“Chega de Dr. Google”

O pediatra Mário Cordeiro acaba de lançar ‘A Verdade e a Mentira das Vacinas’, um livro que pretende esclarecer todas as dúvidas sobre o tema

17 Set 2017 / 02:00 H.

Em Abril deste ano, morreu uma adolescente portuguesa de 17 anos depois de ter sido internada com sarampo. A jovem não tinha sido vacinada. Esta situação voltou a trazer para a ordem do dia uma discussão sobre as vacinas, sobre os mitos e as falsas verdades que rondam a vacinação. O pediatra Mário Cordeiro não quis ficar alheio a tudo isto e escreveu um livro para esclarecer todas as dúvidas que podem surgir sobre as vacinas. Ao DIÁRIO falou sobre este tema, sobre os perigos das redes sociais e internet na propagação de mentiras e sobre o trabalho que Portugal e sobretudo a Madeira tem realizado no campo da medicina preventiva. E não se cansa de sublinhar: “As vacinas salvam. As doenças é que matam!”

Depois de uma longa carreira na Pediatria e de ter assistido aos avanços da Medicina ao longo de décadas, acredito que este livro “A Verdade e a Mentira das Vacinas” era aquele que gostaria de não ter escrito. Estou enganada? Exacto. Era um livro que eu desejava não fosse necessário escrever. Infelizmente, nem sempre aquilo que pensamos estar adquirido, em termos civilizacionais, é certo e perene. Acontece, aliás, com muitas outras coisas. A sociedade civil, os profissionais, a democracia e a civilização têm de estar vigilantes e atentos para os que querem retroceder e fazer, no fundo, o ‘jogo do inimigo’. Daí a necessidade que senti de escrever este livro, para que a população possa entender o que está em causa e não descurar a vacinação.

Mas com o surto de sarampo, que vitimou uma adolescente no nosso país, era imperativo esclarecer potenciais questões sobre o tema? Sim, mas os esclarecimentos já tinham sido, e, muito bem, dados pela DGS e demais entidades. O surto de sarampo veio evidenciar, infelizmente de forma brutal, o que já se vinha adivinhando.

A história e evidência científica das vacinas tem já mais de dois séculos. Como entender as dúvidas que ainda existem sobre a eficácia e importância das vacinas? Se há medida de Saúde Pública que tem sido mais estudada, relativamente a todos os seus aspectos, e que já demonstrou ser a mais eficaz e salvar mais vidas, é a vacinação. A sua pergunta faz todo o sentido: como entender? Custa, não é? Como entender que algumas pessoas dêem autênticos ‘tiros nos pés’ tendo a sorte - sim, a sorte -, de ter à disposição um método de prevenção eficaz, seguro e bom para uma série de doenças que matam. Sim, matam. A memória pode ser curta e muitos pais já não se recordarem, mas morria-se em Portugal de sarampo, poliomielite, tuberculose, difteria, meningites bacterianas, tosse convulsa... As vacinas salvam, as doenças matam. Enquanto não interiorizarmos todos isto, as coisas não estão bem. Por outro lado, quando vemos o que se passa noutros países, muitos deles onde vivem milhares de portugueses, onde se morre de tudo isto, custa também a entender a sobranceria e a falta de respeito humano que é contra as vacinas demonstra.

Os movimentos anti-vacinas (a que chama de retrocesso civilizacional) ganham força em países que se dizem desenvolvidos como o EUA, baseando-se em mitos e propagam-se pela Internet e pelas redes sociais. Como travar esta desinformação? Há aqui um papel a ser desempenhado e reforçado pelas autoridades de saúde, pelos profissionais da área, pelas escolas? Não apenas nos EUA. Na Europa, desde há décadas, sobretudo na Alemanha e no sul de França, que as taxas de vacinação são relativamente baixas, sobretudo em relação ao sarampo, tosse convulsa, etc. Temos de ser mais activos, nós, que consideramos as vacinas com um dos bens mais preciosos da Humanidade. O caso da varíola é exemplar. Dizimou populações. Matou indiscriminadamente reis e camponeses. Mudou, em muitos casos, a própria história dos países, com mortes de herdeiros, fome, falta de trabalhadores rurais e tantas outras coisas.

O combate a estas ideias erradas, mentirosas e falsas tem de ser através de uma posição mais firme dos meios de comunicação, dos jornalistas e dos «fazedores de opinião». Era bom que políticos de todos os quadrantes políticos dissessem: «eu vacino os meus filhos», como têm feito muitos jornalistas, radialistas, etc. Fica o desafio.

As vacinas são realmente seguras? São. Pode acreditar que sim, até porque resultam de décadas de investigação. Muita gente não sabe que algumas vacinas são descartadas antes de serem comercializadas, exactamente porque falhavam aqui e ali, mesmo que em coisas menores. Por outro lado, há um sistema de fármacovigilância que detecta qualquer anomalia. Finalmente, não se pode confundir segurança com alguns efeitos colaterais benignos, como febre de um ou dois dias, dor no local da injecção, etc. Acrescente-se que as firmas que fabricam vacinas, fabricam também muitos outros medicamentos e nunca arriscariam a ter processos de má prática ou de colocarem produtos perigosos e entrarem em total bancarrota!

Mas há quem associe a vacinação ao aparecimento de doenças... Há sempre quem goste de teorias da conspiração... mas a história mais divulgada, da pretensa associação do autismo com a vacina do sarampo, foi uma fraude inventada por um médico inglês que foi demitido, proibido de exercer e teve de se retratar. Aldrabões há-os em todo o lado. Não podemos é dar-lhes voz, pelo contrário, temos de os denunciar, até porque representam, neste caso, um perigo de vida para muitas pessoas. Esse médico e os seus seguidores, entre os quais o actor Robert de Niro, são moralmente responsáveis pela morte de inúmeras crianças!

É defensor da não obrigatoriedade da vacinação, mas considera-a uma questão de direitos humanos. Para bom entendedor, meia palavra basta... A obrigatoriedade não iria aumentar as taxas de vacinação, até porque seria entendida como ‘mais uma’ imposição do Estado... um pouco ao nível dos impostos. Por outro lado, atingimos níveis dos melhores do mundo sem obrigatoriedade. Finalmente, a averiguação da responsabilidade de quem tinha efectivamente falhado seria um processo infindável e impossível. Acresce que, sendo obrigatório, teria de haver uma sanção para os que não cumprissem. Qual? Quem iria ser penalizado por essa sanção? As crianças? As famílias de menos recursos? Um pouco como o voto, é um dever moral e cívico. E um sinal de amor dos pais pelos filhos.

“As doenças é que matam. As vacinas salvam....” Esta é uma frase que repete várias vezes ao longo do livro. Mas não é uma frase “gratuita”, se assim a podemos chamar. As evidências estão à vista com a diminuição brutal da mortalidade no mundo e, em especial em Portugal, com a entrada em vigor do Plano Nacional da Vacinação? Sim. Essa frase tem de ser repetida porque é a verdade que muita gente esqueceu. A nível mundial, são 3 milhões as pessoas que não morrem por causa das vacinas. Em Portugal, desde 1965, altura em que começou o PNV, as mortes por doenças evitáveis pela vacinação diminuíram incrivelmente. Quando eu trabalhava no hospital de Santa Maria, todos os dias surgiam pelo menos 3 casos de meningites e septicemias bacterianas. Muitas crianças morriam, outras ficavam com handicaps terríveis. Hoje a meningite bacteriana é rara, felizmente. Acho que é altura de pensar, reflectir e olhar um bocadinho para o passado e entender como chegámos aqui.... mas como poderemos retroceder se formos laxos, pouco rigorosos e, sobretudo, pensarmos que ‘tudo está ganho’. Não está!

Na sua opinião, quais as vacinas que deveriam ser incluídas no PNV? Pessoalmente, creio que seria bom alargar a vacinação anti-meningite B a todas as crianças e incluir as vacinas anti-rotavírus e anti-varicela. Todavia, sei que custam muito dinheiro e que o país não anda propriamente a ‘nadar em euros’. Posteriormente, a vacinação do HPV para os rapazes e a da hepatite A seriam boas ideias, mas temos de andar com calma e de acordo com as possibilidades. Desde que o dr. Francisco George está à frente da DGS, confio nela e nos seus critérios.

Em Portugal, as taxas de cobertura vacinal são bastante elevadas (por exemplo, aqui na Região Autónoma da Madeira rondam os 97, 98%), mas o ideal seriam sempre os 100%. Acredita que esta é uma meta possível? Será utópico, até porque há crianças - se bem que poucas - que não se podem vacinar por circunstâncias e doenças várias. Deixe-me falar um pouco da RAM, porque conheço muito bem a Região, dado que fiz aí a minha Tese de Doutoramento e visitei todos os serviços e analisei todos os dados referentes á saúde e à educação. A Região, nos anos 60 do século XX, era terrível, do ponto de vista sanitário. Os médicos, para se deslocarem - por exemplo ao Curral das Freiras ou a tantos outros locais - tinham de andar a pé ou a cavalo horas e horas. A pobreza era extrema. O isolamento enorme. Mesmo antes do 25 de Abril, quando começou o PNV, os enfermeiros e médicos da Região, sob direcção do Instituto Maternal (embrião da parte materno-infantil da DGS), fizeram os possíveis e impossíveis para vacinar. A população aderiu. E, passados estes anos, temos um local em Portugal com uma taxa que deve ser das mais altas do mundo, se não porventura mesmo a mais elevada.

Quando foi o caso da vacina da meningite C gratuita, recusada pelo ministro da saúde do governo da República em 2002 (embora curiosamente, viesse 3 anos depois colocá-la no programa quando voltou ao governo, defendendo aí a vacina como ‘sua’ obra...), a RAM, através do Dr. José Carlos Perdigão e da secretaria regional, aceitaram essas vacinas gratuitas e vacinaram todas as crianças e jovens dos 0 aos 18 anos. Resultado: a meningite C desapareceu da região em menos de nada. Uma taxa elevada de vacinação dá o que se chama «imunidade de grupo», que protege os que, por alguma razão, não se podem vacinar.

Termina o livro com uma frase de Arnaldo Sampaio, quando diz que existem três hipóteses à disposição dos pais: “Vacinar, vacinar e vacinar!” Acredita mesmo que este é o caminho a seguir? Algumas bactérias e alguns vírus querem-nos mal. Querem-nos matar. São nossos inimigos. Temos de lutar contra eles. Temos uma arma que evita essa destruição. Não é altura de repensar o assunto? Não temos a obrigação de vacinar? Felizmente as coisas parecem estar a mudar, e a ideia de escrever o livro foi acelerar essa mudança. Chega de cultura de redes sociais e de ‘dr. Google’. À Ciência o que é da Ciência, sobretudo quando estão em jogo vidas humanas e, designadamente, a vida e o futuro das crianças. Sei que a RAM está no caminho certo e que os profissionais de saúde, a população e o governo regional entendem bem esta questão. A RAM é um caso de sucesso mundial - não percam este pódio!

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