As ‘pedras’ no caminho dos novos negócios

07 Dez 2017 / 02:00 H.

A legislação desajustada e o receio de enfrentar intervenientes já posicionados no mercado foram duas das dificuldades que os promotores de cinco “novos negócios” admitiram ter enfrentado no lançamento dos seus projectos. Os constrangimentos que se colocam às empresas e empreendedores que decidem inovar foram um dos aspectos abordados no último seminário organizado este ano pela Associação Comercial e Industrial do Funchal (ACIF) e que teve lugar ontem, no Museu de Electricidade – Casa da Luz. A moderação esteve a cargo do director do DIÁRIO, Ricardo Miguel Oliveira.

As cinco empresas apresentadas têm experiências muito diversificadas e que actuam em várias áreas. Desde “novos negócios” em estado ainda embrionário a outros que já se posicionam no mercado internacional. A presidente da ACIF, Cristina Pedra, defende que a Região deve apostar em novos nichos de negócio e diversificação da economia, apesar da Região continuar a ter no turismo o seu principal pilar económico e no Centro Internacional de Negócios da Madeira (CINM) outro pilar importante.

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AMAdogs, Filipa Araújo Rebelo

Conceito do negócio:

A empresa só será constituída em 2018 e propõe-se dar acolhimento aos animais de companhia no período diurno, quando os donos estão a trabalhar.

Dificuldades:

A responsável pretende abrir um ATL para cães e as entidades públicas (Câmara do Funchal e Direcção do Ambiente) estão a exigir-lhe condições próprias de um alojamento permanente de muitos animais (várias jaulas/box para guardar cães e gatos, espaços próprios para armazenar comida, bancada para tratamento de ferimentos, etc,) quando o tipo de actividades que desenvolve é o de cuidar e treinar um número reduzido de animais durante um período limitado do dia.

Aquaponics Iberia, Orlando Rodrigues

Conceito do negócio:

Produção de peixe e vegetais num circuito integrado (aquaponia), oferecendo produtos mais frescos e saudáveis (sem químicos, transgénicos e poluentes).

Dificuldades:

A empresa quer introduzir espécies de peixes que ainda não são produzidas em aquacultura em Portugal, o que implica algumas dificuldades legais, já que há que ter em conta o seu impacto no ecossistema. Orlando Rodrigues garantiu que, como o sistema de produção é em circuito fechado, não se coloca o problema de consequências negativas significativas para as outras espécies.

GoWi-fi, Tiago Cortez

Conceito do negócio:

Uma rede de Wi-Fi gratuita, rápida, segura e inteligente, pois permite às instituições aderentes direccionar informação/publicidade ajustada a determinado público-alvo.

Dificuldades:

As informações relativas a clientes de uma rede wi-fi constituem a ‘matéria-prima’ da empresa e garantir o respeito pela legislação de protecção de dados tem sido uma preocupação. A matéria e complexa e Tiago Cortez explicou que o parecer encomendado a uma sociedade de advogados quase precisa de um novo parecer para ser entendido. De qualquer forma, a empresa já obteve autorização da Comissão Nacional de Protecção de Dados e está pronta a cumprir uma nova directiva que impõe “penalizações enormes” aos infractores mas abre também facilita a entrada em novos mercados. A GoWi-fi, por exemplo, prepara a entrada na Polónia e na Irlanda.

Guest Centric Systems, Cristina Pita

Conceito do negócio:

Uma solução integrada de vendas e marketing para os hotéis, que inclui ‘website’, um motor de reservas directas e uma ferramenta de ‘channel management’.

Dificuldades:

Há hotéis que receiam que, com a implementação de uma página na Internet com a funcionalidade de captação directa de clientes, possam estar a abrir uma ‘guerra’ com o canal online que mais clientes lhes fornece (o Booking.com).

Na Madeira, por ser uma ilha, a percentagem de turistas que compram viagem e estadia num pacote comercializado por uma agência/operador de viagens é maior do que no resto do país. A dependência dos canais tradicionais pode funcionar com um desincentivo aos hotéis para investirem numa página atractiva e dinâmica na Internet. Apesar disso, a Guest Centric tem vários hotéis da Madeira como clientes e a popularização dos voos de baixo custo tem feito aumentar o número de hóspedes que contratam directamente com as unidades hoteleiras.

Tukxi Madeira, Filipe Dantas

Conceito do negócio:

Passeios turísticos urbanos com ‘triciclos’ de inspiração italiana.

Dificuldades:

O licenciamento da empresa, no ano de 2013, passou um ‘calvário’ na Câmara Municipal do Funchal. Filipe Dantas disse que o departamento de transportes da autarquia não queira licenciar a actividade por ter receio do conflito com os taxistas. Quem acabou por “ajudar bastante” a empresa foi Miguel Albuquerque que, como estava de saída, decidiu enfrentar os interesses e licenciar os ‘tukxi’. Os receios dos taxistas foram ultrapassados, diz o empresário, pois estes perceberam que a empresa não lhes fazia concorrência nos serviços de transporte. A ‘Tukxi Madeira’ desenvolve, sim, uma actividade de passeios turísticos com guia e circunscrita à cidade do Funchal.

A empresa também sofreu com a aposta inovadora nas viaturas eléctricas. Comprou dez ‘tuk tuk’ eléctricos e a determinada altura estavam todos parados com problemas de manutenção. “É a desvantagem de estar à frente no tempo”, comentou Filipe Dantas, que sublinhou que, entretanto, a tecnologia eléctrica evoluiu e constitui uma alternativa válida no sector dos transportes.

ACIF não aceita “inércia” nos apoios europeus às empresas

A presidente da ACIF, Cristina Pedra, aproveitou a abertura do seminário de ontem para lamentar a “inércia” que constata na gestão dos programas de apoios comunitários dirigidos às empresas e reivindicar mudanças já no próximo ano

“Eu espero que exista uma actuação muito eficaz na abertura de linhas de subsídios, nomeadamente o ‘Empreender 2020’ e o ‘Valorizar 2020’, que durante o ano de 2017 não abriram”, referiu a representante patronal, que lembrou que o último período de candidatura ao programa ‘Valorizar’ foi aberto em Dezembro de 2016. No caso concreto das pequenas e médias empresas “é um factor de alavancagem para estes negócios poder recorrer a subsídios comunitários”. “Por isso mesmo não podemos ter uma inércia de abrir os fundos comunitários, nomeadamente para apoio ao investimento, e a ACIF irá pugnar de forma muito activa para que eles sejam uma realidade em 2018. Da nossa parte só podemos fazer lobby saudável, necessário e assertivo e vamos continuar a fazê-lo”, completou Cristina Pedra.

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