Alameda na Ribeira de Santa Luzia

O troço da Ribeira de Santa Luzia entre o Bazar do Povo e a rotunda da Autonomia deve ser um espaço partilhado, com menos trânsito e mais pessoas. E sem passeios, como defende o Gabinete da Cidade

22 Abr 2017 / 02:00 H.

Paulo David chama-lhe um chão comum. Ou um espaço partilhado. Refere-se ao início das ruas 5 de Outubro e 31 de Janeiro. Aí, segundo a sugestão do Gabinete da Cidade, as actuais ruas de trânsito normal devem dar lugar a alamedas. O arquitecto defende assim uma “renaturalização da cidade” com uma rua em que seja possível fazer conviver o trânsito automóvel, controlado, as pessoas e as árvores.

A ideia passa também por uma valorização do património existente, nomeadamente as muralhas do brigadeiro Oudinot. O troço, entre a Ponte Dom Manuel e a Ponte do Bettencourt (em frente ao Bazar do Povo) ‘escapou’ à cortina de betão que tapou as muralhas a Norte, até ao Jardim de Santa Luzia, e o Gabinete considera importante valorizar e complementar. Daí a alameda defendida por Paulo David mas também por outros técnicos como Gomes da Silva - seguindo o exemplo das ‘rambolas’ de Madrid - ou Danilo Matos (ver testemunho na página seguinte).

O arquitecto explica que esta proposta surge no contexto de uma coligação de interesses em defesa da identidade da cidade em linha com “a revelação de um valor patrimonial” como é a ribeira e as muralhas. Admite mesmo que a alameda, o chão comum, seja entendido como uma homenagem ao legado do brigadeiro Oudinot na zona onde foi possível evitar a tempo a capa de betão.

Nos fundamentos que apresenta, Paulo David refere a necessidade e de criar “uma nova forma de vivência da cidade, repondo o seu carácter fundacional de um passeio público”.

O Funchal, recorda o arquitecto, é atravessado por linhas de água “encaixadas numa profundeza geológica onde longos, espessos e sublimes muros fazem o seu aconchego como se um lenço basáltico completasse o trabalho dos vulcões”. E essa imagem deve exaltada. “Importa convocar a renaturalização” da cidade criando “espaços para todos, dilatando o espaço público, aberto, fluído, criando um chão comum”, insiste o arquitecto.

Esta e outras sugestões constam de um conjunto de propostas que o Gabinete da Cidade, criado pela Câmara do Funchal depois dos incêndios de Agosto, tem elaborado ao longo dos últimos meses. A sua concretização, ou não, depende da aceitação na autarquia. As sugestões são assim contributos para a cidade que não se esgotam em qualquer registo temporal.

Sugestões apresentadas nas últimas semanas

Criado pela Câmara do Funchal após os incêndios de Agosto do ano passado, o Gabinete da Cidade fez um exaustivo levantamento que vai muito para além das áreas atingidas pelo fogo. O resultado é um conjunto de conceitos desenvolvidos de forma técnica que ficam agora à disposição da cidade e da decisão do poder político. Ao longo de quatro semanas partilhámos algumas dessas ideias. Aqui fica um breve resumo em quatro vectores.

Valorizar o centro da cidade. O crescimento para a periferia deixou vazios espaços no centro da capital madeirense. A zona de São Pedro é disso exemplo, mas não é única. A ideia é que sejam criados novos espaços públicos aproveitando áreas actualmente fora de uso. Segundo os cálculos efectuados nos últimos meses, a área que precisa de regeneração urgente é igual a três campos de futebol.

Libertar os ‘navios encalhados’. São assim designados importantes espaços habitacionais perto do centro da cidade mas com graves problemas de acessibilidade e degradação. Os ‘navios encalhados’ são locais como os Moinhos, Levada do Moinhos, Frias, Matadouro e Portada de Ferro/Rochinha. Elevadores ou escadas rolantes podem ser equipamentos a usar nestes espaços, além de um profundo arranjo aproveitando áreas devolutas ou em ruínas. Podem ser os ‘novos bairros históricos’

Limite do perímetro urbano. Tal como define o novo PDM do Funchal, o Gabinete da Cidade também considera necessário estancar a construção encosta acima. É defendida a construção de parques urbanos que façam a ligação entre a cidade e a floresta. Surge, outra vez, a ideia do regresso ao centro.

Reabilitar, sempre. Mais do que construir novo, importar preservar, reabilitar. Em vários momentos o Gabinete da Cidade sugere a reabilitação urbana como o caminho a seguir.

Testemunho: A água e a cidade (por Danilo Matos)

A água determinou o povoamento da Ilha. As povoações nasceram junto às praias de calhau e em torno das fozes das ribeiras. A água desenhou a ocupação e o crescimento da nossa cidade – a água que cavou os vales e corre pelas ribeiras e a que está ali, sempre presente, a lembrar a insularidade. É uma relação para a vida, o que não quer dizer que seja eterna, porque se não soubermos cuidar dela a nossa existência enquanto ilha estará seriamente ameaçada, como nos lembra Reynaldo Oudinot.

É isto que hoje, quando discutimos a cidade e particularmente as desastrosas intervenções governamentais nas ribeiras, há quem não perceba e não queira ver. Mas isso é outra conversa. Convidaram-me para falar um pouco da cidade ferida na sua identidade e dos apagamentos de memórias a que temos assistido, fruto de muita ignorância e de uma certa amnésia que ameaçam a alma especial desta cidade - e isto não é uma metáfora; antes fosse.

As ribeiras fazem parte da vida da cidade, da nossa vida. Definiram a matriz e a malha urbana e com isso acrescentaram-lhe uma singularidade única de que nos orgulhamos. São duma riqueza ecológica, paisagística, ambiental e patrimonial que tem de ser acarinhada e não desbaratada. Oudinot percebeu isso quando cá chegou para tratar das ruínas do trágico aluvião de 9 de Outubro de 1803. Ele corrigiu os traçados urbanos das três ribeiras em alguns pontos, definiu as secções de vazão que ainda hoje são actuais, os perfis das muralhas, os atravessamentos, a ocupação das margens, o basalto aparelhado como material e os processos de construção. Deixou-nos uma herança patrimonial e histórica notável.

A ribeira de Santa Luzia, a ‘jóia da coroa’, merece um tratamento especial. O que lhe fizeram é inqualificável. Era a ribeira mais querida e emblemática de todas - muita da nossa autoestima como funchalenses revia-se ali. A abertura ao mar e à serra, as muralhas conservadas como se fossem monumentos, as pontes históricas como símbolos, os tapetes de flores, a frescura, o cheiro e o som da água nos períodos mais calmos – e tudo isto com a envolvência e a ‘carga’ do centro histórico onde vai desaguar. É como se fosse a nossa grande Alameda! Um espaço canal que estruturou a cidade e lhe emprestou uma estética que correu o mundo.

As feridas são profundas, há cicatrizes que vão ficar. E agora o que podemos fazer? -perguntam-me. A ribeira e a cidade nunca mais vão ser as mesmas. Mas a cidade é um corpo vivo, tem órgãos, tecidos e pele. Eu sou um defensor da ‘acupunctura urbana’, sobretudo em situações como as que estamos a viver que exigem transformações e respostas rápidas. Um conceito e uma prática de que os grandes pioneiros são os urbanistas Jaime Lerner (brasileiro) e Marco Casagrande (finlandês). A ideia é enquanto esperamos pelos planos, que levam naturalmente o seu tempo, ‘picar’ com as agulhas certas os pontos certos da cidade que têm de ser revitalizados, com pequenas intervenções urbanas rápidas. Não podemos deixar adormecer o nosso amor à cidade.

Deixei o desafio ao Gabinete da Cidade. Vamos salvar o troço final da ribeira de Santa Luzia. Afiar as agulhas para uma ‘acupunctura’ daquele espaço com um projecto simples com a criação de um passeio amplo ao longo das duas margens. O resto da ribeira fica para depois. A ideia está aí!

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Testemunho: Chão Comum (Por Paulo David)

“ O HOMEM TEM Á SUA DISPOSIÇÃO A NATUREZA PARA FAZER DELA A PAISAGEM “

(G. Ribeiro Teles arq. paisagista.)

| ITENS PARA A COMPREENSÃO DA ALAMEDA _ RIBEIRA _ Santa Luzia | conferir um plano de estabilidade e esperança para uma cidade consistente |

DISCUSSÃO

No contexto do desejo de uma coligação expressa (por todos, com todos) pela identidade da cidade, onde se exclama a vontade e revelação de um valor patrimonial aos nossos canais sulcados, mas também como processo funcional e infraestrutural da cidade, manifesta-se agora a importância da sua revelação para a construção nos seus planos de caminhos marginais, uma nova forma de vivência da cidade repondo o seu carácter fundacional de um passeio público, traduzindo assim uma “memória selectiva”, as linhas de água _ ribeiras_, matéria essa que abraçou e delineou um Sitio,_ a Cidade Funchal, num lugar único, constituindo a sua matriz.

CONFRONTAÇÃO

O Funchal é atravessado pelo ritmo das suas linhas de água encaixadas numa profundeza geológica, onde longos, espessos e sublimes muros fazem o seu aconchego como se um lenço basáltico completasse o trabalho dos vulcões, revelando o valor indómito da sua natureza e humanização da sua paisagem. Ao mesmo tempo, num mesmo gesto fundacional estabelece passagens _pontes_ entre os seus lombos, que nos remetem para uma experiência física singular passando por recantos e encantos da Cidade e nos fazem desenhar diferentes e intensas coreografias para estabelecer a nossa habitabilidade, reforçados por palcos de leitura deste recorte piramidal evidente da Cidade Funchal.

A cidade deve-se construir de uma forma eficaz e precisa na modelação da topografia, encaixando-se na concavidade oferecida e no latente desenvolvimento que contém no seu próprio Corpo e Identidade, de uma cidade anfiteatro que se adorna para a imensidão do oceano.

A construção da Cidade do Funchal “enquanto forma de paisagem é um fenómeno que se pode compreender a partir do conhecimento da sua natureza, da transformação dessa natureza em paisagem, da construção da sua paisagem enquanto fenómeno cultural”, como nos diz, Gomes da Silva.

É neste propósito que se torna profícuo contemplar o seu cunho natural, para compreender num momento de crise acionada por um conjunto de intempéries (naturais, acidentais e antrópicas), onde contrariamente desmonta a segurança da identidade da Cidade, ocultando valores, importa convocar a sua renaturalização e o suporte do seu ecossistema numa acção primeira e forçosamente a seguir o exercício do viver a cidade, criando espaços para todos, dilatando o espaço público, aberto, fluido, criando um Chão Comum.

MODELO

Neste propósito de uma premência objectiva e primacial se constrói o convite ao uso plural de um troço do espaço da cidade com o intuito da promoção do bem-estar colectivo e sua preservação.

Estabelecer e constituir a complexidade da Cidade pelo conhecimento e articulação a partir de diferentes perspectivas (a Natureza, a Construção, a Cultura e a sua Revelação);

Dar a conhecer a nossa identidade cultural para que seja apresentado em permanência como valor dinâmico, contemporâneo e próximo da sua natureza;

Revelar e criar novas dinâmicas no traçado urbano;

Estimular a vivência e estadia da rua, um dado outrora existente e fervilhante;

Libertar espaço para as pessoas valorizando e criando maior área para o percurso pedonal;

Melhorar e facilitar a escorrência da presença de veículos e uma melhor mobilidade pedonal;

Restabelecer a permeabilidade dos solos para o equilíbrio do ecossistema;

Repor e exaltar o passeio público, estruturado em alameda com valores arbóreos adequados;

Potenciar conexões com os espaços abertos existentes e ruas próximas dando continuidade, novas dinâmicas e compreensão da fisicalidade da cidade;

Recuperar e revelar a materialidade da cidade histórica, da paisagem da cidade;

Conferir um “novo” chão comum, celebrar o valor “Cidade para todos”;

“A aproximação à complexidade desta forma de Paisagem que se constitui como Cidade é feita de forma não-linear, porque o que resulta do conhecimento a partir de diferentes perspectivas (a Natureza, a Construção, a Cultura e a sua Revelação) não pode jamais ser entendido de forma fragmentada, mas através da sua articulação. “

(JGS arq. paisagista.)

Paulo David, arquitecto.

(Professor convidado na Scuola di Architettura di Mantova, Politecnico di Milano, em Itália /

Professor visitante, Option Studio, Cornell University, Ithaca, New York)