apesar das limitações inerentes a esta situação provisória, tudo se fará para levar por diante os projectos em curso, nomeadamente a tão desejada construção da capela da Imaculada Conceição, nas Babosas, como sinal de consolação e esperança.”

“Nas condições exigidas pela Igreja”

A nota da Diocese, no essencial, resume aquela que foi a posição da instituição e do bispo do Funchal sobre o caso: perdão, mas continuidade só segundo as regras da instituição. “Relativamente ao pároco do Monte, ele próprio manifestou o desejo de continuar a exercer o ministério sacerdotal, nas condições exigidas pela Igreja. Desde logo se sentiu a necessidade de um discernimento claro, em ordem a uma opção responsavelmente assumida e maturada na reflexão e na oração, um discernimento feito com serenidade e livre de pressões, acompanhado pelo Bispo da Diocese.”

O caso do padre Giselo veio a público no início de Novembro do ano passado, mas havia algum tempo que era comentado, em especial na comunidade paroquial do Monte, onde era pároco.

Num primeiro momento, no final de Outubro, Giselo Andrade negou a paternidade ao DIÁRIO, mas, na mesma altura, a Diocese assumiu uma posição mais cautelosa. “A Diocese está em contacto com ele, a averiguar ou confirmar as alegadas acusações e eventuais consequências”, disse a instituição, através do Gabinete de Informação.

Uns dias depois, quando o DIÁRIO noticiou o caso, os representantes da igreja diocesana precisaram: “A Diocese do Funchal perante certo tipo de notícias, que têm circulado acerca do pároco do Monte, tem procurado acompanhar a situação, no respeito pela delicadeza do caso, da dignidade das pessoas e das consequências que as mesmas têm na própria paróquia e nas restantes comunidades cristãs.”

Nessa altura, no início de Novembro, questionada sobre a continuidade em funções do pároco do Monte, a Diocese esclareceu: “Caberá ao próprio sacerdote, discernir em diálogo com o Bispo se pretende continuar a exercer o ministério sacerdotal segundo as exigências e normas da Igreja, ou, se pretende abraçar outra vocação. O sacerdote deseja continuar no exercício do seu ministério sacerdotal e sente que tem todo o apoio da comunidade paroquial do Monte, mas não deixa de ponderar colocar o seu lugar à disposição da Diocese para que se procure o que for melhor para a Igreja.”

A Diocese dizia também que, “em qualquer caso, ainda que continuando a exercer o ministério sacerdotal, o sacerdote deverá assumir todas as suas responsabilidades inerentes à situação”.

Igualmente no dia em que o DIÁRIO noticiou a paternidade do padre Giselo, no início de Novembro, questionado sobre a continuação em funções do pároco do Monte, D. António Carrilho respondeu. Tudo se perdoa, desde que haja verdadeiro arrependimento e mudança de vida, mas a igreja não aceita, evidentemente, uma vida dupla”.

Como na altura o DIÁRIO recordou, o Papa já defendeu que os padres pais devem “abandonar o ministério”. Numa entrevista, dada por Francisco, enquanto bispo na Argentina, Jorge Bergoglio, falou da questão do celibato dos padres. O papa vincava tratar-se de “uma questão de disciplina, não de fé” e, mais à frente reconheceu: “Há padres que caem nestas situações”.

Questionado directamente sobre qual era a sua posição, nessas circunstâncias, Bergoglio respondeu: “Se um deles me aparecer a dizer que engravidou uma mulher, ouço-o, procuro transmitir-lhe a paz e aos poucos faço-o perceber que o direito natural é anterior ao seu direito como padre. Portanto, tem de abandonar o ministério e tomar conta daquele filho, mesmo que decida não casar com a mulher”.