Aqui nasce o sangue da agricultura

Não existe melhor ponto para vislumbrar o vale da Ribeira Brava. No sítio do Espigão vivem pouco mais de 20 pessoas e não há nenhuma criança

16 Abr 2018 / 02:00 H.

Recorrendo a uma expressão muito utilizada, sobretudo pelos madeirenses, para chegar ao sítio do Espigão ainda é um esticão.

A cerca de 11 quilómetros do centro da Ribeira Brava, nas Zonas Altas do concelho, o sítio que visitámos esta semana oferece uma panorâmica de cortar a respiração sobre o vale verdejante onde se insere, mas faz-nos pensar que tamanha beleza apenas é passível de ser vislumbrada fruto da persistência daqueles que quiseram e ‘teimaram’ ficar por ali a viver.

Hoje, são perto de 20 os residentes, mas não há muito tempo eram cerca de 200 aqueles que chegavam a casa depois de escalar, pelo menos, dois mil degraus, desde a Meia Légua. Agora, a estrada alcatroada há aproximadamente 15 anos facilita e muito a tarefa de chegar às residências sem requerer esforço físico, pese embora as derrocadas façam do pavimento um autêntico desafio para os automobilistas que não gostam de ‘acertar’ em buracos.

Falar do Espigão é também sinónimo de miradouro. O que ali existe é um dos chamarizes do sítio e atrai frequentemente alguns turistas. A sinalética para chegar até este ponto torna-se importante, até para quem vive na Madeira, não faltando placas a indicar o caminho, pese embora, caso sinta alguma dúvida, não hesite e pergunte a alguém que se encontre pela estrada, tal como fizemos. No entanto, deixamos aqui uma pequena orientação: é sempre a subir.

“É bom viver aqui”

Não demorou muito tempo até encontrarmos um residente quando chegámos ao Espigão. Quando vimos Custódio da Câmara estacionámos o carro e fomos logo em direcção ao morador de 38 anos.

Perguntámos a Custódio o que estava a fazer. O residente respondeu prontamente e disse estar a arranjar a sua nascente, para que a água não vertesse para a estrada. “Esta água é a que usamos para fazer café ou sumo. A água da rede não é muito boa e esta é pura, sem químicos. Nasce mesmo aqui e é água fresca. No Inverno até racha os dentes!”, começou por afirmar o ribeira-bravense.

O nosso primeiro interveniente foi quem nos confidenciou que dali para a rua “é pior de viver”, classificando o Espigão como o “cantinho do céu”.

“Muitos dos que viviam aqui foram embora, mas voltaram. Para pagar casa, comprar comer e ter filhos, como é? No fim do mês não fica nada então eles voltam! É bom viver aqui”, confidenciou.

Ainda assim, há dias em que “passam alguns turistas”, precisamente os visitantes que quebram a certa monotonia a que este sítio está votado.

O homem, que fez questão de nos confidenciar o facto de nunca ter ido a um grande arraial, como “o do Monte ou da Ponta Delgada”, esclareceu que o Espigão “é dos sítios mais isolados da Ribeira Brava” e os que residem nesta Zona Alta “vão vivendo da reforma e agricultura”.

“A condenação de muita gente”

O sítio do Espigão esteve recentemente envolvido num projecto polémico, que entretanto foi alterado.

Quando estávamos a falar de ideias políticas, como aquela lançada pelo JPP para a construção de um teleférico que ligasse este sítio à Furna, do outro lado do vale, Custódio da Câmara insurgiu-se contra a ideia que o Governo Regional tem de “querer roubar a água”.

“Aí é que vai ser bonito. O túnel vai passar aqui por baixo e para o fazer vão usar máquinas e fogo para cavar na rocha. A rocha tem tendência a abrir e há muitas nascentes que vão desaparecer. Vai haver animais que não vão ter água para beber. Vamos ter de acartar?”, questionou Custódio da Câmara, visivelmente desagradado com este projecto que “está muito mal feito”.

“Se nos tirarem a água como é que vamos viver? Dizem que vão fazer ligações, para depois pagarmos, quando a água já é nossa? Não está correcto”, acusou, relembrando que os residentes regam a fazenda com as nascentes que se encontram nos seus terrenos.

“Essa obra será a condenação de muita gente e muito gado. Como é que vamos viver num lugar seco? Não estudámos, mas conhecemos bem a nossa terra. Vão secar as fontes, nem um pingo de água vai haver no Verão e no Inverno. É um grande investimento e desnecessário”, aludiu, referindo que não só o Espigão sai prejudicado, como também outros sítios.

Uma venda diferente

Para que o leitor entenda da melhor forma o ‘espírito’ do Espigão, perguntámos a Custódio se não existia uma venda, para nos refrescarmos. O nosso entrevistado pegou no telemóvel que tinha ao bolso e telefonou àquela que é a única vendeira do sítio.

Num ápice, Serafina Câmara apareceu e abriu a mercearia que já conta com seis décadas. A mulher que até já apareceu em postais alusivos à Madeira, juntamente com a mãe, num retrato tirado em frente a uma casa de colmo, onde ambas encontram-se a bordar, guiou-nos por uma viagem repleta de história.

Primeiro, Serafina explicou-nos o porquê do sítio chamar-se Espigão. “Antigamente havia muita espiga de trigo e vê-se ainda por aí muitas casas de colmo”, disse a ribeira-bravense, reflectindo sobre o passado como um tempo de sacrifício.

“Ainda me lembro de não haver electricidade e de como era difícil viver de noite no Espigão. Tínhamos de ter muito cuidado”, frisou Serafina, lamentando que a fazenda esteja agora “indo à vida” e que “quase nada é trabalhado”, alertando ainda para o facto de existirem pessoas que “nem sabem plantar uma cebola e receberam o cheque de 100 euros” do Governo Regional.

A mulher de 78 anos recordou ainda que “antes era tudo acartado desde lá de baixo, à cabeça” e que entre os sete irmãos era “uma vez a cada um para ir à missa, para poupar nos sapatos”.

Das poucas habitações edificadas neste local, Serafina afirmou que “em cada casa vivem uma ou duas pessoas”, realçando que no fundo do Espigão, entenda-se as residências mais abaixo e onde a estrada não chega, “ainda vivem sete casais”.

Já houve uma escola

Serafina é do tempo em que ainda havia uma parteira no Espigão, “naquele tempo em que não dava para ir ao hospital”. Agora, segundo a septuagenária, “eles fazem amor, mas já não querem fazer meninos”.

Pegando no exemplo da fraca natalidade, sobretudo devido à inexistência de crianças nesta zona, a vendeira recordou-se dos tempos que havia uma escola, agora abandonada.

“Lembro-me da professora, que até dormia neste lado, e era muito má. Íamos para a escola com medo. Agora, se não há pessoas nem crianças, de que vale abrir? Antes ainda abriam para os velhinhos, para passarem o tempo ou aprender algumas coisas, como a escrever o nome, por exemplo”, explicou, numa educação ‘sui generis’.

Após quase duas horas de conversa e alguns copos de vinho à mistura, chegou a altura de nos despedir-nos de Serafina e Custódio, ficando o compromisso de traduzir em palavras um pouco da beleza do sítio e das suas gentes.

Novo projecto “não” vai secar as nascentes

Depois de ouvir as preocupações dos residentes, teríamos de ouvir a Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais. De acordo com o gabinete, “o projecto do túnel do Espigão foi alvo de reformulação, mantendo o objectivo de beneficiar uma área agrícola de 840 hectares, com 19038 explorações agrícolas, localizadas nos concelhos da Ribeira Brava e de Câmara de Lobos, continuando a não prejudicar a população”. Segundo a tutela, esta obra “tem como objectivo principal criar um traçado alternativo, seguro e fiável, evitando o troço mais crítico do Canal do Norte, e consiste na construção de um túnel que permitirá armazenar um volume significativo de água”.

Com a alteração do projecto inicial e considerando que a criação de grandes reservas de armazenamento de água constitui “uma das medidas estratégicas para fazer face à adaptação da Região às alterações climáticas, procedeu-se à reavaliação da solução inicial no sentido de aumentar significativamente a capacidade de armazenamento”, sendo que segundo a secretaria o perigo de desaparecerem as várias nascentes ali existentes está fora de questão, dado que “o traçado do novo projecto encontra-se fora da zona das nascentes, pelo que estas não serão afectadas”.

Se agricultores vão ter de começar a pagar a própria água para regar os seus terrenos, a resposta foi dada de forma categórica: “Não”. Segundo a secretaria é previsível que o correspondente concurso público para a execução da obra seja promovido muito em breve.

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