“As pessoas mais felizes são mais produtivas em 22%”

João Pedro Tavares, Presidente ACEGE

14 Jul 2018 / 02:00 H.

Aterrou na Madeira vindo de Londres e, no mesmo dia, seguiu para Lisboa. A vida de empresário faz com que corra o mundo e João Pedro Tavares, consultor, não costuma parar muito tempo no mesmo lugar. Foi Vice-Presidente da Accenture, empresa de onde saiu há cerca de um ano para dedicar-se por inteiro a “outras coisas”. Entre elas, ser presidente a ACEGE - Associação Cristã de Empresários e Gestores - para o triénio 2015-2018. E foi mesmo para explicar qual a diferença entre um gestor cristão e outro qualquer, que conversou com o DIÁRIO. Entre outros assuntos.

Veio à Madeira para um evento do núcleo do Funchal da ACEGE. Mas antes de irmos à conferência, explique-nos: de que forma é que ser cristão influencia no trabalho? Preciso de dar uns passos atrás para explicar. A Associação Cristã de Empresários e Gestores tem mais de 1000 associados, empresários e gestores, espalhados pelo país. A nossa missão é inspirar os líderes empresariais a viver o ‘Amor e a Verdade’ como critérios de gestão, e com isso alterar a sociedade. Ou seja, por uma cultura de responsabilidade empresarial.

Mas de que forma? Não estamos a descafeinar o modelo, nem a dizer que tem de ser menos rentável, mas a introduzir uma tensão adicional: viver o ‘Amor e a Verdade’ e afirmá-lo perante os outros. Cria uma tensão, estou sujeito a um escrutínio maior. Já não sou avaliado apenas por aspectos técnicos, mas por aspectos intangíveis, por valores cristãos perante os outros.

E o que é que esta condição traz às empresas? Novos níveis de confiança. Ambientes de trabalho mais felizes, conduzem a uma maior produtividade. Um líder que vive assim é mais humano e permite que as suas pessoas, as suas empresas e a sociedade, vivam de forma mais humanizada. É um círculo virtuoso que conduz a melhores resultados. Fizemos estudos para avaliar os níveis de felicidade nas empresas e as pessoas mais felizes são mais produtivas em cerca de 22%. E são mais leais, comprometidas, desmotivam-se menos.

Então também tem valor económico. Sim, e valor social. Se tenho um colaborador que recebe uma proposta melhor e diz: ‘Não mudo de emprego, continuo aqui porque me revejo nestes valores’, tem valor económico.

Parece idílico nos tempos que correm... Parece um modelo cor de rosa, mas não é. Conduz a resultados muito mais sólidos. Há mais confiança e compromisso. É um modelo que promove a criação de valor, aspectos sociais, e não apenas o lucro. E que a sociedade também o deve distribuir de forma justa, para promovera inclusão social, o desenvolvimento integral das pessoas e da sociedade como um todo. Serve para a promoção do bem comum. É mais inclusivo e participativo.

Inclusivo de que forma, na prática? Mais solidário, promove a subsidiaridade. Significa que vou promover iniciativas para o desenvolvimento dos mais fracos, daqueles que não têm capacidade de, ‘per si’, se desenvolverem.

Como? São valores e princípios cristãos. Comprometo-me, perante os colaboradores, a atender às suas realidades familiares para lhes dar maior equilíbrio entre o trabalho e a vida familiar. Ou com as minhas colaboradoras a que, quando engravidarem, tenham lugares privilegiados de estacionamento. Ou, se tiver de reduzir a força de trabalho, comprometo-me a não colocar famílias no desemprego. Poderei ter de despedir e de cumprir com aspectos de competitividade da empresa, mas posso assumir determinados compromissos. Como avaliar todas as alternativas antes de despedir alguém: promover horários mais flexíveis, ajustes na carga de trabalho, reduzir o horário e, assim, fazer ajustes salariais, mas sem despedir ninguém. Mas mesmo que, no limite, tenha que despedir, comprometo-me a avaliar, primeiro, a saída dos que estão em situação menos precária, em vez dos piores para ficar com os melhores.

Continua a parecer utópico nos dias de hoje... A saída do mercado de trabalho de alguém é uma potencial situação de exclusão social: a pessoa deixa de sair de casa, deixa de frequentar determinados lugares, sente-se em perda de dignidade. Mas a exclusão de uma família é um potencial foco de pobreza, por isso é ainda mais grave. E tenho de atender a estas realidades, tenho que balancear.

Já teve de o fazer? Já, assim como várias empresas associadas da ACEGE. Por introdução da tecnologia, por exemplo, factor que se vai verificar cada vez mais. A crescente utilização da tecnologia vai conduzir a uma automatização de processos e a uma substituição de capacidades humanas por tecnológicas. Por isso, disponibilizamos princípios aos líderes empresariais para que, nos processos de decisão, os considerem. Amanhã uma empresa de transportes vai ter inteligência artificial e substituir os motoristas. Como no passado uma empresa de gestão de auto-estradas dispensou portageiros. E no futuro uma empresa de limpeza não precisa de pessoas, porque os robots vão solucionar.

Qualquer trabalhador pode ser associado ou é só para líderes? Temos vários jovens e que ainda não estão no topo da carreira. É para todos, desde que se identifiquem com estes valores.

A ideia é promover esta cultura dentro da empresa ou também para fora? Esta é uma cultura cristã, não é uma coisa confessional. São valores que são promovidos pela Igreja, mas ela não é dona nem refém desses valores. É entregue à sociedade, uma reflexão de anos que está a ser implementada com resultados muito práticos. Um líder empresarial vive numa tensão maior nestas circunstâncias. Estou a introduzir variáveis, algumas delas não tangíveis...

Emocionais? Também. E comportamentais, sociais, pessoais. Estamos a ir ao âmago da pessoa. É um novo modelo de relação, de confiança. E quando me perguntava: ‘Épara dentro da empresa?’, primeiro é com eles que tenho de me comprometer. Com os colaboradores, accionistas, ‘stakeholders’. Internos ou externos. Mas também posso dizê-lo aos fornecedores e aos clientes. Entro num patamar de confiança absolutamente distinto.

Porque há mais cumplicidade? Porque há compromisso mútuo maior. Se posso explicitar perante os outros os meus valores, e aos quais me comprometo, aquelas pessoas podem esperar estes compromissos. Se disser a alguém: ‘Comprometo-me perante si a não mentir e quero que me chame à atenção sempre que o fizer’, estou a elevar o patamar de compromisso e desenvolvo relações de maior confiança. Isto, também perante fornecedores, clientes. É uma cadeia estendida de valor. E estou a actuar de uma forma absolutamente diferente. Se sobre isto se montar um modelo muito mais amplo e que vai para lá das fronteiras da empresa - porque envolve a família, a sociedade, o próprio Estado - a criação de valor é maior e a destruição de valor é menor. Porque tomo em consideração um modelo muito mais holístico.

Mas não foi isso, concretamente, que o trouxe à Madeira. Vim na qualidade de presidente da ACEGE nacional, mas para um evento promovio pelo núcleo do Funchal. Foi uma conferência do professor João Carlos Espada, onde estiveram presentes muitas das entidades de topo daqui da Madeira.

Conferência essa sob o tema “Populismo e Vanguardismo na Europa”. Quais as conclusões deste debate? O projecto europeu é dos mais virtuosos que existem dentro de uma Região, também ela virtuosa. Toda a cultura europeia, da democracia, serviu de inspiração para todo o mundo. O professor João Carlos Espada conduziu uma reflexão sobre as razões pelas quais existe na Europa uma grande presença de um vanguardismo e de um populismo em simultâneo. Desafiou-nos a pensar porque é que estas realidades estão a aparecer. Provavelmente os organismos europeus não estão a evoluir tão rápido quanto as diversidades locais. Uma grande questão é se é melhor um Governo centralizado ou descentralizado? O desenvolvimento europeu aconteceu com um modelo muito centralizado, que hoje gera tensão. Há realidades locais muito diferentes. Por isso se falou tanto numa Europa a várias velocidades. A Europa apresenta níveis de desenvolvimento muito distintos, mesmo tendo esbatido em alguns aspectos. Mas apresenta tensões e desafios também eles muito distintos, não só em termos económicos, mas sociais e de relação das realidades destes países com o mundo que o circunda.

Como por exemplo? As migrações. É um tema de enorme tensão, entram na Europa muitos emigrantes, muitos deles ilegais, que depois circulam dentro da Europa. E criam, eles próprios, migrações internas, é um factor de enorme tensão. É provavelmente um dos factores que está por detrás do referendo do Brexit e, depois, do seu resultado. E tudo o que decorre daí: o medo, o terrorismo, sentido de perda de liberdade, de circulação. São bloqueadores ao desenvolvimento económico, mas também social, comunitário, à justiça social, à paz, a maiores níveis de confiança. E perante isto surgem políticas populistas.

Que podem ser perigosas... Podem ser, se não estiverem enraizadas em algo mais profundo. Se associado ao populismo vier um oportunismo e um exercício de poder exacerbado e excessivamente centralizador. Em toda a História viu-se esse tipo de situações.

O projecto europeu ainda é exequível, sobretudo depois do Brexit? Existe um Brexit, sim, mas ninguém em consciência consegue responder como terminará. Pode existir um voltar atrás quando se perceber que os custos económicos e sociais da desintegração são superiores aos do mercado único... Não dou por certo que o Brexit vá até ao final na maneira como foi pensado inicialmente. É um caminho que não se pode fazer de forma absolutamente cega porque num determinado momento se votou de daquela maneira. Os próprios britânicos, alguns que votaram a favor, provavelmente já se começam a manifestar contra porque há perdas de postos de trabalho, de poder de compra. E há problemas internos que se achava que resolveriam com o Brexit, mas afinal não.

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