Campeão dos fogos florestais

Na sexta-feira, num fórum sobre ambiente, o alerta ‘antecipou’ a tragédia de ontem

19 Jun 2017 / 02:00 H.

O presidente do Conselho Nacional da Água, Poças Martins, afirmara na sexta-feira em Vila Nova de Gaia que “Portugal é há 20 anos campeão europeu dos incêndios, em razão da limpeza de matas que não é cumprida”. Um dia depois, na tarde/noite de sábado e de domingo, a tragédia abateu-se sobre um vasto território de três concelhos de Portugal continental, como que a querer provar que as palavras e a advertência não eram em vão.

Orador num debate subordinado ao tema “O ambiente como preocupação global: retrato de Portugal”, integrado no Fórum Internacional “Gaia todo um mundo” que vai decorrer até domingo, recusou a ideia de que o foco dos incêndios parta do indivíduo. “Em Portugal gastam-se 70 milhões de euros/ano no combate aos incêndios e quase 30 ME na prevenção, quando deveria ser ao contrário”, salientou o também professor na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto para quem, do ponto de vista ambiental “o país está melhor do que há 20/30 anos”.

A desertificação no interior é, para Poças Martins, “um dos problemas estruturantes que impede o país de ser ainda melhor”, ao mesmo tempo que apontou a “divisão administrativa” como a causa para os fogos florestais. “Mas o que conseguimos ao longo dos anos é mais valioso e quero acreditar que vamos conseguir manter esta qualidade ambiental e que esta se venha a traduzir em qualidade de vida e económica”, disse.

“Vai ficar tudo na mesma?”

A Associação de Promoção ao Investimento Florestal criticou ontem a ineficácia das políticas de combate aos incêndios florestais e questionou o Governo sobre se vai ficar tudo na mesma, depois do incêndio em Pedrógão Grande.

A associação, designada Acréscimo, lamentou as vítimas do incêndio, que continua a mobiliza centenas de operacionais no concelho, em Figueiró dos Vinhos e em Castanheira de Pera, e manifestou solidariedade para com os bombeiros, mas alertou que esta já era uma tragédia expectável, já que “parte significativa do território está convertido numa armadilha, outra parte está a caminho do deserto”.

“No país do faz de conta, o Governo definiu como limite a inexistência de vítimas humanas dos incêndios. Já não se trata de proteger as florestas, nem sequer o património ou os animais. Infelizmente, falhou! A probabilidade de continuar a falhar persiste dramaticamente elevada”, criticou, num comunicado enviado às redacções.

Na mesma nota, a Acréscimo acusa o Governo de “desestabilizar os bombeiros com argumentações inconsistentes e estratégias de última hora” em vésperas de época de incêndios, depois de ter anunciado ter “preparada toda a estrutura de combate aos incêndios”.

Incêndio é dos mais graves do mundo

O especialista em incêndios florestais Xavier Viegas revelou ontem que terá sido a “rápida propagação” do incêndio que deflagrou em Pedrógão Grande que conduziu às várias mortes, fazendo deste um dos mais graves incêndios do mundo dos últimos anos.

O professor universitário acrescentou, ainda, que a falta de limpeza das florestas e da envolvente das casas, bem como as características do terreno, terão contribuído para a extensão deste incêndio com vários focos, apesar de se suspeitar que a causa foi uma trovoada seca.

“Tudo leva a crer que a propagação do fogo foi muito rápida, não tenho a certeza, mas a indicação que tenho é que terá havido vários focos de incêndio, não necessariamente por causa humana, há possibilidade de ter sido causado por uma trovoada seca e, quando isso acontece, pode haver vários focos ao mesmo tempo em diferentes lugares e aí torna-se extremamente difícil controlar todas as situações”, explicou à Lusa.

Esta situação aliada à vegetação e ao “estado de secura muito grande” em que se encontra, e a um terreno “muito complicado”, como é o circundante do IC8, com ravinas e desfiladeiros muito acentuados, “dá origem a comportamentos do fogo que facilmente surpreendem as pessoas”.

“Diria que, infelizmente, estamos no começo do período dos incêndios e não estamos a começar nada bem. Se as condições meteorológicas não mudarem é de esperar que tenhamos este tipo de situações. Agora o que pode e deve mudar é o comportamento das pessoas”, concluiu.

“Não havia meios suficientes”

O antigo comandante dos Bombeiros de Pedrógão Grande, João Dias, lamentou ontem a tragédia que atinge o concelho e outros dois municípios do distrito de Leiria, admitindo que contra a situação vivida nas últimas horas “não havia meios suficientes”.

“O vento era muito forte, era como o diabo, que corria mais do que nós”, desabafou João Dias, em declarações à agência Lusa.