“Ainda há preconceitos”

Emanuel Caires, coordenador do núcleo do Funchal da rede ex aequo

03 Out 2017 / 02:00 H.

Nos próximos dias 6 e 7 de Outubro realiza-se o primeiro Funchal Pride, evento de cariz social que tem como principal objectivo dar maior visibilidade à população LGBTI+ (lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexo) e consciencializar para a diversidade de idades e de géneros, orientações sexuais e expressões de género. O evento é organizado pela rede ex aequo, com a parceria da Mad le’s Femme, Associação Abraço, Fundação Portuguesa ‘A Comunidade Contra a SIDA’ e APF - Associação para o Planeamento da Família e ainda os apoios da Intimate, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e da Câmara Municipal do Funchal. AO DIÁRIO, Emanuel Caires, coordenador do núcleo do Funchal da rede ex aequo, falou sobre a iniciativa e sobre o preconceito que ainda persiste.

Como é que surge a ideia de organizar o Funchal Pride?

A ideia de organizar o Funchal Pride surgiu no ano passado, quando a Câmara Municipal do Funchal abriu o concurso de apoio e financiamento a actividades de interesse municipal e associativismo. Foi aí que o núcleo LGBTI Funchal da rede ex aequo pensou em organizar um Pride, uma iniciativa pública ao ar livre e visivelmente LGBTI, onde pudéssemos expressar o nosso orgulho, as nossas orientações sexuais e românticas, as nossas expressões de género. Ao fim e ao cabo expressar toda esta diversidade que existe não só na população LGBTI mas na população em geral, porque existem muitas pessoas que não se identificam como tal, mas que acabam por se integrar um bocadinho nesta área da diversidade.

Então foi com este apoio que a iniciativa se começou a formar?

Sim, foi através da candidatura a esse apoio que surgiu a ideia. Na verdade, não foi uma ideia muito consensual. Era a ideia que eu defendia, sim, mas confesso que há alguns anos achava que era uma loucura. Mas é certo que depois de me envolver no associativismo, aprendi várias coisas e percebi o porquê de ser importante fazer este tipo de iniciativas em culturas mais fechadas como é o caso da Madeira. Então candidatámo-nos, o apoio foi aprovado e foi assim que surgiu o Funchal Pride.

Até porque já existem outras manifestações ‘Pride’ um pouco por todo o mundo e mesmo em Portugal...

Aqui o Pride funciona mesmo como orgulho. De facto, houve esta questão interna se deveria ser um nome português ou inglês, porque queremos que as pessoas percebam que estamos mesmo a falar de orgulho e não de outra coisa. E estamos a falar de orgulho, porque é exactamente o contrário daquilo que a sociedade quer que nós sintamos, que é vergonha de sermos homossexuais, bissexuais, transexuais... vergonha do nosso eu. Foi assim que surgiu as manifestações de orgulho, nos Estados Unidos, em 1969, quando houve uma revolta num bar gay em Manhattan. A partir daí começamos a expressar o nosso orgulho e isto acaba por ser quase que uma tradição da cultura LGBTI, uma forma de reivindicar os nossos direitos e de celebrar as nossas diversidades.

Mas começaram um pouco a medo, sem saber a receptividade que teria e agora o Funchal Pride é um evento que congrega um seminário, uma marcha e um arraial, e que tem cada vez mais adesão da sociedade civil, empresas e entidades que já se associaram...

Sim. No ano passado candidatámo-nos ao apoio, mas não foi uma decisão consensual. Agora já percebemos que se calhar vale mesma a pena. Na verdade, a rede ex aequo que é a promotora do evento, sozinha não conseguiria fazer isto e nós estamos a fazer isto em tempo recorde. Foi por isso que chamamos outras associações para se juntarem a nós, porque na rede ex aequo não queremos que o Funchal Pride seja apenas a representação de uma parte da população LGBTI. Queremos que seja uma representação da população em geral. Por isso chamamos outras associações a participar, associações que trabalham com partes diferentes da população, para que pudessem dar as suas opiniões e ideias para nós incluirmos no Funchal Pride. E foi depois de chamarmos essas associações que percebemos que havia muitos mais interessados em participar nesta iniciativa e que não estamos sozinhos nesta organização. Por isso, até agora, o feedback tem sido bastante positivo.

Mas ainda há dúvidas...

Sim, ainda há quem questione se isto vai ficar vazio ou não. Se a marcha terá apenas meia-dúzia de pessoas, se vai estar apenas um artista no palco a actuar para essa meia-dúzia.... Mas eu acho que não. Acho que por ser o primeiro vai haver bastante curiosidade e isso vai levar as pessoas a aparecer.

Então a expectativa é alta?

Não nego que tenha algum receio, porque afinal ainda estamos a “apalpar” terreno. Esta é praticamente uma versão beta ainda e então para o ano teremos algo mais pensado, com mais tempo para organizar. A expectativa é grande sim, mas temos algum medo de sermos poucos... eu acho que não. As pessoas estão a aderir...

Até porque no vosso convite, são bem claros quando dizem que “se queres lutar contra o preconceito, junta-te a nós...”, o que dá a ideia de ser uma iniciativa aberta a toda a população...

Na verdade, quando se fala em população LGBTI, quando falamos de minorias, há muito essa tendência de separar da sociedade em geral e essas comunidades acabam por se isolar um bocadinho. É um processo natural, acho... Um processo que vai levar à inclusão. Ao fim e ao cabo, eventos como estes permitem que pessoas que não se identifiquem como tal e se possam aproximação. E Funchal Pride também é isso...

Uma forma de abrir os olhos, portanto, uma chamada de atenção....

As pessoas dizem que não precisamos de ser negros para lutarmos contra o racismo. E também não precisamos de ser LGBTI para lutarmos contra a homofobia e a transfobia... Uma coisa não tem a ver com a outra. Compreendo que as pessoas tenham algum medo de ficar associadas à comunidade LGBTI, porque ficando associadas a essa comunidade vão sofrer preconceitos, discriminação e é normal que haja esse receio. Mas temos de ser superiores a esse receio. Caso contrário vamos estar sempre reféns do preconceito e do medo.

Há pouco dizia que a sociedade regional ainda é um pouco fechada. Nota que tem havido evolução a esse nível, ou ainda há muito preconceito em relação à comunidade LGBTI?

Eu às vezes nem sei responder a isso. Acho que em certas alturas respondo uma coisa e noutras respondo outra coisa. Muitas vezes depende do feedback que a associação recebe e até mesmo das minhas experiências pessoais. Se eu tiver em conta o Funchal Pride, há dois anos eu diria logo que não faríamos, mas este ano estamos a fazer. Acaba por ser sinal de um avanço. Acredito que há uns anos as pessoas não respeitavam tanto a população LGBTI. Mas a partir do momento em que a rede ex aequo começou a estar mais activa com acções de sensibilização, actividades várias, acho que houve um pequeno avanço, porque começamos a falar disto em público e começou a ser mais visível. As pessoas começaram a vir para o espaço público e não estar só entre 4 paredes, como era no passado. Com o trabalho que está a ser realizado pela rede ex aequo e outras associações, as pessoas começam a se sentir mais seguras em outros espaços.

Mas ainda há preconceito?

Sim, há preconceito. Às vezes na rede ex aequo recebemos denúncias de situações que acontecem aqui no Funchal, por exemplo em espaços nocturnos em que jovens LGBTI são postos na rua por estarem a trocar carinhos ou a namorar com pessoas do mesmo sexo... O preconceito existe e não é só social, não é só nestes espaços de convívio.... É também um bocadinho institucional e político, porque as instituições governamentais da Região nunca tocam neste assunto. Eu compreendo que somos um meio pequeno e é difícil chegar a todas as minorias, mas se falarmos em igualdade de género, já estaremos a falar um bocadinho de práticas contra a homofobia e a transfobia e só agora se começar a falar na Madeira sobre igualdade de género, porque antes nem se falava muito.

A partir do momento em que foi legalizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo é que se começou a falar mais sobre o assunto....

Sim, falava-se mas não tão abertamente.

Enfrentou e enfrenta preconceitos?

Quando ouço bocas, e às vezes ouço quando vou com o meu namorado na rua e estamos de mãos dadas, às vezes sou impulsivo e respondo à letra. Mas geralmente essas bocas vêm de pessoas que não dão a cara... Mas acho que o pior mesmo foi em ambiente familiar. Quando saí do armário, houve violência física, psicológica e emocional por parte do meu pai. A minha mãe apoiou-me e aceitou. Mas eu tive de sair de casa durante uns meses por causa desses episódios e quando voltei para a casa dos meus pais, a situação manteve-se e foi complicado... E não acabou por aqui. Inicialmente houve mais violência física, depois houve violência psicológica, mas depois envolveram-se as autoridades e eu próprio me afirmei contra os comportamentos que o meu pai estava a ter, mas, entretanto, os meus pais separaram-se e isso acabou...

E em ambiente escolar?

Houve algum preconceito, mas não foi muito directo nem forte. Como sei que há pessoas que têm experiências muito más em ambiente escolar, eu desvalorizo a minha experiência, porque o máximo que sofri foram ‘bocas’ e há quem sofra bullying por serem homossexuais, bissexuais ou transsexuais. Já no trabalho, nunca sofri discriminação nem preconceito, mas tenho algum medo de levar as coisas normalmente e dizer abertamente que sou gay... Para mim o pior nem é o preconceito, é o medo de sofrer, de não saber a reacção que virá do outro lado...

É um caminho que se percorre?

Sim, e é o que eu tento fazer. Levar as coisas devagar.

Nesses momentos difíceis que passou, encontrou conforto e apoio na sua mãe, amigos... Hoje a rede ex aequo também ajuda jovens LGBTI que estão a passar por momentos difíceis...

Quando me assumi aos meus pais, a rede ex aequo foi o meu apoio, através de um fórum online onde jovens de todo o país expõem as suas dúvidas, as suas angústias e eu fui várias vezes ao fórum nessa altura. A rede ex aequo foi um apoio para mim e ainda é. No entanto, sei que muitos jovens que passam pela rede ex aequo passam por esse processo: começam por pedir apoio e depois de uma altura começam a querer retribuir esse apoio. Foi isso que aconteceu comigo. Comecei a fazer voluntariado na área da comunicação da rede ex aequo, depois formei o núcleo do Funchal e passei a integrar a direcção da associação. É um caminho de que me orgulho bastante. Gosto muito da rede ex aequo e do trabalho que fazemos e é uma associação única em Portugal constituída por jovens LGBTI para jovens LGBTI.