As marcas de um século

Ana de Abreu cumpre hoje 100 anos e passou grande parte do tempo a bordar

15 Fev 2018 / 02:00 H.

Nasceu a 15 de Fevereiro de 1918 e cumpre precisamente hoje 100 anos de existência. A madeirense Ana de Abreu é a peça mais recente na estante dos centenários da nossa ilha, e consequentemente a residente mais velha do Hospício Princesa Dona Amélia, no Funchal.

Cresceu na freguesia de São Martinho e dedicou grande parte da sua vida ao Bordado Madeira, a ocupação que à época era naturalmente confinada às senhoras, fruto da passagem de testemunho de outras gerações. Hoje, as marcas e a forma como os seus dedos se moldam transmitem o dia e a noite dedicados outrora ao seu meio de subsistência.

“Bordou dia e noite à luz de óleo de baleia, que na altura chamava-se de ‘isabelinha’. Era uma excelente cozinheira e bordadeira” assim a caracteriza o filho Martinho, de 65 anos, que nos acompanhou nesta viagem intemporal.

De facto, Ana de Abreu é uma lutadora. Já ‘derrubou’ um cancro na pele e luta agora contra outro problema do foro oncológico nos intestinos. “Com esta idade não pode fazer exames, nem quimioterapia, só pode tomar pastilhas para as dores”, aferiu o quarto filho, que é o mais velho.

Resiste e não desiste em alcançar uma idade que “faz inveja a muitos”, e nas poucas palavras que nos transmitiu há um sentimento sempre presente na sua devoção a Deus.

“Gosto muito de ir à igreja”, disse a mulher que cumpre hoje um século de vida, numa lucidez “muito virada para as coisas do antigamente”, explicou Martinho de Abreu.

“Costumo dizer que a minha mãe é um carro muito velhinho que eu tenho”, brincou, respondendo de seguida à questão sobre quais os momentos mais e menos felizes que a sua progenitora vivenciou.

“Foi muito feliz com o meu pai. Visitava os cruzeiros e fazia muitas excursões à volta da ilha. Ela conheceu a Madeira assim e era nessas viagens que via a minha mãe muito feliz”, disse, considerando o momento mais marcante pela negativa o falecimento do esposo, que ocorreu há cerca de 15 anos atrás.

Passeios revigorantes

“Um dia dá-me na cabeça e vou por aí além”, disse Ana de Abreu, evidenciando então a sua paixão em passear pela baixa do Funchal. De resto, Martinho costuma visitar a mãe “quase todos os dias”, levando-a sempre a contemplar o Parque de Santa Catarina, facto que o DIÁRIO teve a oportunidade de acompanhar e presenciar. O amor, esse, é notório, muito para além da triste realidade verificada quando alguns filhos abandonam, literalmente, os pais, em lares.

“Está no lar há 15 anos e foi muito melhor assim. Nunca ia abandonar a minha mãe e custa-me sempre ir embora, então no início nem se fala. Agora vou-me habituando à ideia, mas se ela não gostasse de estar aqui eu não a deixava”, explicou Martinho.

Há cerca de um ano e meio, Ana de Abreu teve de começar a andar numa cadeira de rodas, embora ainda consiga caminhar com alguma ajuda. “Tento puxar muito pela minha mãe e olhe que ela hoje até falou mais do que o costume”, congratulou-se o nosso intermediário.

Olhando para o passado, o filho mais velho diz que a mãe “era um papagaio” e que agora os tempos são outros, isto é, de “repouso absoluto”. “O que ela teve de andar já andou. Calha partir um osso ou cair e será muito difícil para recuperar”, explicou Martinho de Abreu, entre os beijos e abraços que iam aquecendo o coração de uma mãe que nunca virou a cara aos desafios da vida.