Se eu deixasse de cantar, morria de desgosto

19 Mai 2017 / 02:00 H.

Carlos do Carmo é homenageado domingo às 21 horas no Teatro Baltazar Dias pela Associação Académica da UMa. Estará presente.

Para um homem que já recebeu um Grammy, o que significa uma homenagem como esta? Significa muito. Significa a generosidade e a gentileza das pessoas. E vindo de gente jovem da Madeira, é muito saboroso.

Tem muitas destas homenagens? Tenho. Ultimamente tenho tido bastantes, nestes últimos dois anos. Universidades, faculdades... Têm-me acontecido surpresas muito agradáveis. São coisas muito despretensiosas, mas muito bonitas.

O que é que fica destes momentos? O afecto. O afecto que é a coisa mais bonita, o que conta exactamente é o afecto. Normalmente fica um diploma, uma coisa qualquer. Eu estou a falar consigo, estou aqui sentado no meu escritório, estou a arrumar. Há anos que não lhe mexo. E digo-lhe, é uma verdadeira loucura. Isto já não é um escritório, é um armazém.

Onde estão os prémios, o que faz com eles? Tudo o que são prémios, etc., a minha mulher tem tudo muito bem organizado. Agora diplomas, eu tenho uma colecção louca deles. Eu penso que os meus netos e os meus filhos hão-de dar orientação a isso, não faço ideia.

Dos prémios que recebeu ao longo da vida, qual é o mais especial? Ah! Não destacaria nenhum em particular porque o prémio principal é o público. É o grande presente e é o permanente prémio que eu tenho.

Ele tem sido sempre bom consigo, generoso, fiel? Tem sido mesmo. Levo 53 anos a cantar e é de uma fidelidade que me desconcerta. Essa trilogia, entre o público, os meus autores e a minha família, que é um suporte emocional fundamental, é a essência de tudo isto.

E hoje, maduro, com uma longa experiência, onde é que acha que está o segredo do seu sucesso? Eu tenho a impressão que está no facto de não ter querido agradar a todos.

Nunca lhe trouxe dissabores? Da mesma forma que tenho amigos, trouxe-me inimigos. E isso, nós aprendemos a viver. Eu não sou uma pessoa que viva de rancores, ressabiado, não sou amargo. Mas é bom a gente saber onde está, localizar o nosso inimigo. Numa vida pública, há pessoas que passam a vida inteira a fazer-nos mal. E a gente sabe quem são.

Como é que acha que estamos em Portugal em termos de música? Há três semanas, máximo quatro, estive a cantar em Elvas numa homenagem ao meu querido amigo Luís Represas, 40 anos de carreira. E fomos acompanhados por uma orquestra sinfónica. Só gente jovem. Aquilo soava como qualquer grande orquestra. E eu perguntei ao maestro quem eram. E ele disse-me são raparigas e rapazes que tiraram o curso superior de música, que dão aulas e fazem uns biscates.

Isso significa o quê? Que Portugal tem músicos e tem música. O problema é tudo precisa de uma linha de orientação. E nós precisamos. Um país que não seja culto é um país atrasado. Nós precisamos de estimular a cultura não como um bem elitista, mas como um bem natural das nossas vidas. Além de estimular a leitura, o convívio humano, o pensamento. Pensar! É muito futebol na televisão, é muita novela. As pessoas depois não param para pensar.

Em Portugal vamos muito atrás de modas? Por exemplo, agora o Salvador ganhou o festival, somos todos por Portugal, pela música com significado. Acha que é uma moda e que passa? Não sei antever o futuro. Estou muito feliz pelo Salvador porque gosto dele de duas maneiras: uma como intérprete e outra como ser humano. Eu vi duas entrevistas grandes com ele em que vi um ser humano muito particular, um homem com 27 anos com muita sabedoria, muita inteligência, cultura e uma espontaneidade desconcertante. E um belíssimo intérprete. Eu ouvi-o cantar cá, ouvi-o cantar na meia-final, na final e depois ouvi-o cantar no suplemento. E nenhuma das vezes ele cantou igual. Isto é um intérprete.

Para alguém que já participou, vê com outros olhos o Festival? Eu estive muito desligado. A minha ida ao Festival foi um acidente de percurso. Eu não concorri, eu fui convidado. Gostei, saboreei aquilo, percebi alguns mecanismos. Fui de uma maneira despretensiosa porque eu sabia que Portugal não tinha qualquer hipótese. Ia cantar e cantei, gostei de o ter feito. Mas vou-lhe contar uma história. O festival nesse ano foi em Haia e na véspera, nós tínhamos ensaio com a orquestra. Quem estava a assistir eram os jornalistas e os produtores que estão ligados ao mundo do espectáculo, estavam ali a observar quem é quem. E eu tinha uma versão muito bonita da canção que tinha feito em francês. Como estava a ensaiar e o problema era encaixar-me bem com a orquestra, cantei a versão francesa. Quando acabei de cantar, recebi muitas palmas. E um jornalista inglês chegou ao pé de mim e perguntou-me ‘amanhã vai cantar a canção em francês?’ Eu disse não, isto foi só uma gracinha. Diz ele ‘é que se você cantasse em francês, ganhava o festival. Eu disse não. Nem pensar. Isso está fora de questão. Isso passou-se em 1976.

Entretanto o festival mudou... Sim. Depois eu desliguei-me completamente.

Nunca se dedicou à composição? Então já viu os compositores que eu canto? Isto é cada macaco no seu galho. Eu tenho um ídolo que é o Sinatra, nunca compôs. Pegou nas canções que lhe deram e fez delas o melhor possível. E é o que eu tento fazer. Eu trato-as com muito respeito, muito carinho, muita devoção.

Quando dizem que é o Sinatra do fado, deixa-o feliz? Frank Sinatra é inatingível. Eu não conheço dentro da música popular ninguém que tenha cantado como ele. Embora eu seja fã do Tony Bennett, mas o Sinatra pegava numa canção banal e de repente a gente tinha a sensação de que estava a ouvir uma pérola.

As pessoas conseguem ouvir pérolas na sua voz? Ah, não! A mim dão-me pérolas, é uma coisa de mais. Dão-me em bruto e depois eu procuro lapidar.

E o que é que anda a lapidar agora? Para quando o próximo disco? Eu hei-de gravar um disco, se Deus quiser, e quero gravar um disco. Mas não posso falar disso.

As pessoas podem manter a esperança de em breve terem novidades? Eu espero que sim. Eu normalmente só gosto de falar de qualquer coisa que já esteja concreta. E eu tenho uma pequena pasta onde vou acumulando repertório que vou recebendo. E depois faço uma triagem. Neste momento já tenho composições que dão para gravar um disco. Agora o problema é ganhar a força, a vontade, a determinação de criar um corpo de unidade em tudo isto e gravar. Será com certeza uma coisa louca, porque a mim só me apetece quando gravo fazer loucuras. Mas as pessoas também já estão habituadas.

Ouvi falar que o Jorge Palma fez-lhe finalmente a canção que tanto queria. Esse grande caloteiro pagou-me uma dívida ao fim de 20 anos. Devia-me uma canção há 20 anos. Uma vez pedi-lhe, ó Jorge, gostava tanto que tu me fizesse uma canção de amor. E ele 20 anos depois pagou-me. E é tão linda a canção.

Valeu a espera? Ui se valeu! É linda a canção dele, linda, linda, linda. É um homem muito talentoso.

E um concerto na Madeira, para quando? Eu na Madeira, já não sei há quantos anos não canto.

Virou as costas à ilha? Está a brincar comigo? Então eu tenho cantado nos Açores. Não! Porque é que eu canto nos Açores? Porque me chamam, porque me convidam. No Funchal, não me convidam, eu não vou. A casamento e baptizado não vás sem ser convidado.

Além desta homenagem, que outros desafios tem nos próximos tempos? Vou a Paris, vou ao Luxemburgo, vou à África do Sul. Tenho mais um país qualquer... E depois tenho duas ou três coisas aqui no continente. Eu só canto uma vez por mês.

Receita do doutor? É, porque eu já fiz seis anestesias gerais. Mas eu gosto muito de cantar e o médico sabe disso. Se eu deixasse de cantar, morria de desgosto.

Depois deste tempo todo, o que sente quando entra em palco? Tremo mais. Porque é tanto bom trato por parte das pessoas, é tanto carinho, tanta dádiva, que eu às tantas já não sei o que é que hei-de fazer à minha vida. Mas digo assim: será que estas pessoas ainda têm paciência e gosto de me estar a ouvir? E tremo. Nos primeiros minutos estou ali aos papéis. Depois é que vou serenando.

O palco ainda o consegue surpreender? Sempre.

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