Aumenta o número de pessoas com SIDA

No Dia Mundial de Luta Contra a Sida, confirma-se a tendência crescente das infecções

01 Dez 2016 / 02:00 H.

Não se fala tanto de VIH/SIDA como nos anos 90, mas isso não faz desaparecer a doença nem diminuir o número de infectados. Antes pelo contrário. Os números mais recentes revelam uma tendência crescente depois de uma significativa melhoria no início deste século.

De acordo com os dados estatísticos trabalhados pelo Instituto de Administração da Saúde na Madeira, em Junho deste ano estavam registados 624 casos de infecção por VIH/SIDA, numa lista que vem sendo contabilizada desde 1987. Esse indicador confirma a tendência de crescimento dos casos ao longo dos últimos anos, nomeadamente depois da descida verificada entre 2008 e 2011, quando voltou a crescer. Em Junho de 2015, eram 591 os casos registados, mas a lista aumentou significativamente até Abril quando já estavam contabilizados mais 29 novos casos. Nos dois meses seguintes, surgiram mais quatro.

Esta curva ascendente tem sido notada e acompanhada pelos serviços competentes. O relatório referente a Junho deste ano é feito com base nos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge e além dos números, o IASAÚDE apresenta algumas observações de onde se percebe, por exemplo, que continua uma significativa diferenciação por género. Da totalidade dos casos registados, o sexo masculino é responsável por 475, bem acima dos 149 atribuídos ao sexo feminino.

Por concelhos, a divisão não causa grandes surpresas. O Funchal surge naturalmente à frente, com 435 casos de infecção por VIH. Segue-se Câmara de Lobos (48) e Santa Cruz (38). São Vicente (9) e Porto Moniz (4) são os casos com menos registos contabilizados.

A faixa etária mais atingida é a que compreende os 25 a 29 anos. No entanto, a generalidade dos casos refere-se a pessoas com idades compreendidas entre os 20 e os 49 anos de idade, que representam cerca de 84% da totalidade dos registos.

Nesta distribuição por idades, surgem dados que apontam para um bebé infectado com menos de 11 meses, uma criança com menos de quatro anos e outra com menos de nove anos. Na faixa entre os 10 aos 12 anos, há dois registos.

Os casos de infecção em seniores também assumem alguma proporção. Em Junho deste ano estavam registados 17 indivíduos com idades entre os 60 e os 64 anos. Acima dos 65 havia indicação de 13 registos.

A recolha estatística apresentada pelo IASAÚDE mostra ainda que, ao nível da orientação sexual, são as pessoas heterossexuais as que apresentam maior risco, estando em cerca de metade dos casos detectados. Seguem-se os homossexuais ou bissexuais (34%). Os casos de transmissão de mãe-filho ou os que envolvem toxicodependentes atingem proporções residuais de 5 e 2 casos, respectivamente. A mesma tabela indica que apenas um cidadão terá sido infectado por via de transfusão.

Especificamente em relação aos casos de SIDA, a tendência é semelhante. Entre os 192 casos na Região, há mais homens (166) do que mulheres (26) e a faixa etária mais atingida está entre os 25 e os 49 anos. A distribuição por concelho é sensivelmente a mesma e a tendência crescente depois de 2014 acompanha os casos de infecção por VIH. Também semelhante é tabela referente às categorias de transmissão: a maioria são cidadãos heterossexuais, seguida pelos homo ou bissexuais.

É uma mulher que fala. Não dá a cara, não revela o nome. Mas conta a história de uma vida que, segundo os primeiros diagnósticos, devia ter acabado há muito. Foi infectada em 1991, quando tinha 40 anos, pouco depois de ter dado à luz à segunda de duas filhas. “Deram-me dois anos e meio de vida”, lembra.

Sentiu-se abandonada por familiares e amigos e acabou por deixar o norte do País, onde vivia, para se tratar na Alemanha. Anos mais tarde regressou a Portugal, mas optou pela Madeira para fugir à discriminação dos que não perceberam que era uma vítima, que não teve comportamentos de risco. “E que tivesse! Ninguém deve ser abandonado numa situação destas”, observa.

“Não foi fácil” nessa altura, nem é fácil hoje. A discriminação continua, mesmo que mais camuflada, garante.

Agora, quase com 66 anos, recomenda mais atitude às vítimas desta doença. “Não somos nenhuns coitadinhos”, diz. E exorta outros a seguirem a sua vida, a irem à luta e a seguirem em frente na maior normalidade possível, apesar de todos os obstáculos.

O apoio da Abraço foi fundamental, reconhece, agradecida. Teve ajuda para ela e para as filhas e ainda hoje é apoiada. Conseguiu trabalho na Madeira com recomendações das técnicas da Associação e com o seu empenho, determinação e “conduta de responsabilidade”. Adverte que “ninguém tem escrito na testa” se está ou não infectado com o VIH.

É o testemunho de um jovem. Tem 23 anos e vive com o VIH desde os 18 anos. “Inicialmente foi traumático”, reconhece. No início, quando soube, ficou praticamente sem reacção. Só passado uma semana começou a perceber o que se passava. Foi internado duas vezes, sofreu “uma depressão mais ou menos profunda”.

Com o tempo, admite que foi aceitando a ideia aos poucos e agora já vive melhor com essa realidade. Tem a vantagem de poder contar com familiares e amigos a quem já fala abertamente sobre o tema. “Sinto-me acompanhado”, acrescenta.

Discriminação directa, assume que nunca sentiu. Mas admite ter sido usado num caso de chantagem sobre o namorado e lamenta a falta de sensibilidade, de informação e, sobretudo, o estigma que ainda acompanha esta problemática. “Fala-se sobre prevenção, mas falta quebrar preconceitos”, alerta.

Deixa ainda duas observações que considera pertinentes: o difícil acesso aos cuidados de saúde e a falta de conhecimento do próprio corpo clínico. No primeiro caso, lamenta as faltas de medicamentos na farmácia do hospital e a ansiedade que isso provoca. E aponta ainda o transtorno de ter de se deslocar todos os meses ao hospital para recolher os medicamentos. Garante que já se habituou a isso, mas teme que outros sofram bastante com essa obrigação, sobretudo quem vive mais longe do Funchal. Finalmente, lamenta ter encontrado algum desconhecimento mesmo entre o corpo clínico sobre a profilaxia mais ajustada em caso concretos. Não basta falar da prevenção e dos preservativos, atira. É preciso mais conhecimento para garantir as intervenções adequadas, observa o jovem.

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