“Cristiano Ronaldo é o melhor do mundo e também falha”

Nuno Freitas, Francisco Fernandes e Aloísio Figueira são três jovens árbitros madeirenses, que sonham chegar à I categoria da arrbitragem nacional. “Têm muito potencial”, diz quem os conhece

30 Dez 2017 / 02:00 H.

Faça frio (como era o caso), calor, chuva ou vento, duas vezes por semana cerca de duas dezenas árbitros madeirenses deslocam-se ao Estádio de Machico, para trabalharem no Centro de Treino dos Árbitros, modelo criado pelo Conselho de Arbitragem da Associação de Futebol da Madeira e que é ‘capitaneado’ por dois técnicos, Sérgio Serrão e Rui Marcelo Rodrigues, e por um preparador físico, Paulo Neves.

Fruto desta aposta, ninguém ousa hoje questionar a evolução e a melhoria da qualidade dos árbitros madeirenses, bem como o potencial que demonstram, sobretudo os mais novos. É o caso de três jovens, Nuno Freitas e Francisco Fernandes, ambos com 18 anos, e Aloísio Figueira, de 19, que são o futuro do sector e que “têm tudo para chegar à principal categoria da arbitragem nacional”, afirma quem com eles lida semanalmente.

Num momento em que sector em Portugal vive novamente um novo período conturbado, com pressões, ameaças e greves, impunha-se ouvir algumas das promessas do Centro de Treino dos Árbitros, onde dão passos seguros, apesar de estarem num meio em que o erro continua a ser (quase) indesculpável.

Foram todos futebolistas nas camadas jovens mas acabaram, por uma ou outra razão, enveredar pela arbitragem. “Aos 14 anos, sofri uma rotura de ligamentos e o médico aconselhou-me a deixar de jogar. Estive dois anos parado, engordei, e um dia na escola foi-nos apresentada a possibilidade de fazermos um curso de arbitragem. Acabei por aceitar o desafio, porque queria continuar ligado ao futebol. E foi a opção certa, gosto muito da arbitragem”, contou Nuno Freitas, o primeiro a ‘abrir o livro’, de uma conversa aberta e sem preconceitos.

“Vim para a arbitragem por influência do meu pai, que sempre defendeu os árbitros”, revelou, a seguir, Francisco Fernandes, que foi incentivado pelo progenitor a fazer o curso. “Gostei e ainda cá estou”, revelou.

“Eu como não tinha jeito mas queria ficar ligado ao futebol, optei por seguir pela arbitragem, que é uma paixão”, frisou, por último, Aloísio Figueira, com a concordância de todos.

De facto, a arbitragem para estes três jovens começou por ser um gosto mas evoluiu para uma paixão. “Sentimos a nossa evolução, que vamos progredindo e tendo novos objectivos”, realçou Aloísio Figueira, o único que trabalha, no economato de um armazém de um hotel - os outros dois são ainda estudantes.

Chegar ao máximo patamar da arbitragem nacional é um sonho que partilham. “Trabalhamos em todos os treinos e em todos os jogos para lá chegarmos. É esse o objectivo”, apontou Francisco Fernandes. “E quem sabe ser um dia internacional”, completou Nuno Freitas.

Mesmo tendo em conta que em Portugal os árbitros continuam a ser o alvo predilecto de muitos adeptos, que não se cansam de ofender quem veste (normalmente) de preto, estes três jovens madeirenses confidenciaram ao DIÁRIO que não dão importância ao que chega das bancadas. “Para ser sincero, quando estamos focados e concentrados no jogo tudo o que dizem de fora é ruído. Então quando temos o auricular é que não ouvimos mesmo nada”, garantiu Aloísio Figueira.

“No início ainda levei algumas bocas a peito mas hoje em dia é como o Aloísio disse, passa-nos ao lado. O que vem de fora não interessa, nem ligamos”, realçou Nuno Freitas.

Importava depois saber a opinião do trio em relação ao momento que rodeia a arbitragem nacional. “Vai haver sempre erros, porque o humano erra. O Ronaldo é o melhor do mundo e também falha. Mas, infelizmente, as pessoas dão mais importância ao facto de um árbitro não marcar uma determinada falta ou um penálti do que a um jogador que falha de baliza aberta”, atirou Nuno Freitas.

“O que é mais interessante é que há muitas pessoas nas bancadas a quem perguntarmos alguma coisa sobre a arbitragem e nem sabem responder. Sabem dizer mal, porque os outros também dizem. É uma questão ainda cultural”, opinou Francisco Fernandes.

Mesmo assim, nenhum questiona o facto dos agentes do futebol estarem mais tolerantes. “Sentimos isso dentro de campo, com os jogadores e treinadores. Nas bancadas ainda há situações impressionantes, porque muitos pais têm o síndrome Cristiano Ronaldo e consideram que os árbitros estão apenas em campo para destruírem os sonhos dos filhos”, acusou Francisco Fernandes.

“Por isso, sinceramente, prefiro apitar um jogo de seniores do que das camadas jovens. Há menos confusão”, vincou Aloísio Figueira.

Opinião unânime têm também sobre o sistema de vídeo-árbitro, que entendem não ter trazido benefícios. “O que tem de ser valorizado é o trabalho de equipa. No futebol não há nada perfeito, porque mesmo os árbitros têm opiniões diferentes sobre determinados lances”, disse Nuno Freitas.

“O vídeo-árbitro tem um protocolo e maioria das pessoas e até dos dirigentes não o conhecem. E até aqueles que conhecem o protocolo dizem que não é esclarecedor”, informou Aloísio Figueira.

“Nós, que estamos no meio, até conseguimos perceber as decisões mas, para mim, não estão a ser bem transmitidas para fora. Há falta de comunicação, isto para já não falar dos programas à segunda-feira à noite, que são o verdadeiro problema. Só quando isso for escrutinado e houver claramente algo regulamentado em relação a esses programas é que se verá alguma coisa, porque o adepto normal se ouve o comentador do seu clube a dizer que um determinado lance é penálti e que o árbitro é ou fez isto ou aquilo, vai tomar partido e terá sempre atitudes contra os árbitros. Enquanto isso acontecer vai continuar a ser complicado”, considerou Francisco Fernandes, o mais experiente do trio, pois já participou, enquanto assistente de André Sousa, em jogos dos campeonatos de Portugal e de Juniores.

“Nada irá mudar enquanto a Liga e Federação não colocarem cobro a estas situações. Em Inglaterra, por exemplo, um treinador não pode ir para uma conferência de Imprensa falar da arbitragem, caso contrário é multado e suspenso”, salientou Nuno Freitas.

O trio destacou ainda suporte familiar que têm em casa. “São os primeiros a nos apoiar”, agradeceu Nuno Freitas, em nome dos colegas, que partilham os mesmos ídolos, lá fora o italiano Pierluigi Collina e cá dentro Artur Soares Dias.

A finalizar, estes jovens árbitros elogiaram o trabalho que é desenvolvido no Centro de Treino dos Árbitros. “É muito importante, para o nosso desenvolvimento físico e técnico. Chegamos aos jogos e sabemos qual a decisão que devemos tomar”, elogiou Francisco Fernandes. “Dá-nos confiança”, apitou Aloísio Figueira.

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