“Cavar a terra é um antistress”

Projecto das ‘Hortas Municipais do Funchal’ tem, actualmente, 23 espaços, 904 lotes, 58.747 m2 de área. Ainda ocupa e dá alimento a muitas famílias. Câmara não prevê aumentar número de hortas, mas está aberta à cedência de terrenos

16 Jul 2017 / 02:00 H.

Completam-se, no próximo dia 8 de Agosto, 12 anos da criação da primeira área de cultivo em contexto urbano, o denominado projecto ‘Hortas Urbanas’ do Funchal, que hoje inclui 23 espaços em seis das 10 freguesias do município mais urbano da Madeira, divididos em 904 lotes de terreno numa área total de 58.747 metros quadrados.

Embora tenha estagnado em termos de novos espaços, aliás até diminuiu face à última actualização (59.146 m2 em 911 lotes), o objectivo essencial mantém-se. Assegurar que os candidatos beneficiários possam cultivar a terra e dali tirar algum sustento para a família. A prioridade vai para os desempregados e a verdade é que, actualmente há dezenas de lotes abandonados e que esperam que seja atribuída a vez a um dos mais de 790 candidatos ainda em espera. Há 4 anos e meio, quando o programa foi suspenso para avaliação, eram mais de 900 candidatos.

Se é verdade que a maioria dos lotes continua a ser fonte de alimento para quem tem força e vontade de trabalhar a terra, também é verdade é que há vários lotes que há muitos meses aguardam pela atribuição a um candidato. E até há quem esteja em lista de espera, mas vá ajudando amigos que, por força da dureza do trabalho e também da morte ou doença dos titulares da licença, já não pode.

Só na Horta Urbana da Ribeira de João Gomes, em Santa Maria Maior, uma das primeiras (2009) a ser criada com 63 lotes com média de 56 metros quadrados de área por lote, num total de 4.800 m2, no dia de ontem, sábado, 15 de Julho, contamos 13 votados ao abandono ou com pouco uso, embora com sinais de cultivo. Noutras localizações, sobretudo os maiores terrenos, a situação é muito similar, embora a grande maioria dos terrenos esteja a ser utilizado.

Trabalhar a terra nas horas vagas

Os beneficiários de terras nas hortas, normalmente aproveitam para trabalhar a terra e cuidar do seu fruto nas horas vagas, embora muitos estejam desempregados, a verdade é que há quem já há quatro/cinco anos que dispensa pelo menos uma hora por dia após o trabalho para o fazer. E aos fins-de-semana são mais dias. É o caso de Edgar Canhas que, aos 43 anos, considera essas horas na horta como um antistress.

“Cultivo ‘vaginha’ (feijão verde), alfaces, pimentões, ‘semilha’ (batata), feijoca, couves, tomateiros, alho francês, segurelha, batata doce, pimpineleira”, disse, enquanto se preparava para cavar um pedaço do terreno para cultivar mais sementes. “Serve para a casa, dar algum a amigos, trocar com as pessoas que cá têm hortas. É uma distracção, é um antistress, mas que me ocupa todos os dias. Saio do trabalho e venho cá todos os dias, também para ver as galinhas (cerca de 10)”, acrescenta. A ajuda é dada por um amigo, desempregado com 58 anos e após 44 anos de trabalho como ajudante de balcão em farmácia, Mário Perneta.

Lamentam que haja terrenos cheio de ‘matagueira’, embora haja a promessa de que a Câmara Municipal vai redistribuir a quem espera. “Há quem tem hortas que nem sequer deveriam ter”, atira um deles. O mesmo entendem ‘Pedrão’ Gomes e Francisco Aveiro, ambos já reformados, mas activos.

Um esteve 25 anos na Marinha a navegar pelo mundo e a coleccionar experiências e na Estação de Biologia Marinha. Agora, desde há um ano e depois de largar as “chatices” da vida laboral, passa os dias a tratar dedicadamente o pequeno lote “com o espírito de cultivar amizades”, diz. O outro esteve emigrado em Jersey, mas grande parte da vida trabalhou no antigo ‘Vagrant’ e até teve um negócio na restauração, que vendeu para resolver a vida e “não ter mais chatices”. É primo do futebolista Cristiano Ronaldo, pela parte do pai.

Gente do povo, pais e mães de família, alguns com netos, mas não dispensam a mais-valia que foi a criação, há 12 anos, deste projecto de cariz socio-comunitário. Um caso de sucesso que, embora carecendo de ajustes e actualizações - criticam a falta e manutenção e limpeza -, tem sido um exemplo a seguir. Houvesse mais terra disponível.

Prioridade aos desempregados

A vereadora Idalina Perestrelo, que tem a pasta do Ambiente e a tutela das hortas urbanas do Funchal, salienta que a redistribuição dos lotes abandonados será feita.

A excepção é a dos Viveiros, que era gerida pela empresa municipal SociohabitaFunchal, que foi desmantelada para construção de um fogo de habitação social com 28 apartamentos). Eram 54 de um total de 151 hortas sociais/talhões nos bairros sociais da autarquia.

No caso em concreto das 23 hortas urbanas, a vereadora revela, por isso, que “existem em lista de espera 792 inscritos que serão seleccionados prioritariamente por aqueles que se encontram desempregados”.

Mesmo assim, há lotes ao abandono por atribuir, até hoje. “Existem casos de pessoas que receberam os lotes e que entretanto as abandonaram. Nestas situações estes hortelões são notificados para procederem ao cultivo ou entregarem as respectivas hortas, para darem lugar a outros. Neste momento procedemos à identificação de todas as hortas abandonadas para podermos voltar a entregar a outras pessoas da lista”, promete.

Sobre novos pedidos de inscrição, Idalina Perestrelo refere que “há sempre mais pedidos para hortas” e que “isso só demonstra a importância do projecto”. E acrescenta: “No caso em que as pessoas se mostram interessadas aconselhamos a aguardarem por melhor oportunidade ou então solicitarem às juntas de freguesia a possibilidade de adquirirem algum lote de terreno abandonado sobre a jurisdição da junta.”

Questionada sobre a fiscalização, essa tem “duas componentes”, a administrativa e a exterior no terreno. “A fiscalização tem como objectivo fazer cumprir o Regulamento das Hortas Urbanas Municipais do Funchal aprovado em reunião da Câmara em 20 Novembro de 2014. E segue integralmente as regras previstas”, inclusive na lei, frisa.

Uma vez que o número de candidatos quase iguala os lotes existentes, quisemos saber de novos projectos e novas localizações. Idalina Perestrelo garante que, “neste momento, o objectivo é continuar a manutenção das existentes e organizá-las por forma a que todos fiquem satisfeitos. No entanto, não colocamos de parte a possibilidade de concretizarmos novas hortas e, por essa razão, estamos receptivos a propostas de cedência de terrenos e que não tenham encargos elevados para a autarquia”, conclui.

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