“A Indonésia saiu mas, culturalmente, está a impor-se”

10 Mar 2017 / 02:00 H.

    Persiste uma forte presença da Indonésia em Timor-Leste. Quase 15 anos depois da auto-determinação (consagrada em Maio de 2002), a relação de Díli com Jacarta ainda é forte. Culturalmente, a Indonésia volta a impor-se, conforme admite, ao DIÁRIO, o antigo bispo de Díli.

    D. Ximenes Belo regressou ontem ao Funchal para uma homenagem da Escola Salesiana e do clube ‘Nau Sem Rumo’. Foi a terceira visita à Madeira desde o ano 2000. A viagem foi curta e as declarações mais curtas ainda. O bispo emérito da Diocese de Díli mostrou-se disponível para responder apenas a “uma ou duas perguntas” e de forma quase telegráfica. Mesmo assim, revela que a cultura portuguesa perde terreno num país agora livre mas distante. E mesmo o ensino da língua de Camões, apontado como uma das prioridades do novo país, tem revelado fragilidades. Lisboa fica longe, Jacarta aproveita, como admite Ximenes Belo.

    O bispo resignatário de Díli vive agora no Porto mas mantém uma atenção diária às questões timorenses. Tem investigado e tem publicado sobre uma realidade que bem conhece, particularmente os tempos negros da ocupação indonésia. Saíram já oito livros, dos quais o bispo destaca sobretudo quatro: um sobre os antigos reinos de Timor-Leste, outros dois sobre a história da Igreja e da evangelização de Timor-Leste, e um outro sobre a cidade de Díli.

    Carlos Ximenes Belo nasceu em Baucau, Timor-Leste, em 1948, tem 69 anos. Resignou à Diocese de Díli no final de 2002 por razões de saúde. Actualmente vive em Portugal, onde está ligado à congregação dos Salesianos como capelão na capela das Almas, no Porto.

    Qual é a situação actual de Timor-Leste? Como sabe, estamos no período das eleições. No dia 20 será a eleição presidencial e é este o ambiente. São oito candidatos, as pessoas estão envolvidas em escolher um bom presidente para os próximos cinco anos e, portanto, só espero que haja um clima de paz e muita compreensão para que as coisas corram bem.

    E há estabilidade, hoje, em Timor? É uma democracia estável? Há, há sim senhor!

    O ensino do Português sempre foi uma das questões que se colocavam depois da independência de Timor-Leste. Como é hoje o ensino do Português e a relação com a língua Bem... está a ser um bocado difícil. Há um sector da juventude que prefere o Inglês. Além disso temos a Indonésia com programas de televisão. As famílias têm parabólica 24 horas sobre 24 horas e estão a ver programas da Indonésia. As crianças que não andam na escola, sem querer, estão a aprender a língua da Indonésia. Portanto... aí Portugal, a RTP Internacional, a Rádio Televisão Portuguesa, deviam insistir mais porque a Indonésia saiu mas, culturalmente, está a impor-se.

    E há espaço para isso, Portugal tem deixado esse espaço? [A Indonésia] aproveita. Uma vez que a televisão de Timor-Leste é em tétum e os programas em Inglês são pouca coisa e não são tão interessantes... as pessoas vão para aí.

    Mas nota que há ainda alguma afinidade com Portugal, mesmo com questões menos importantes como as clubistas, por exemplo? Sim, há afinidade na questão da língua, mas na Indonésia é uma língua mais fácil. Sabe que na Indonésia há cerca de cinco mil estudantes de Timor-Leste que vão para lá estudar nas universidades.

    Acha que a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) podia fazer mais? Eles estão... têm preocupações com isso, mas [o problema] é o como [fazer]. É estar presente, estar mais presente no meio das populações, nas aldeias, nas montanhas. É preciso criar um certo ambiente.

    E a ajuda portuguesa tem sido suficiente? Tem sido, não há problemas.

    Na administração da justiça, por exemplo, havia programas específicos. Isso agora depende dos novos governos.

    Em Fevereiro do ano 2000 recebeu, em Díli, durante a visita do presidente da República Jorge Sampaio, um projecto para uma escola, que lhe foi enviado pelo arquitecto Gualberto Fernandes a partir do Funchal. Que é feito desse projecto? Lembro-me do projecto, sim. Mas não foi construído. Não chegámos a avançar com esse projecto exactamente. Foi sendo adiado, houve algumas dificuldades e as obras não avançaram conforme esse projecto. Mas a Diocese de Díli acabou por fazer outras coisas.

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