“Deve dar exemplo e pedir renúncia como padre”

Padre António Simões junta-se aos que pedem a renúncia do padre Giselo Andrade

09 Nov 2017 / 02:00 H.

A situação do padre Giselo Andrade, que assumiu junto do Bispo do Funchal, a paternidade de uma menina, está a mexer com o dia-a-dia da Diocese do Funchal. As opiniões dividem-se, havendo quem elogie o pároco do Monte pelo exemplo ao assumir um facto consumado, embora vá contra as obrigações e compromissos assumidos quando foi ordenado, e há quem entenda que não há condições para continuar a exercer.

Do lado dos que não concordam com manutenção da actual situação do padre Giselo Andrade está o experiente padre António Simões, que fez quase toda a carreira de sacerdote como capelão militar no Exército Português (vide destaque.

No entender do Pe. Simões, que tem acompanhado as notícias que desde há uma semana trouxeram para a praça pública este caso, não há condições para a continuidade no exercício da função para o qual Giselo Andrade foi ordenado e na Paróquia de Nossa Senhora do Monte.

“Realmente, temos de ter uma atitude de compreensão “, começou por referir ao DIÁRIO. “Acho que devemos ser coerentes com as nossas ideias e com o nosso comportamento. Se nós padres, pregamos às pessoas que devem ser honestas, fiéis ao seu matrimónio, que devem dar o exemplo, o padre, seja ele qual for, deve ser o primeiro a dar esse exemplo”, justifica.

Para, a seguir, apontar: “Se esse padre teve esse procedimento, deve efectivamente pedir ao senhor Bispo (D. António Carrilho) que não pode continuar nesta situação, que é um mau exemplo que dá à comunidade”.

E, sem se deter, acreditando firmemente nesta posição, repete que “o padre tem de ser o primeiro a dar o exemplo”, para acrescentar: “Ele e não deve continuar a exercer, porque senão é um mau exemplo e, depois, as pessoas desconfiam do padre, porque se ele fez assim as pessoas pensam que os outros padres também fizeram o mesmo. E nós padres não temos culpa. Se ele teve um procedimento pessoal, ele deve ser responsável e assuma (a paternidade da criança), mas que não comprometa os outros sacerdotes.”

Refira-se que a posição da Diocese do Funchal passou, em primeira reacção, por manter o padre Giselo Andrade na Paróquia do Monte. Contudo, estas vozes dentro da Igreja Católica na Madeira a pedir a sua renúncia, podem pressionar o Bispo do Funchal a tomar outra medida.

A este propósito, em Maio deste ano, a Conferência Episcopal Irlandesa (CEI) foi das primeiras a emitir orientações sobre este tipo de casos (conforme noticiou, em Agosto último o jornal Público). Determinou, num documento, “que todos os padres que tenham violado o voto de celibato e se tenham consequentemente tornado pais são obrigados a ‘pôr os interesses da criança em primeiro lugar’”.

Pela paz de espírito em tempo de guerra

Coronel Capelão militar do Exército Português, António Francisco Gonçalves Simões, actualmente com 78 anos de idade e 53 como padre, é uma das vozes mais experientes da Igreja Católica na Madeira. Por ter lidado durante 35 anos com a vida militar, decidiu escrever um livro a que deu o título ‘O Capelão Militar - Subsídio para a história da igreja em Portugal’, em Outubro.

Nele, conta muito do que tem sido o papel dos capelães militares nos 50 anos do primeiro curso do género na Academia Militar de Lisboa, entre 21 de Agosto e 17 de Setembro de 1967. “Éramos 58 padres e eu era o único madeirense”, conta, num livro que levou cinco meses e foi publicado para coincidir a 23 de Outubro, dia do patrono dos capelães, São João de Capristano. De então para cá, o curso foi tendo menor procura por não serem precisos no pós-guerra. O último curso que terminou há pouco tempo apenas era composto por dois padres. Actualmente são 27 capelães em actividade, mais 10 que colaboram com as Forças Armadas sem vencimento.

Na altura em que saiu do curso, o camaralobense António Simões foi incorporado no Batalhão de Cavalaria 2830, que seguiu para a Guerra do Ultramar, em Angola. Viveu intensamente, como se de um militar se tratasse, inclusive empunhando arma para fazer de conta e não ser detectado. “Há uma grande diferença entre o capelão em tempo de paz e em tempo de guerra”, salienta. “Eu que cheguei a acompanhar os militares no terreno para lhes transmitir que estava com eles, mesmo que estivessem em combate, para lhes dar força. Acontece que caímos numa emboscada e eu no meio, debaixo de fogo. Resultado foram sete feridos ao meu lado e eu fiquei ileso. Deus protegeu-me”, exclama, numa de muitas histórias que, mesmo passados mais de 40 anos não esquece.

Se em tempo de guerra é preciso acalentar jovens em risco de vida pela Pátria, em tempo de paz António Simões lembra que durante seis meses foi a única voz da igreja que viu e os militares consigo puderam sentir o entusiasmo, a coragem e a força para arriscar a vida, inclusive a perdoar e não se vingar do inimigo. Do Jardim do Mar a Angola, de Elvas a Moçambique, de Tavira a Faro, na Madeira, Faro, Lisboa e , por fim, no Funchal, uma longa história de dedicação a reter.

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