Aliança para travar geringonça

Ricardo Vieira deixa a ALM e apela à união dos que não se identificam com a ‘geringonça’. Miguel de Sousa pede mudanças. AD regional começa a ser falada

10 Out 2017 / 02:00 H.

“Acredito que há uma vontade colectiva de agregração de contributos, especialmente de gente nova e competente, que pode gerar um amplo movimento de refundação da autonomia madeirense, onde sejam convidados a juntar-se os movimentos e partidos que não desejem uma edição de uma geringonça regional”. Esta é parte da carta que Ricardo Vieira enviou ao presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, justificando o seu pedido de renúncia ao mandato de deputado.

O ex-líder do CDS comunicou, ontem, a vontade de deixar o parlamento, por entender que são necessárias mudanças profundas nos partidos que não integram a aliança de esquerda que, nas últimas eleições regionais, garantiu a vitória no Funchal. Ricardo Vieira considera que no actual grupo parlamentar do CDS-PP “é dificilmente conciliável a aposta na refundação da Autonomia”.

Ricardo Vieira resumiu, na carta a Tranquada Gomes, o que considera necessário para defender os interesses da Região. Curiosamente a maioria dos pontos referidos coincidem com o que escreveu o social-democrata Miguel de Sousa, em artigo de opinião, publicado ontem no Diário.

O ex-líder do CDS apela, claramente a um entendimento para travar a ‘geringonça regional’ - PS, JPP, BE, PDR e Nós, Cidadãos! estiveram coligados nas últimas eleições - o que poderá conduzir a uma ‘Aliança Democrática’ (coligação PSD/CDS) nas próximas eleições regionais, em 2019.

Um cenário que chegou a ser referido, ainda antes das eleições regionais de 2015, quando não havia certezas quanto à maioria absoluta do PSD - seria conseguida por uma diferença de apenas 12 votos -, mas que não se concretizou.

Depois das últimas eleições autárquicas, a possibilidade de um acordo entre PSD e CDS, com vista às eleições de 2019, volta a ser referido nos bastidores da política regional.

Uma coligação de esquerda, semelhante à ‘Confiança’ que ganhou o Funchal, é uma forte possibilidade para daqui a dois anos. É perante essa hipótese que o antigo líder do CDS defende uma posição forte. No PSD também há quem defenda essa aproximação. As direcções dos dois partidos é que não parecem muito motivadas para o diálogo.

Refundar a Autonomia

Ricardo Vieira considera que os últimos resultados eleitorais devem ser analisados “com frieza e humildade” e define cinco desafios principais para a Madeira, na próxima década: defesa do Centro Internacional de Negócios; novo relacionamento financeiro com o Estado que assegure a cobertura da Educação e Saúde; regime de acessibilidades; quadro de incremento à criatividade a o investimento; relacionamento eleitores/eleitos mais próximo, aberto e transparente.

Praticamente todos estes pontos constam das prioridades definidas por Miguel de Sousa para a Região e que devem ser defendidas pelo PSD.

Objectivos que, garante Ricardo Vieira, “serão de muito difícil concretização se a futura maioria regional for alicerçada em partidos que não defendam o projecto europeu ou dele desconfiem, em formações políticas que pretendem a extinção da Zona Franca ou ataquem os meios para atrair investimentos ou os investidores”. Referências directas a partidos, como o BE, que assumiram posições contra a Zona Franca ou que, como o PS, criaram grandes dificuldades. A última teve como alvo o Registo Internacional de Navios.

O ex-líder do CDS também considera fundamental que uma futura maioria regional “não resulte da vontade ou do impulso das direcções lisboetas dos partidos e seja genuinamente gerada e consolidada com e pelos madeirenses”. Uma posição que coincide com as acusações feitas pelo PSD a Paulo Cafôfo que foi chamado, durante a campanha eleitoral, “o candidato de Lisboa”.

Tal como Miguel de Sousa, que defende mudanças imediatas no comportamento do PSD, também Ricardo Vieira entende que o projecto de “refundação da Autonomia” deve ser preparado de imediato.

No que diz respeito ao CDS, vê “cristalizarem-se comportamentos, enjeitarem-se colaborações e circunscreverem-se a uma hipotética sorte eleitoral que faça recair em poucos deputados que restem de uma próxima eleição, a sustentabilidade de um qualquer futuro governo regional”. Nesse cenário, diz que só por “cinismo” poderia continuar no grupo parlamentar.

Vieira tinha duas hipóteses, passar a independente ou renunciar ao mandato. A primeira, garante, estava fora de questão porque nunca ficaria numa situação de prejudicar o seu partido.

Em declarações à TSF-Madeira, depois de ser conhecida a sua decisão de deixar a ALM, afirmou que o movimento de defesa da Autonomia, em oposição a uma coligação de esquerda, terá de “começar pelas pessoas, pelas bases, pela sociedade civil” e, depois, pelos partidos que não integram a ‘geringonça’.

Lideranças

Os maus resultados de 5 de Outubro provocaram mexidas no PSD, desde logo com alterações no Governo Regional, mas também no CDS o ambiente não é o mais calmo. O partido conseguiu manter a câmara de Santana mas, no Funchal, mesmo segurando um lugar na vereação, teve uma quebra de votação significativa.

Depois de todas as polémicas do último congresso do CDS, em que Rui Barreto entrou como candidato natural a líder, mas foi Lopes da Fonseca quem assumiu o lugar, embora com a promessa de não se recandidatar, tudo pode ter mudado. Até pode haver congresso mais cedo.

Já no PSD, logo na noite das eleições, Miguel Albuquerque desafiava quem questionasse a sua liderança a avançar, pedir um congresso e ira a eleições. Por agora parece que não há candidatos. Mas há críticas.

Miguel de Sousa, no artigo de opinião de ontem, era claro ao afirmar quer as eleições “trituraram uma grande parte da elite ‘renovadinha’”, mas sublinhava que “a derrota da Renovação não é a derrota do PSD”.

O vice-presidente do parlamento regional, tal como já o fizera Alberto João Jardim, logo no dia seguinte às eleições, apela á “unidade à volta das causas mobilizadoras, não só dos militantes mas também da população em geral”. E refere as prioridades: novo hospital; fiscalidade própria; nova lei das finanças regionais, incluindo solução para a dívida pública; renegociação das regionalizações; participação na gestão da TAP enquanto empresa pública; revisão ou novo sistema de ajuda à mobilidade aérea para residentes.

O objectivos que devem constar do programa de um partido que, afirma, não pode marginalizar militantes, mas que também tem um líder reconhecido.

“Miguel Albuquerque é o candidato natural do PSD, não pode haver dúvida interna sobre isto. Mas há muito trabalho a fazer. No PSD, no Governo, no Grupo Parlamentar e na Assembleia da República. Entre as diversas tarefas que cabe a cada um, é fundamental definir o que apresentar em comum como proposta eleitoral social democrata: não um programa para o PSD mas um que interesse a todos sem excepção”, escreve Miguel de Sousa.

Só falta saber se a Albuquerque agradaria liderar uma Aliança Democrática, como a defendida por Ricardo Vieira. Os números até podem ajudar a decidir.

‘AD’ com maioria absoluta

Com base nos resultados das últimas eleições autárquicas, e tendo por base os mesmos pressupostos que permitiram concluir que a coligação ‘Confiança’, alargada a toda a Região, seria a força mais votada e com mais deputados no parlamento - 22 deputados para a a ‘Confiança’, 19 para o PSD, 4 para o CDS, um do PCP e um do MPT -, também se verifica que a uma coligação PSD/CDS sairia vencedora.

Juntos, sociais-democratas e centristas conseguiam mais um deputado do que separados e atingiam a maioria absoluta de 24 mandatos na ALM. A coligação PS, JPP, BE, PDR e Nós, Cidadãos! ficava com 21 lugares e PCP e MPT continuavam a ter um deputado cada.

Pelo menos na aritmética eleitoral, uma coligação PSD/CDS poderia ter vantagens.

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