“Diferença entre ricos e pobres é uma pouca-vergonha”

“Quando não há dinheiro, os profissionais liberais perdem todos”

20 Mai 2017 / 02:00 H.

José Prada recebe, hoje, em Braga, a medalha de 50 anos de inscrição na Ordem dos Advogados. Natural de Trás-os-Montes, veio para a Madeira em 1964. Aos 80 anos continua a ser advogado no activo e divide o gabinete com o filho, que tem o mesmo nome, também é advogado e deputado na Assembleia Legislativa da Madeira.

Nasceu em Trás-os-Montes e estudou em Coimbra. Como é que se dá a vinda para a Madeira?

Na minha família, ao contrário de agora, não havia gente licenciada em Direito, nem licenciado em nada. A minha mãe era doméstica e o meu pai um pequeno comerciante, daqueles comerciantes de aldeia que vendiam tudo e nada. A minha terra, Argozelo, fica distante de Bragança 32 quilómetros e nesse tempo era uma hora e meia de carro. O Liceu ficava em Bragança e o meu pai não tinha dinheiro para isso e fez comigo o que faziam muitos pais, aproveitou o Seminário.

Na Madeira também era assim.

Exactamente. Do meu tempo, eram muitos os advogados que tinham andado no Seminário. Quando acabei Direito, em Coimbra decidi fazer uma experiência longe. Vi que havia vagas na Madeira e nos Açores e escolhi a Madeira. Na altura, para ajudar a pagar as despesas, havia um estratagema que era procurar um sítio com uma conservatória vaga e ocupávamos o lugar de conservador interino. Santana estava vaga, concorri e fiquei. Engraçado é que pensei que aquilo era perto do Funchal. Estive em Santana ano e meio, casei e depois fui para Santa Cruz. Quatro anos depois vim para o Funchal.

Como era exercer a advocacia antes do 25 de Abril?

Era muito diferente? Completamente diferente. O Direito era muito mais simples. Na altura. o cliente ouvia falar no advogado, procurava-o, tinham uma conversa e a partir daí seguiam. Se a coisa corresse bem, ficavam amigos. Depois, as coisas foram-se alterando, apareceram os escritórios, sobretudo em Lisboa e Porto. Hoje, há escritórios com mais de 200 advogados.

Mudou completamente o cenário?

Esses escritórios vivem, essencialmente, à custa dos governos que recorrem muito a eles. Encomendam-lhes a feitura das leis.

Isso fez bem ou mal à advocacia?

Não sei, apenas sei que as coisas evoluíram. Na Madeira, por exemplo, quando cheguei, deveria haver uns 14 ou 15 advogados e hoje são para aí mais de 300. Hoje, não conseguimos conhecer metade dos advogados com que nos cruzamos.

Isso não descaracterizou a profissão?

Não é só advogado. Naquela altura, o licenciado era uma coisa do outro mundo, mas hoje é vulgar.

Também aumentou o recurso à Justiça?

Recorrer à justiça depende muito da valorização da propriedade e do estado da economia. Se a propriedade dá dinheiro, as pessoas, por tudo e por nada, vão para o tribunal. Houve alturas em que os vizinhos iram para o tribunal por causa de uma parede. Hoje, passam-se anos que não vão às propriedades. Antigamente, um indivíduo arrendava uma casa para toda a vida e quando não pagava tratavam logo do despejo porque tinham outro que pagava mais. Hoje, a Rua dos Tanoeiros tem umas 10 a 12 lojas vazias. As pessoas vão para tribunal fazer o quê? Como a economia está fraca, não se recorre à advocacia.

A advocacia sentiu muito a crise?

Sim, sem dúvida. Há muita gente que nem só como vive. O que vale é que muitos advogados também são funcionários. Porque, hoje, viver da advocacia, no pequeno escritório, é um risco muito grande. Há poucos casos. Quando não há dinheiro, os profissionais liberais perdem todos. Perdem os advogados, os arquitectos, os engenheiros e até os médicos.

Teve actividade política. Porque é que optou pelo CDS?

Na altura, com o PSD, nem pensar. Nunca me dei com aquela gente. Houve uma altura, quando houve a mudança de presidente do governo, quando saiu o engenheiro Ornelas Camacho, houve uma divisão e Alberto João Jardim arrumou quatro ou cinco e ainda ficou pior. Por isso, pensei em ver no que dava o CDS. Eu não era católico praticante, nem sou, mas pareceu-me um partido moderado.

Só por isso?

Fui para lá por uma coisa que, hoje, o CDS não é. Na altura era um partido, tal como o PCP, anti-europeu. Como era, e sou, anti-europeísta fui para o CDS. Entretanto, o CDS foi evoluindo e transformou-se num grande defensor da União Europeia e hoje é partido europeísta.

Também disse recentemente que estava mais perto dos ideais socialistas, porquê?

Quando comecei a trabalhar, em 1964, não havia grandes diferenças entre ricos e meio-ricos e pobres. O rico tinha um prédio a mais, o muito rico tinha duas ou três casas. Hoje, entre o muito rico e o rico há uma diferença abismal e entre o muito rico e o pobre, é uma pouca-vergonha. Isso repugna-me e a doutrina que pode corrigir essas diferenças é o socialismo.

A política é compatível com o exercício da advocacia?

Perfeitamente. Um indivíduo pode exercer a advocacia e pode estar na política que não tem nada uma coisa com a outra. Não é por aí que há influências. Onde há, sim, é entre os grandes escritórios e os governos.

Vai receber a medalha dos 50 anos de inscrição na Ordem. Como é que se chega a cinco décadas de carreira ainda a trabalhar?

Felizmente, não sei o que é ter uma doença. Continuo a trabalhar e enquanto estiver capaz e puder fazer alguma coisa, com o meu filho, vou continuar.

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