Aquecimento global pode ser pior do que o previsto

Modelos de previsão usados pela agência da ONU podem estar a substimar aumento médio da temperatura no futuro, alerta estudo publicado na revista científica Nature

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07 Dez 2017 / 02:00 H.

Os modelos para a previsão do aquecimento global usados pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (agência da ONU) podem estar a subestimar o aumento médio de temperatura no futuro, sugere um artigo publicado ontem na revista científica Nature.

Segundo Patrick Brown e Ken Caldeira, que integram o Instituto Carnegie para as Ciências, em Washington, Estados Unidos, os modelos que projectam o aumento mais acentuado da temperatura para este século são os que melhor reflectem a observação do actual clima do planeta.

“Existem dezenas de modelos e todos eles projectam diferentes níveis de aumento do aquecimento global, face às concentrações de gases com efeito de estufa, sobretudo porque não há um consenso em como modelar melhor alguns aspectos chave do sistema climático”, refere Patrick Brown.

Num cenário normal, pode esperar-se que a temperatura global aumente entre 3,2 e 5,9 graus celsius acima dos níveis pré-industriais até ao final do século, uma diferença de um grau ou dois relativamente às habituais projecções, que apresentam aumentos menos severos.

Os modelos para a simulação do clima são usados para prever a subida da temperatura que é expectável face a um aumento da concentração atmosférica de dióxido de carbono e de outros gases com efeito de estufa.

“Os nossos resultados sugerem que não faz sentido descartar as projecções mais severas de aquecimento global devido ao facto de os modelos climatéricos serem imperfeitos na simulação do clima actual”, acrescenta Patrick Brown.

A incerteza relativa ao alcance do aquecimento no futuro deve-se, sobretudo, às diferenças dos variados modelos em simular alterações em nuvens com aquecimento global. Alguns modelos sugerem que o efeito de arrefecimento causado pelas nuvens que reflectem a energia do sol em direcção ao espaço poderia aumentar no futuro, enquanto que outros modelos sugerem que este efeito pode reduzir-se.

“Os modelos que são mais capazes de recriar as condições atuais são aqueles que apontam para uma redução do efeito de arrefecimento das nuvens no futuro e, logo, aqueles que prevêem aumentos mais elevados do aquecimento global”, explicou o investigador.

O estudo de Brown e Caldeira indica que, se as emissões se mantiverem no cenário actual, há 93% de hipóteses de que o aquecimento global previsto ultrapasse os quatro graus Celsius até ao final do século, enquanto estudos anteriores apontavam apenas para 62% das hipóteses.

O acordo de Paris sobre redução de emissões de gases com efeito de estufa, assinado em 2015 por 193 países, estabelece como objectivo fundamental a contenção do aumento global da temperatura a um máximo de dois graus celsius, e preferivelmente 1,5 graus, acima dos valores médios da era pré-industrial.

A generalidade dos estudos sobre alterações climáticas coincide na previsão de que um aumento da temperatura global superior a dois graus terá consequências graves e irreversíveis no clima mundial.

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