Apostas que se querem lucrativas

O forte investimento que se fez notar há uns anos ajudou a desenvolver a Madeira, mas a crise chegou e o betão ficou. A ideia passa agora por dinamizar várias infra-estruturas que pretendem atingir o seu ponto de retorno lucrativo, sem esquecer a nossa maior riqueza

07 Nov 2017 / 02:00 H.

A dicotomia entre investimento e retorno é posta em causa quando o dinheiro que é empregue não supera o valor despendido. O processo de gastar uma quantia e tê-la, pelo menos de volta, é desde há muito um tema em discussão, numa ilha que se afirma como desenvolvida, acessível e ligada à natureza.

Nas últimas quatro décadas, a Madeira sofreu profundas modificações em termos infra-estruturais e até na sua visão turística, factos que ao apresentarmos este paralelismo, geram uma dúvida: tirámos dividendos com o dinheiro aplicado nas mais variadas áreas?

Parte do senso comum que, ao abordarmos esta temática, teríamos de falar sobre os investimentos levados a cabo pelas Sociedades de Desenvolvimento (SD), que tiveram e têm como principal objectivo criar infra-estruturas que possibilitem, num caso mais específico, o desenvolvimento desportivo, cultural e de lazer na Região.

António Abreu, presidente do Conselho de Administração das SD, respondeu que, até agora, “se considerarmos a multiplicidade e tipologia de inúmeros projectos de investimentos desenvolvidos pelas Sociedades de Desenvolvimento” no cômputo desportivo, cultural e de lazer, “existem alguns com níveis de proveitos suficientes para permitir retorno do investimento efectuado”, embora estes sejam a longo prazo.

O actual administrador defende que o grande desafio da sua gestão “é encontrar um ponto de equilíbrio” que só poderá acontecer através da “fusão das sociedades”, uma vez que existem algumas “cuja exploração é claramente positiva e outras em que é negativa”, não tivesse o rombo de cerca de 625 milhões de euros nas contas da Região em 2010 a assinatura das SD.

“Para além da fusão existe também a necessidade de sermos mais eficientes e de uma vez por todas assumirmos uma lógica verdadeiramente empresarial na gestão de alguns negócios que têm muito potencial, mas devido a diversos factores nunca conseguiram materializar” essas potencialidades.

De acordo com o actual presidente das SD, é verdade que outros investimentos não têm o retorno para os contribuintes “sob a forma de proveitos directos”, mas que são igualmente potenciadores da economia local e com um retorno social garantido, isto porque esse dinheiro nunca teve como objectivo o retrocesso financeiro.

“Eu classificaria os projectos desenvolvidos pelas sociedades segundo dois grandes planos: No primeiro plano estão os projectos desenvolvidos segundo uma lógica de rendibilidade e onde o investimento tem claramente um retorno económico e financeiro para as sociedades. Num outro plano estarão os projectos desenvolvidos onde o retorno, mais do que financeiro, assume um cariz social”, disse António Abreu.

“Situação muito débil”

Na hora de questionar o actual presidente sobre o que tem sido feito para promover os espaços geridos pelas SD, António Abreu diz que tudo tem sido feito “no âmbito de uma gestão criteriosa e conservadora, uma vez que, como se sabe, as SD têm uma situação económico-financeira muito débil”. Segundo o responsável, “são alocados recursos para promoção e o resultado é que no decorrer deste ano todos os negócios explorados directamente pelas sociedades apresentam crescimentos”, mencionou António Abreu, esclarecendo que na promoção é enquadrada uma verba destinada à especificidade de cada negócio, adequando-se ao público-alvo.

A título de exemplo, a promoção do Porto Santo Golfe e do Parque Temático são díspares. A divulgação do primeiro espaço passa pela presença em feiras da especialidade, ou seja, apostando no contacto directo e fora dos media (‘Below the line’).

Já em Santana, o Parque Temático tenta chegar não só ao público residente, mas também ao mercado turístico. “Cada acção deve levar a uma reacção, pelo que as campanhas são dirigidas a cada um dos segmentos e públicos-alvos dependendo da sua particularidade”, disse António Abreu, que sobre este espaço localizado na Costa Norte da ilha sublinha que “são usadas as diversas ferramentas de marketing como o marketing directo, incluindo, como é óbvio, o digital”, este último ponto “um dos principais meios de promoção” deste espaço.

Golfe ‘dourado’

Neste momento, o negócio mais equilibrado das SD é a exploração do Campo de Golfe do Porto Santo, tanto ao nível da facturação como do equilíbrio de exploração da mesma, dados que fazem com que em 2018 este campo tenha o objectivo claro de ser um negócio “com rácios de exploração positivos”.

“Estamos a falar de um negócio que vai facturar este ano cerca de 650 mil euros e que para o próximo, fruto de todas as acções levadas a cabo em toda a linha, atingirá seguramente 1 Milhão de euros”, garantiu António Abreu, sem esquecer que a questão dos ‘elefantes brancos’ não lhe preocupa tanto como os ‘cash burners’, ou seja, “aqueles que consumem muitos recursos, ano após ano, e onde é fundamental e crítico intervir, do que com aqueles que não geram dinheiro mas, por outro lado, não consumem nenhuns recursos para além do investimento despendido para a sua concretização”.

Conhecer para visitar

A natureza assume-se como um dos pontos a ter em conta quando falamos em empreendimentos pouco avultados, pegando no exemplo de um dos investimentos a cargo das SD, que com apenas 4 milhões, melhorou as acessibilidades adjacentes e criou o Centro de Vulcanismo das Grutas de São Vicente, em 2004, área agora concessionada à Naturnorte.

O local, que tem sido um polo de atractividade e um caso de sucesso em termos culturais e de lazer, recebeu desde 1 de Janeiro até 31 de Outubro cerca de 120 mil visitantes, o que relativamente ao ano passado sofre um acréscimo de 11%.

Jhenny Gonçalves, vice-presidente do conselho de administração, adiantou os dados e revelou que a aposta de divulgação passa pelo suporte físico, com a distribuição de panfletos em vários hotéis e postos de turismo. No digital, o ‘site’ das Grutas de São Vicente foi criado em Setembro, porque o anterior havia sido desactivo, contabilizando até agora 1.000 visitas nesta plataforma digital.

“Vamos directamente ao cliente. As visitas têm superado o esperado e todas as críticas são formas de crescimento. Muitos turistas interessam-se pelas grutas para perceber como a Madeira surgiu para então visitá-la”, disse Jhenny Gonçalves.

Aposta no turismo activo

Das infra-estruturas passamos aos fundos destinados à natureza e eventos, onde a Associação de Promoção da Madeira, juntamente com a Direcção e a Secretaria Regional do Turismo têm vindo a apostar, cada vez mais, no apoio à realização e divulgação de iniciativas que valorizam e potenciam o mar e a natureza, porque entendem que os mesmos “diversificam a oferta, acrescentam-lhe valor e contribuem para rejuvenescer a procura pelo destino”, disse Paula Cabaço.

A secretária sublinha a aposta que é visível “no aumento da procura e na própria mudança de paradigma a que actualmente se assiste, com cada vez mais turistas a quererem interagir e usufruir da nossa natureza e do nosso mar, de uma forma bem mais activa e dinâmica do que no passado”.

Em 2016, o apoio directo à concretização e promoção de eventos relacionados com o desporto e turismo activo, por parte da Direcção Regional do Turismo, rondou os 800 mil euros, verba que este ano sofreu um aumento de 5%.

Madeira digitalizada

Paralelamente, a Associação de Promoção da Madeira também contribui para a visibilidade destes eventos, através de uma intervenção que tanto envolve a respectiva promoção nos meios de comunicação, redes sociais e outras plataformas de divulgação, como a deslocação de jornalistas estrangeiros à Região, papel que tem sido fundamental para consolidar a afirmação do destino, através de cada um dos eventos apoiados.

O segmento do turismo activo é então um investimento com retorno assinalável e que sofreu um reforço nas verbas canalizadas pela secretaria. Estes nichos têm um custo na ordem dos 100 mil euros e cobrem um vasto conjunto de eventos, nomeadamente, aqueles que contribuem para o posicionamento da Região como destino ideal para os entusiastas do turismo activo.

Sem querer especificar retornos individuais, Paula Cabaço prefere sublinhar “o retorno global de toda esta aposta, forte e decisiva, na consolidação da Região como destino”, com base numa estratégia que é e será para continuar.

No seu conjunto, explica, “cada um dos eventos que é apoiado pela Secretaria Regional do Turismo e Cultura desempenha um papel determinante no reforço da nossa atractividade e na progressiva diferenciação e adaptação do produto global que somos, salientando “as condições favoráveis que o destino apresenta, ao longo de todo o ano, para o desenvolvimento deste tipo de actividades”.

“Além da beleza natural, temos, efectivamente, temperaturas amenas (ar e mar) que ajudam a que estes eventos conquistem o seu espaço e o interesse, cada vez maior, de turistas e residentes, pelo que naturalmente representam uma aposta em continuidade”, disse Paula Cabaço.

Posto isto, o futuro passará por um aproveitamento dos recursos existentes e na dinamização do nosso maior cartaz: a natureza.

Desporto para todos

Noutro campo, o investimento é abordado por David Gomes, director regional da Juventude e Desporto.

O responsável classifica o retorno efectivo das políticas públicas desportivas como de “difícil mensuração”, onde são distribuídos pelo associativismo desportivo da RAM 11 milhões e 100 mil euros.

“O maior dos retornos reflecte-se essencialmente no valor acrescentado à formação humana da população, nomeadamente, na promoção de melhor saúde e bem-estar, na formação desportiva das crianças e jovens da sociedade, incutindo bons hábitos de vida, e promovendo a socialização da população pelo desporto, quer os mais jovens, quer os menos jovens”, disse David Gomes. Com os clubes de futebol a obterem a maior fatia deste bolo, a “dimensão do retorno económico faz-se através de várias áreas, por via da promoção do destino Madeira, pelos contributos tributários das entidades desportivas, pela empregabilidade, pelo contributo em áreas paralelas, como restauração e hotelaria, agências de viagens, transportes, entre outros”, reforçou o responsável pela Juventude e Desporto na Região.

De acordo com David Gomes existem ainda “inúmeros estudos que atestam as vantagens e reflexos dos investimentos no desporto, assentes numa verdade indesmentível”, como o facto de vivermos numa sociedade com “pessoas mais activas”, o que faz com que estas sejam mais produtivas e custem menos à Secretaria da Saúde.

O apoio aos clubes, caso se qualifiquem para competições internacionais, prevê um aumento de 5% no apoio concebido, “de forma a recompensar o mérito e apoiar os custos dessa participação”, informou David Gomes, abordando o tema em termos nacionais.

“Os apoios às deslocações das várias equipas e dos agentes desportivos que participam em competições nacionais” são justificados “pelo governo central não cumprir com o princípio da continuidade territorial”, tendo sido esta a forma do Governo Regional garantir a participação dos madeirenses nas principais competições nacionais.

Calheta dinamizada

Numa área em que está a dar os primeiros passos, o Grupo AFA está a enveredar pela hotelaria.

“É uma aposta recente e neste momento não é possível obter o retorno. Estamos numa fase de crescimento e não numa fase de maturação”, começou por dizer Bruno Freitas, administrador do grupo. Segundo o próprio, ainda é um pouco difícil falar sobre retorno porque a actividade do gurpo nesta área é recente, ainda para mais em investimentos que estão a ser feitos com recurso a capitais próprios e a uma estrutura financeira que não é normalmente a convencional e tradicional no sector da hotelaria. “Estamos a falar de valores consideráveis”.

Na Calheta, o concelho dinamizou-se muito com a presença do Grupo AFA. “O retorno do investimento irá chegar, mas esta também foi uma aposta no desenvolvimento do próprio concelho e um pontapé de saída para nós”, disse, dando relevo à “visão futurista” empregue nos hotéis, dando às unidades “um cunho de turismo luxuoso e de qualidade”. Os meios de propagação passam essencialmente pelas ferramentas digitais, onde o grupo tem obtido a maioria das reservas. “O Saccharum é o hotel na Madeira que mais vende na Booking”, disse a título de exemplo. A Calheta começa assim a ser uma instância de férias e mini-férias para o público madeirense.

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