Achada a Norte

A freguesia das Achadas da Cruz fica no Porto Moniz e apresenta um elevado risco de desertificação

05 Fev 2018 / 02:00 H.

Quem vive nas Achadas da Cruz diz que esta é a freguesia mais longínqua do Funchal, e não é para menos. Nas placas de sinalização podemos constatar que o caminho até à capital madeirense faz-se ao longo de 60 quilómetros de asfalto, o que há muitos anos atrás não era assim. Antes, parte do percurso era em terra e os residentes demoravam entre “três a quatro horas” para chegar ao Sul da ilha, uma realidade que, naturalmente, se alterou.

Chegados ao Porto Moniz subimos pela Santa e eis que nos deparamos com este local recôndito, que nos Censos 2011 contabilizava 159 moradores e representava uma densidade populacional de 22 habitantes por quilómetro quadrado. Passados sete anos o número de residentes é menor, segundo alguns populares, e conta com menos jovens, facto com o qual nos cruzamos logo no primeiro contacto com a população.

Poucos foram aqueles que encontrámos a vaguear pelas ruas e o estabelecimento de António Correia parece ser o ponto de encontro para, os poucos que ali vivem, se encontrarem durante o dia, todos eles idosos e com ‘vestígios’ de trabalho na terra, a principal actividade económica da freguesia, que também está em declínio.

A Fajã das Achadas da Cruz é o maior chamariz desta localidade, existindo duas formas distintas para chegar até ao calhau: de teleférico ou a pé. Lá em baixo, pode deixar-se encantar com os palheiros tradicionais, terrenos agrícolas e uma promenade com uma extensão de três quilómetros, onde o único ruído possível de escutar nesse percurso são as ondas do Oceano Atlântico.

Com a água canalizada por via de três nascentes e sem electricidade, esta fajã acaba por chamar muitos turistas, especialmente no Verão, curiosos por vislumbrar a imponência e beleza natural deste local, que apresenta um declive de aproximadamente 500 metros. Os preços do teleférico são apelativos: três euros por pessoa é o valor do ingresso.

Antes viviam quase 800 pessoas

Júlio Gregório, de 70 anos, trabalho no teleférico da Fajã das Achadas da Cruz “há mais de 30 anos” e diz que ao longo dos tempos “tudo mudou” na freguesia.

“Na agricultura não há trabalho a fazer. Antigamente trabalhávamos mais na terra, mas toda a gente parou. A vida está cara e os mais novos não querem saber da agricultura”, disse Júlio Gregório, à medida que ia controlando o ‘sobe e desce’ do transporte mais utilizado para chegar à fajã.

Actualmente vivem ali “120 pessoas à rasca”, mas há 30 anos “viviam quase 800” e “cada casal tinha duas ou três vacas para vender leite”, mas isso agora “já não existe”, descreveu o septuagenário, brincando até com a situação: “A vaca de leite hoje em dia é a Segurança Social que passa baixas e fundo de desemprego”, respondeu.

O teleférico abre às 8 horas da manhã e fecha às 17h30, mas ainda existem alguns turistas que escolhem descer a pé. “Deixe-os quietos”, disse Júlio Gregório, depois de um grupo ter decidido percorrer a vereda. Ainda assim, o outro trilho que existe, ligando a Santa ao Calhau, está encerrado devido a uma quebrada.

“Demoram 25 minutos para chegar até lá em baixo. O teleférico fecha se estiver bastante vento, mas os turistas não costumam ter medo. Há umas semanas o teleférico ficou parado a meio durante três horas”, afirmou, antes de nos convidar a descer e mostrar a sua boa disposição: “Desçam, porque se cair só se perde a cabine”.

Não vive ninguém na Fajã das Achadas da Cruz e o espaço “é só usado para cultivar” ou para as pessoas passarem os fins-de-semana, constatou Júlio Gregório.

Achada na Internet

Depois de uma viagem calma no teleférico até ao calhau, onde para todos os efeitos não existe rede no telemóvel, estabelecemos contacto com um grupo de amigos encantado com o local, e que havia viajado desde a Polónia.

Jakub Pewca, de 39 anos, foi o porta-voz do quarteto, descrevendo o porquê de estar nas Achadas da Cruz.

“A minha mulher descobriu este sítio na Internet. É um local interessante e impressionante, especialmente o teleférico. A capacidade de fazer estas casas num sítio tão inóspito e longe de tudo é inacreditável e a promenade é também um ponto a ter em conta”, observou o polaco, que descreveu a Pérola do Atlântico como a ilha da “Primavera eterna”, certamente regozijado por ter encontrado melhores condições climatéricas, em pleno Inverno, em comparação com o seu país natal.

De resto, esta era a primeira vez na Madeira para os quatro, que decidiram pernoitar no Funchal, mas alugaram um carro e estavam a percorrer a ilha de Norte a Sul.

“Não há gente na rua”

Voltámos àquilo que se pode chamar o ‘centro’ da freguesia. Ali, existe uma mercearia, que também serve de bar, posto de correios ou ‘cabine’ telefónica, e onde em frente há uma paragem coberta, local onde encontrámos alguns residentes, um deles José Dias.

“Não se nota gente na rua. As mulheres já não querem ter filhos e são meia dúzia de velhos que andam aí. Se fosse há uns anos atrás, em que éramos quase mil pessoas a trabalhar de manhã à noite... Agora nem chega a 100”, descreveu o homem de 57 anos, olhando para os tempos passados.

“Os arraiais eram ‘rijos’ antigamente, agora nem isso. O que está a dar é o teleférico, mas é para o turismo, não para nós. Temos de viver da agricultura, mas nem é para vender, porque isso já nem rende”, afirmou o residente, salientando que Emanuel Câmara “é um bom presidente”.

Com missa às quartas e domingos, “antigamente a igreja enchia de gente”, mas hoje em dia “são muito poucos e velhinhos” que celebram a eucaristia, também porque “houve muita gente que emigrou”, maioritariamente aqueles que têm entre 18 e 30 anos.

“A escola está a apodrecer”

António Correia até sabe quem fuma nas Achadas da Cruz: “São quatro”, diz o proprietário da mercearia que está aberta todos os dias da semana e onde ainda muitos realizam as suas compras, quer da própria freguesia, quer os residentes de algumas localidades da Ponta do Pargo, que ficam mesmo ‘ali ao lado’.

“No Verão costuma estar muita gente”, assinalou António Correia, de 71 anos, lamentando que o estabelecimento de ensino tenha fechado. “Gastaram um dinheirão a remodelar o edifício e um ano depois fechou e foram todos para a vila. Deviam utilizar aquilo para fazer um Centro de Dia para os mais velhos. A escola está apodrecida”, apontou.

Depois de descrever que existem “muitos velhinhos a viver sozinhos”, o sossego que parece reinar nesta localidade foi abalada há umas semanas atrás, quando assaltaram quatro residências, o que ainda assim não faz ‘tremer’ a pacatez de um local que compreende uma área de 10 quilómetros quadrados e que realça os valores da ruralidade e do silêncio, longe da ‘turbulência’ citadina.

O filho do ‘senhor’ da mercearia é presidente da Junta de Freguesia, e tem o mesmo nome que o pai. “Parece que está destinado que o filho mais velho tenha de ter o mesmo nome que o pai”, contou em jeito de brincadeira.

Segundo o próprio, “existem muitas pessoas das Achadas da Cruz espalhadas pela ilha e pelo Mundo”, mostrando-se igualmente preocupado com o pequeno número de residentes, perspectivando, nesse sentido, o futuro.

“Temos aqui uma das entradas para a Floresta Laurissilva, que é a Levada do Moinho. A ideia passa por criarmos um espaço em que os turistas possam descansar, tomar um banho e, quiçá, pernoitar, como forma de atrair gente para a freguesia”, afirmou António Correia, um dos (poucos) rostos mais novos das Achadas da Cruz.

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