“Comecei cedo a ‘arrebentar’ carros”

Cláudio Nóbrega, piloto do carro n.º 57 no Rali Vinho Madeira’17

10 Ago 2017 / 02:00 H.

O Rali Vinho Madeira já terminou mas tão cedo os entusiastas não esquecerão o que viveram durante a prova. Neste recapitular de emoções, encontrámo-nos na curva ascendente da prestação do Datsun 1200, veículo da classe VSH, pilotado e navegado pelos irmãos Nóbrega.

Estivemos à conversa com o piloto do carro, Cláudio Nóbrega, que levava o número 57 na porta de um veículo que deu espectáculo no rali, apesar de ter mais de 40 anos, não possuir direcção assistida e que no início servia apenas para passear com os amigos.

Depois da prestação no Rali Vinho Madeira, acha que se tornou viral? Tive essa percepção, porque foi uma coisa fora de série. No final de cada classificativa era uma multidão em frente ao carro. Queríamos arrancar e nem podíamos. Isto foi totalmente diferente de um rali normal e não há palavras para descrever o que senti. Até durante a noite era um mar de gente a puxar por mim que fazia impressão. A descer a Encumeada, com o barulho do carro e do capacete eu conseguia ouvir as pessoas a gritar e assobiar. Isso motiva um piloto. Ainda não tive tempo de ver os vídeos ou os elogios que recebi, mas pelo que dizem toda a gente gostou e só recebi bons comentários. Comecei logo a trabalhar por isso ainda não tive tempo para ver tudo.

Quando nasceu já sabia o que fazer ao volante e ao travão de mão? Não, não sabia (risos). Isto começou na altura dos carros de paus, mas estive desde cedo ligado à mecânica, logo aos 10 anos, porque não nado a meio do dinheiro. Tive de começar a trabalhar cedo, com 8 anos, e aos 10 comecei no mundo dos carros por incentivo do meu irmão mais velho, que me levou a trabalhar com ele nas férias grandes numa oficina. Acabei por abandonar a escola porque o que eu gostava era de estar a meio dos carros. Com 15 anos comprei o meu primeiro automóvel e só queria carros com tracção atrás, que era para fazer as tais brincadeiras. Comecei cedo a ‘arrebentar’ carros e com o tempo fui aperfeiçoando a minha condução. Quando comprei este carro foi mesmo só para passear com os amigos de vez em quando, para matar o ‘bichinho’, mas já está num ponto em que ficou um carro de rali a sério.

O que é que lhe deu na cabeça para entrar no rali? Fazer o Rali Vinho Madeira era um sonho que eu tinha desde pequeno e vivê-lo por dentro foi fantástico. Desde que me lembro a semana do rali é santa. O que eu sempre disse foi que gostava de começar na quinta-feira e acabar no sábado, o que aconteceu. É bastante duro para o piloto, co-piloto e até para o carro, não sabia que ia ser assim. Quando as pessoas diziam que era preciso preparação é mesmo verdade. Eu por acaso tive atenção à alimentação e fiz umas caminhadas a pé, porque hoje em dia com carro, até para ir ao café conduzimos e não fazemos nada sem ele. Mas, dei uma ‘carreirinha’ em 200 metros e parecia que ia morrer.

Estava ali por diversão? O objectivo foi sempre esse, divertir-me e entusiasmar o público acima de tudo. As nossas presenças são sempre para isso. Já cheguei à conclusão que andar ali à guerra e gastar dinheiro para ir à frente não vale a pena. Porquê? Ganho mais assim. As pessoas gostam de mim, acarinham-me e fazem festa, não há rivalidades. Todos gostam de ganhar e se eu tivesse perto dos primeiros lugar claro que ia tentar, mas sempre com espectáculo.

Então não leva isto a sério? Nós temos de levar isto a sério porque o rali não é uma brincadeira. Isto, parecendo que não, é um carro velho mas envolve bastante dinheiro. Para este rali o investimento rondou os 15 mil euros, com pneus, gasolina, óleos, filtros, ou seja, material para manutenção. Tudo somado chega a esse valor. É um investimento e por isso temos de levar isto um pouco a sério, embora as pessoas pensem que não é assim, porque isto é um carro velho. E tenho a ajuda do stand FBI senão não era possível, por muito que goste disto.

Sente que o público preferia vê-lo a passar do que aos outros concorrentes? No fim notei isso. Todos viram que o Alexandre Camacho ganhou, mas para muita gente o vencedor do rali fui eu. Este ano ninguém animou, havia competição lá à frente, mas muitos disseram que estavam nos sítios à espera para me ver passar e não os que iam nos primeiros lugares.

Arriscava a cada curva? Não faço nada fora de controlo e se eu ver que não consigo não faço. Conheço bem o carro e eu costumo dizer que nós falamos e damo-nos bem um com o outro.

Há algum erro a apontar? Fiquei desiludido com a organização. Um rali tão extenso e, para quem animou a estrada, que foi a categoria VSH, chegamos ao fim, no pódio, e foi tudo à pressa. E os três primeiros, como nas outras classes, deviam receber os prémios. Nós tivemos uma lembrança de presença e só o primeiro é que ganha alguma coisa. Para o preço que é devia haver mais qualquer coisa para os pilotos. A nossa categoria anda muito jogada lá para trás e sei que eles vão dizer: “Se queres aparecer compra um carro mais recente”, a resposta é sempre essa. Andamos ali jogados.

Considera-se um bom condutor? Penso que sim. Acho que está à vista de toda a gente. Da maneira como andamos o carro não tem um arranhão que seja. É de louvar estar três dias a dar espectáculo, porque o carro está constantemente a apanhar ‘porrada’ e é maltratado. Andar de lado e o motor a ‘cortar’, parecendo que não, os outros fazem a curva direita e eu com o acelerador no fundo e a andar de lado. O desgaste é bem superior. É preciso ver que um carro com 40 anos completou a prova.

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