Caixa diz que chegou a hora de Berardo pagar a conta

Execução de 56 milhões de euros que entrou ontem é a maior na comarca da Região

10 Nov 2017 / 02:00 H.

Fazer tudo em grande tem sido imagem de marca de Joe Berardo e parece que a regra se confirma até quando os negócios não lhe correm de feição. O investidor e coleccionador de arte madeirense arrisca-se agora a ficar com um recorde pouco invejável, o do processo de dívida de valor mais elevado na Comarca da Madeira. Tudo porque a Caixa Geral de Depósitos (CGD) entregou ontem uma acção para cobrança de um calote de 56 milhões de euros da empresa Metalgest.

Este processo ultrapassa em muito os valores das execuções mais altas registadas em anos anteriores: em 2013 o BCP exigiu 24,5 milhões à empresa Viaran; em 2014 o Novo Banco pedia 7,9 milhões ao grupo Regency; em 2015 o Banif reclamava 4 milhões à família Dumont dos Santos; em 2016 o Santander cobrava 34 milhões à sociedade ‘Tijolo Branco’; e no primeiro semestre de 2017 o Santander pedia 12 milhões de euros a José Fonseca, antigo sócio da Tâmega.

A Metalgest, que tem a sua sede registada na Rua da Torrinha, no Funchal, era um dos dois veículos de investimento (o outro era a Fundação Berardo) do homem que fez fortuna na África do Sul. A empresa serviu, por exemplo, para o investidor lançar em 2007 uma oferta de aquisição de 85% do capital da SAD do Benfica, tentativa que fracassou. Mas serviu sobretudo para comprar acções e assumir uma posição relevante no capital do BCP. Era o tempo em que o país tinha José Sócrates como primeiro-ministro e Berardo contava com o apoio praticamente ilimitado dos bancos para contrair empréstimos para comprar acções. Acontece que os títulos do banco entraram em queda vertiginosa na bolsa e passaram a valer menos de um décimo do preço pago na aquisição.

Estima-se que Berardo e as suas empresas acumularam uma dívida que ronda os mil milhões de euros junto da CGD, BCP e BES/Novo Banco. O problema é que as garantias dadas cobrem apenas uma pequena parcela dos calotes. Algumas garantias não podem ser penhoradas, como acontece com as obras de arte da Colecção de Arte Moderna do Centro Cultural de Belém (Lisboa).

Só um trabalhador na Madeira

A Metalgest já teve participações em acções do BCP, Papelaria Fernandes, Sociedade Industrial de Cereais (SICEL), Bernardino Carmo & Filho SGPS, SA (sector dos vinhos) e na Empresa Madeirense de Tabacos (EMT). Mas foi vendendo activos nos últimos anos. Desconhece-se qual será o actual património, mas o que resta será em breve penhorado e vendido à conta do processo de execução que ontem entrou na Comarca da Madeira e de outros que os bancos têm ameaçado meter em tribunal.

Em 2015, a Metalgest foi alvo de um procedimento administrativo de dissolução, em virtude de não ter apresentado contas. Um processo que aparentemente não foi concluído. Nessa altura, a Metalgest contava apenas com 11 trabalhadores inscritos, sendo que apenas um (genro de Berardo e coordenador da sua colecção de arte) declarou residência na Madeira. Todos os outros moravam na área da grande Lisboa.

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